domingo, 20 de julho de 2014

Lições desaprendidas, o retorno

Inacreditável, mas ele vai voltar...

Nem Tite, muito menos um nome do exterior. A seleção brasileira terá novamente um velho conhecido do público em seu comando a partir da próxima terça-feira. Uma entrevista coletiva deve anunciar o nome de Dunga para regressar ao cargo que foi seu desde a saída de Carlos Alberto Parreira até a derrota diante da Holanda, na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.

Em que pese o bom retrospecto de Dunga, não é o que a seleção precisava neste momento. Todos - torcedores e imprensa - clamando por uma renovação da estrutura do futebol brasileiro a partir das divisões de base e, após a saída de Luiz Felipe Scolari, os erros continuam e a irritação do público só aumenta. Ninguém engoliu o aumento de poder a Alexandre Gallo, muito menos a contratação de Gilmar Rinaldi como o coordenador de seleções da CBF. O mesmo Gilmar Rinaldi que, na coletiva realizada nesta última semana, fez questão de esclarecer que não é mais empresário de jogadores. E por que fez questão de afirmar isto com veemência? Quem não deve, não teme, não é mesmo?

Gilmar foi companheiro de Dunga como jogador no Internacional e na seleção brasileira. E foi esse passado que provavelmente influenciou na decisão do retorno dessa polêmica personagem ao centro das atenções. Como muita gente sabe, Dunga incomodou muita gente - principalmente na Rede Globo - pelos privilégios que a emissora deixou de ter ao longo da Copa do Mundo de 2010. Não deixa de ser irônico que o grande inimigo daquela ocasião esteja de volta. E para quem diz que a CBF abre as pernas para a emissora carioca, a volta de Dunga soa como um soco, daqueles bem doloridos, bem no meio das partes baixas.

Só não sei se realmente é o que esperávamos. Aliás, acho que ninguém contava com essa. A vinda de Tite só aumentaria o "cordão" de gaúchos que tomaram conta do comando técnico da seleção desde 2001, com exceção da vinda de Carlos Alberto Parreira, um carioca. A volta de Dunga, mais do que dar continuidade à "República dos Pampas", é um retrocesso. O Brasil está ridicularizado após o 7 x 1 sofrido em seus próprios domínios diante da Alemanha e não é Dunga quem vai recuperar o moral da seleção.

Cabe lembrar que em 2010, embora - repito - tenha tido um bom retrospecto até a derrota diante da Holanda, morreu abraçado a jogadores como Felipe Melo, em quem depositava todas as suas fichas e em suas convicções, abrindo mão de Neymar e PH Ganso, que poderiam ser boas opções no banco de reservas. Tal como Scolari, Dunga não tinha alternativas em seu time. Alguns dos jogadores que ele levou  para aquele Mundial são dignos de risada. 

Enfim, é isso. Parabéns (só que não) a José Maria Marín e Marco Polo Del Nero, os mandatários da CBF, pela teimosia e pela inoperância de não mexer na estrutura e não ousar trazer um técnico estrangeiro. Venceu o corporativismo. Venceu a ignorância. Venceu o comodismo.

O preço poderá ser muito caro: poderemos ver o Brasil fora de uma Copa do Mundo brevemente. É só continuarem com os erros que isso vai acontecer.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Lições (des)aprendidas

Em 29 de novembro de 2012, este blog cantou a pedra. Parecia que eu estava adivinhando o desfecho da campanha da seleção brasileira na Copa de 2014, sob o comando de Scolari e Parreira. O acachapante 7 x 1 que a Alemanha impôs em Belo Horizonte, no maior vexame da história de mais de 100 anos do Brasil no futebol, nos dá mais uma lição que insistimos em não aprender.

