terça-feira, 22 de maio de 2007

Um militar com vocação para a revolta

Depois da aula de história ministrada pelo amigo Luiz Alberto Pandini em seu blog, me senti meio que impelido a falar de política e políticos, novamente. Mas é por uma boa causa.

Semana passada, por uma ninharia, comprei o ótimo livro Bela Noite Para Voar (Relume Dumará), com textos deliciosos de Pedro Rogério Moreira - que para quem não sabe, foi repórter da TV Globo nos anos 80, passou um ou dois anos na Amazônia e depois foi se juntar a Álvaro Pereira, Carlos Monforte, Marilena Chiarelli e Antônio Britto na trupe de repórteres da cobertura política em Brasília.

Misto de ficção e realidade, o livro relata a paixão do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira pelas viagens de avião. E olha que nem por isso JK foi achincalhado como FH e depois pelo atual chefe de estado, Luiz Inácio Lula da Silva. Pelo contrário: JK foi cerceado por todos os lados, teve que enfrentar dois levantes - Jacareacanga e Aragarças - e para isso contou com o apoio do Marechal Henrique Duffles Teixeira Lott, tido como um "monstro de honradez" e que foi defensor de primeira hora da legalidade do resultado das eleições que apontaram JK presidente.

Carlos Lacerda, líder da UDN e oposicionista ferrenho primeiro de Getúlio Vargas e depois de Juscelino, tinha um importante aliado em sua briga: o Brigadeiro Eduardo Gomes.

Carioca, nascido em 1891, Eduardo foi um dos integrantes da mal-sucedida insurreição dos "18 do Forte", marco do tenentismo. Sobreviveu ao incrível tiroteio na praia de Copacabana, foi preso e fugiu para o Mato Grosso, onde trabalhou como professor e com nome falso.

Os 18 do Forte: Eduardo Gomes é o primeiro da foto, à esquerda



Ele ainda participou da Revolta Paulista em 1924 e foi preso de novo quando ia se aliar à Coluna Prestes e outra vez em 1929. No fim da década, conspirou contra a Aliança Liberal e foi um dos artífices da derrubada do presidente Washington Luís.

Com Vargas no poder, Eduardo Gomes criou o Correio Aéreo Militar, o posterior Correio Aéreo Nacional, embrião da FAB. Mas com a criação do Estado Novo, em 1937, exonerou-se do comando. Em 1941, com a criação do Ministério da Aeronáutica, foi nomeado Brigadeiro, e com esta patente candidatou-se pela União Democrática Nacional (UDN) à presidência da república. Perdeu para Dutra em 1945 e na eleição seguinte para Getúlio Vargas. Seu slogan era absolutamente hilário: "Vote no Brigadeiro: é bonito e é solteiro". Mas Eduardo Gomes era ruim de voto.

Daí em diante, dedicou-se a uma ferrenha oposição ao presidente, tendo Lacerda como um fortíssimo e importante aliado. Os dois conseguiram o que queriam: provocaram o suicídio do presidente e com Café Filho no poder, o Brigadeiro voltou ao Ministério da Aeronáutica.

Em 1956, ele foi vice na chapa de Juarez Távora pela UDN e foram derrotados por JK, numa eleição onde concorreram também o folclórico Adhemar "rouba mas faz" de Barros e o integralista Plínio Salgado.

Eduardo Gomes não sossegou o facho enquanto Juscelino esteve no poder e quando João Goulart assumiu a presidência após a renúncia de Jânio Quadros, conseguiu articular o golpe militar de 1964, conhecido por todos como "A Redentora". Francamente, redentora do que, eu não sei.

Ele ficou por mais três anos como Ministro da Aeronáutica, no governo Castello Branco, a UDN virou ARENA com a extinção do pluripartidarismo em 1966 e Lacerda, seu fiel aliado, ironicamente foi cassado pelos militares. Reformado, Eduardo Gomes afastou-se da vida pública e morreu em 1981, aos 84 anos de idade, em seu apartamento no Flamengo.

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