Klose, 16 gols em Copas. Ronaldo mereceu ter o recorde quebrado, por tudo o que fez e fala fora dos gramados
Os sintomas de que alguma coisa está muito errada - e faz tempo - estão aí para todo mundo ver. O Santos, não satisfeito em levar um 4 x 0 do Barcelona na final do Mundial de Clubes, levou oito num amistoso, ano passado. O Internacional perdeu para o canhestro Mazembe, da República Democrática do Congo. E o Atlético-MG foi impiedosamente derrotado pelo Raja Casablanca na semifinal do Mundial de Clubes. Sem contar que na atual edição da Copa Bridgestone Libertadores, não há nenhum clube do país entre os quatro finalistas. Enchiam a boca os entendidos para exaltar a presença de Cruzeiro, Flamengo e do próprio Atlético e todos ficaram pelo caminho, em meio a derrotas e campanhas pífias.

Vamos combinar também que o Campeonato Brasileiro não é dos mais atrativos também. Ingressos caros num país de salário mínimo de R$ 670 desmotivam o torcedor, que prefere ficar em casa - já que as partidas são transmitidas (quase todas) pela televisão, atendendo sempre aos critérios da Globo, que prefere dar ibope a Corinthians e Flamengo do que transmitir partidas de acordo com a importância das mesmas na classificação do campeonato. Como efeito, as médias de público decaem e dos principais centros do futebol mundial - é claro - o Brasil não figura com um clube sequer entre os principais campeões de renda no planeta.

E aí entra em cena a Alemanha, de novo.

O 7 x 1, o "Mineirazo", é uma vergonha pra ninguém botar defeito. Deveria servir de lição, mas...
Alemanha que nos massacrou terça-feira, que nos impingiu um banho de bola como poucas vezes eu vi uma seleção fazer em cima do Brasil. Esqueçam o Maracanazo de 1950 no quesito vergonha. Esqueçam o 3 x 0 de Saint-Denis em 1998, dos gols do Zidane e da convulsão do Ronaldo. Vergonha? Vergonha foi isso que todo mundo viu em HD e rede mundial, para deixar qualquer um sem saber onde enfiar a cara. E podia ser de muito mais do que sete: ao fim do primeiro tempo, 5 x 0 a favor no placar, os próprios jogadores alemães - em RESPEITO aos torcedores e à história da seleção brasileira - tiraram o pé. Afinal, para que o esforço se o resultado já os punha na decisão? Schurrle fez mais dois, mas entende-se: entrou para mostrar serviço ao técnico Joachim Löw. Mas os alemães já tinham feito o estrago e nem o gol de Oscar atenuou o vexame.

Os nossos adversários da semifinal, velhos conhecidos de Copas do Mundo, com 13 semifinais e agora oito decisões no currículo, também tiveram suas lições para aprender. E aprenderam. Foram espiaçados pela Croácia, uma nação estreante, com um sonoro 3 x 0 na Copa de 1998. Caíram fora da Euro 2000 logo na primeira fase. A Deutsche Füssball Bund acordou para a vida e percebeu que, se não houvesse uma reformulação, os alemães perderiam o prumo no futebol mundial.

Em 2002, um time mesclando jogadores de técnica duvidosa - alguns até inexpressivos - a veteranos como Bierhoff, um solitário craque (Michael Ballack) e um desconhecido e predestinado atacante, chamado Miroslav Klose, conseguiu ir além do que se esperava e perdeu para o próprio Brasil na final em Yokohama. E o que se viu depois disso? Mais três semifinais consecutivas, com dois 3ºs lugares e um vice da Eurocopa de 2008. Afora a constância, uma geração formidável de jogadores surgiu na base e o resultado está aí.

Os próprios clubes do país se fortaleceram, a Bundesliga hoje é uma das ligas mais valorizadas da Europa e do futebol mundial e temos visto, com frequência irritante, Bayern de Munique e Borussia Dortmund entre as melhores equipes do continente, com jogadores excelentes e futebol bem jogado, dinâmico, pra frente. 

Parece o Brasil, não é mesmo? Só que não.

Em vez de melhorar, dar passos à frente, queremos retroceder. Fala-se de Tite para 2018. Pode ser um vencedor, no que não discordo, mas a mentalidade dele não difere muito dos que lá estiveram na seleção - Dunga, Mano, Felipão - todos, por sinal, gaúchos. Nada contra o povo do Rio Grande do Sul, mas chega! Está na hora de RENOVAÇÃO. De REFORMULAÇÃO. De RECRIAÇÃO.

Querem o quê? Que a seleção fique fora da Copa de 2018? 

O problema está na mentalidade retrógrada dos abjetos donos do poder que se mantém na CBF. O filhote da ditadura e Muttley nas horas vagas José Maria Marin e seu futuro sucessor, Marco Polo del Nero, numa ciranda na qual quem roda, de verdade, é o futebol brasileiro. Roda, roda e não sai do lugar.

Marin é refratário à ideia de um técnico estrangeiro, o que seria tremendamente saudável para a seleção brasileira. Que se dane a barreira do idioma. Por que não arejar as ideias com gente nova, capaz de trazer propostas ousadas e devolver ao futebol brasileiro o talento que tem faltado? As divisões de base, mais do que uma mina de ouro onde empresários inescrupulosos garimpam falsos craques a preço de banana, são de uma aridez desértica em termos de talento. 

Quem tivemos, de natureza excepcional, nos últimos 10 anos no futebol brasileiro? O Neymar. E paramos por aqui! Não existe renovação, não existe a busca do craque. Bom mesmo é formar jogadores altos, de defesa ou volantes, de preferência de muita correria e obediência tática. Craques? Esqueçam. Ninguém se preocupa com eles.

O único culpado? Menos... MUITO menos
E aí, nós vamos discutir a seleção brasileira do Scolari, em que a culpa do fracasso desta Copa, ao invés de recair em quem convoca e quem escala, fica nas costas de um único jogador, que foi sacaneado sucessivamente por todo mundo. Claro que falo do Fred.

Acusa-se o Fred de ser poste, cone, bosta, inútil, imóvel e o cacete a quatro. Mas esse mundo é engraçado: em 2013, TODO MUNDO gritava "O Fred vai te pegar" após cada gol marcado contra - vejam bem os adversários - Itália, Uruguai e Espanha. Alguma coisa aconteceu de errado em 365 dias, porque o meio-campo da seleção inexistiu em TODA a Copa (Oscar é um morto e Hulk é ridículo) e Neymar jogou mais recuado, para conduzir a bola vindo de trás e o camisa #10 apelava mais para o individualismo do que qualquer outra coisa. Aí, meus caros, centroavante morre de fome se a bola não chega a ponto de que se marque um gol. E Fred fez só um. E Fred foi considerado o culpado por tudo. Até pela fratura da 3ª vértebra da coluna do Neymar.

Explicar o inexplicável? Tenta a sorte, Scolari...
Acho uma sacanagem imputar a culpa ao jogador, como se fosse o único. Perderam TODOS. Todos os 23 convocados, toda a comissão técnica - que depois nos ofertou um espetáculo de empáfia, soberba e arrogância numa entrevista coletiva das mais patéticas que já existiram - e a Confederação Brasileira de Futebol. O esporte é coletivo e não individual. Parem com essa perseguição idiota, que beira o clubismo. Fica claro que, para quase todo mundo, Fred é um pária porque veste a camisa do Fluminense, hoje odiado pela grande maioria dos torcedores dos clubes rivais.

Essa é mais uma lição que infelizmente deixamos de aprender. A Copa não foi perdida só porque o Fred não fez os gols que deveria fazer. Foi perdida a partir do momento em que se entregou de volta o comando da seleção a Felipão e Parreira. Perdeu-se a grande chance de uma renovação e de uma reinvenção que poderia ter rendido frutos ou, talvez, uma derrota muito menos vexaminosa que o Mineirazo de 8 de julho.

O 7 x 1 deveria sacudir as estruturas do futebol brasileiro. Da base da pirâmide até o topo. Mas o que eles querem?, pergunto novamente, como fiz em 2012: atingir o fundo do poço?

A soberba e a presunção nos fizeram cair fora em 1974 quando Zagallo fez troça da Holanda; perdemos em 1982 porque não soubemos segurar um resultado de empate; caímos fora em 1986 porque quem deveria cobrar o pênalti no tempo normal amarelou; perdemos em 1990 porque começamos a dar as costas para a essência do nosso futebol; fomos eliminados em 2006 porque o oba-oba deu a tônica desde a preparação em Weggis e o ego dominava aquela seleção e, finalmente, nos mandaram pra casa mais cedo em 2010 porque não tivemos equilíbrio e força para reagir após a virada dos holandeses.

Não vou me estender mais no assunto. Afinal, quem sou eu para desagradar a Dona Lúcia, não é mesmo?

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Bendito, Benedito, Bem dito Assis, o "Carrasco"

Bendito o dia em que Benedito pisou nas Laranjeiras em 1983.


Benditos aqueles que enxergaram, em dois negros espigados, magros, altos e que tinham química, uma simbiose como poucas vezes vimos no futebol brasileiro nos últimos anos.

Benditos os gols marcados por essa dupla, logo chamada de "Casal 20", alusão muito bem-humorada ao seriado global estrelado por Robert Wagner e Stephanie Powers - que em tempos modernos de cyberbulling seria vítima, sem dúvida alguma, de brincadeiras jocosas e infelizes.


Bendito Benedito, que aos 45 minutos do segundo tempo de um Fla-Flu em fins de 1983, recebeu lançamento primoroso de Deley, esticou a bola na frente e, com passadas largas e convicção tremenda, avançou rumo ao gol flamengo defendido por Raul Plassmann. O lado tricolor das arquibancadas, que já deixava o Mário Filho, explodiu com o gol fatal, histórico, irreversível, inenarrável.


Bendita comemoração, mãos na cabeça como quem diz "eu não acredito!", que fica para sempre marcada dentro dos nossos corações tricolores. 

Bendito título, o primeiro.


Bendito Benedito, que no ano seguinte, noutro Fla-Flu, subiu alto, impávido colosso, para finalizar de cabeça um cruzamento perfeito do nosso camisa #4 Aldo. Bendito Benedito que fez Ubaldo Matildo Fillol brincar de estátua. Bendita explosão nas arquibancadas. Bendita alegria. Bendito bicampeonato carioca.

Bendito título, mais um, de um Flu campeão brasileiro de 1984 e tricampeão carioca em 1985.


Bendito sorriso que não se apagava do rosto de Benedito Assis Silva. Benditas comemorações dos amigos eternos, mãos espalmadas, pulos de alegria e abraços sinceros.

Bendito destino que levou Washington em 25 de maio, vítima de uma doença degenerativa - esclerose lateral amiotrófica (ELA). Destino que une, mais de três décadas depois, o camisa #9 daquele time histórico do Fluminense e o velho amigo Benedito, nocauteado aos 61 anos por uma insuficiência renal.


As tabelinhas infernais e os gols do Casal 20 agora serão noutro plano. E celebradas pelas crônicas imortais de Nelson Rodrigues.

Benditos ídolos Washington e Assis. Ah, pobres de espírito aqueles que profanam pelas esquinas que o Fluminense não tem ídolos.

Aí está a prova: Assis, o Carrasco, vira mito. Fica para a eternidade. A nação tricolor chora a perda daquele que honrou a camisa #10 como ninguém.

Vai com Deus, ídolo eterno!
Bendito, Benedito... bem dito Assis, o "Carrasco".

Saudade!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Carnaval 2014 - os sambas do Grupo Especial

Maior campeã do carnaval do Rio de Janeiro com 21 títulos, a Portela busca sair de uma longa "fila" com o melhor dos 12 sambas do Grupo Especial no ano de 2014

Como eu prometera no post anterior, agora chegou a vez dos pitacos sobre os sambas do Grupo Especial. Repito que esta é uma análise despretensiosa, coisa de quem gosta de samba e acha que pode dar opinião sobre a safra de 2014. Longe de mim querer parecer gato-mestre da matéria, mas acompanho carnaval há uns bons 30 anos, então creio que possa discorrer sobre o tema sem nenhum problema.

Para começar, vou meter o pé na porta: o que é a gravação dos sambas deste ano? Apresentar explanações dos carnavalescos sobre cada um dos doze enredos? O que o ouvinte quer é SAMBA, música pura e simplesmente. Dessa vez, o sr. Laíla, de quem já não tenho muita simpatia por meter o bedelho dele em tudo e ainda por cima se achar o todo poderoso da Beija-Flor, se superou no nonsense. Não tenho curtido também o formato de gravação ao vivo, adotado novamente desde 2011. Enfim, questão de gosto.

Nenhum dos 12 sambas das principais escolas do carnaval do Rio de Janeiro está alçado à categoria de obra-prima, mas é certo que alguns se sobressaem, enquanto outros elevam o nível da categoria dos bois com abóbora, algo que nunca é esperado de grandes escolas, mas por vezes isso acaba acontecendo.

Vamos então aos comentários, por ordem de apresentação na avenida, como feito na análise dos sambas da Série A.

Império da Tijuca
Enredo: "Batuk"
Compositores: Márcio André, Rono Maia, Karine Santos, Tatá, Vaguinho e Alexandre Alegria
Intérprete: Pixulé

Campeã da Série A em 2013, a agremiação do morro da Formiga volta ao Grupo Especial após 18 anos e com um grande samba. A parceria de Márcio André acertou na mosca e o que eles nos trazem é um refrão de cabeça poderoso - Vai tremer... o chão vai tremer... é nó na madeira, segura que eu quero ver... - e uma obra bastante adequada ao enredo proposto pelo carnavalesco Júnior Pernambucano, que faz sua estreia no grande desfile. Outro grande achado é a escola se intitular "o primeiro império do samba", o que não deixa de ser verdade, pois o Imperinho veio em 1940 e o Império Serrano surgiu em 1947. Se a escola fizer tudo direitinho e os jurados não canetarem esse samba-enredo, as chances de permanência no Grupo Especial são boas. Mais uma estreia merece destaque: a do intérprete Pixulé, que com "muita habilidade" conduz a gravação, onde foi mudado o tom na frase "Lua... clareia na aldeia... celebração... é dom de comunicação". Nada comprometedor, pelo contrário. Nota 9,8

Acadêmicos do Grande Rio
Enredo: "Verdes olhos de Maysa sobre o mar, no caminho: Maricá"
Compositores: Deré, Robson Moratelli, Rafael Ribeiro, Hugo da Grande Rio e Toni Vietnã
Intérprete: Emerson Dias

Enredo CEP, como já se sabe e alusivo aos 200 anos de Maricá, com uma resvalada na cantora Maysa, para dar um pouco mais de credibilidade à escolha, já que a intérprete dos olhos que na definição de Manuel Bandeira eram "dois oceanos não-pacíficos", morou na cidade até o fim de sua vida em 1977. Não tenho a menor simpatia pela agremiação de Duque de Caxias pelo viés midiático que lhe é dado. Tenho enorme restrição a enredos do gênero porque eles apelam para os inevitáveis clichês na construção de uma letra de samba-enredo. E para piorar, o andamento da bateria comandada por Mestre Ciça é excessivamente acelerado, beirando a marcha. Apesar dos pesares, o samba não é dos mais terríveis do ano, embora seu refrão principal seja bem fraquinho se comparado ao da Império da Tijuca - aliás, é covardia a comparação. Emerson Dias, que conduz a gravação sozinho, esteve bem e seguro. Nota 9,1

São Clemente
Enredo: "Favela"
Compositores: Ricardo Góes, Serginho Machado, Grey, Anderson, FM e Flavinho Segal
Intérprete: Igor Sorriso

A agremiação de Botafogo aposta, como algumas outras coirmãs têm feito depois da aposta bem-sucedida da Portela, num samba com estrutura de três refrões. Eu estive numa das eliminatórias e para o meu gosto, havia obras melhores que a escolhida para representar a São Clemente em 2014. Mas a letra é bem construída e não compromete no resultado final. O intérprete Igor Sorriso foi apenas correto - nos dois últimos anos, especialmente em 2012, ele deu um show nas gravações. Nota 9,2

Estação Primeira de Mangueira
Enredo: "A festança brasileira cai no samba da Mangueira"
Compositores: Lequinho, Júnior Fionda, Paulinho Carvalho e Igor Leal
Intérprete: Luizito

E não é que a Mangueira vem para o carnaval de 2014 despida da antipatia que vinha conquistando nos últimos carnavais? Nada de "a maior escola do samba do planeta" e nada de "É surdo um, mané!". A verde e rosa de Cartola e Carlos Cachaça retoma suas tradições e rebatiza a lendária bateria com o lema de sempre - "Tem que respeitar meu tamborim". Foram condições impostas pelo presidente Chiquinho da Mangueira e o intérprete Luizito, que vinha com o alusivo ao qual me referi primeiro, seguiu à risca as ordens do 'chefe'. E ele brinda o ouvinte com uma interpretação fabulosa de um dos melhores sambas do ano, cortesia da parceria de Lequinho, Júnior Fionda e Igor Leal, já campeã noutros anos. O refrão de cabeça é ligeiramente duvidoso com o "Oba Oba... eu quero ver quem vai...", mas não compromete o restante da obra. Nota 9,7

Acadêmicos do Salgueiro
Enredo: "Gaia, a vida em nossas mãos"
Compositores: Xande de Pilares, Dudu Botelho, Miudinho, Betinho de Pilares, Rodrigo Raposo e Jassa
Intérpretes: Quinho, Leonardo Bessa, Xande de Pilares e Serginho do Porto

Lá vem o Salgueiro com seus exageros de sempre. Quatro intérpretes e um samba que os bambas qualificam como um dos melhores do ano - mas será que só sou eu que não gosto dele? À primeira audição, não me pegou e mesmo tendo escutado bem mais do que uma vez, continua não me agradando. O clichê "Caô, meu pai, Xangô" eu já ouvi zilionésimas vezes noutras obras e noutros carnavais, alguns bem recentes. Que pena, Salgueiro... seu samba não tocou meu coração. Nota 9,4

Beija-Flor de Nilópolis
Enredo: "O astro iluminado da comunicação brasileira"
Compositores: Sidney de Pilares, JR Beija-Flor, Júnior Trindade, Zé Carlos, Adílson Brandão e Diogo Rosa
Intérprete: Neguinho da Beija-Flor

Um dos grandes desastres de 2014. O pior samba da Beija-Flor desde os seus dois infames enredos de exaltação ao governo militar nos anos 70. Também pudera: fruto de uma escolha absolutamente infeliz de enredo, ao homenagear o ex-vice-presidente de operações da Rede Globo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, como mote para falar da comunicação do Brasil, só podia sair um samba tenebroso como este apresentado pela agremiação de Nilópolis. Um autêntico boi com abóbora que nem Laíla conseguiu salvar. Começaram muito mal quando o samba foi apresentado. Havia um "A campeã voltou" que logo foi descartado pelo diretor de carnaval porque podia soar mal para a BF - como se a própria fama da agremiação já não contribuísse para isso. Ao mexer na letra, Laíla piorou ainda mais a obra, como se ainda fosse possível. O refrão do meio é horroroso. Alguém gostou desse negócio de "Um lado a comunicar, o outro comunicou"? E o tal do "que babado é esse, de samba no pé"? Meu Deus... nem nos meus piores pensamentos podia imaginar a Beija-Flor apelando para um samba tão ruim. Enfim, gosto não se discute. Lamenta-se. Os componentes vão cantar com a fúria costumeira e vão achar tudo lindo, tudo ótimo, como sempre acham. Tomara que os jurados não se deixem levar pelo peso do enredo e coloquem a Beija-Flor fora do desfile das campeãs, que é o que ela merece. Nota 8,5

Mocidade Independente de Padre Miguel
Enredo: "Pernambucópolis"
Compositores: Dudu Nobre, Jefinho Rodrigues, Marquinho Índio, Jorginho Medeiros, Gabriel Teixeira e Diego Nicolau
Intérprete: Bruno Ribas (participação especial Dudu Nobre)

Sambão! Se a Mocidade Independente de Padre Miguel precisava de algo para recuperar a auto-estima dos seus componentes, eis uma obra à altura das tradições da agremiação verde-e-branco. A homenagem a um dos grandes nomes da escola, o carnavalesco Fernando Pinto, autor de enredos lendários como "Ziriguidum 2001" e "Tupinicópolis", emociona. O samba é uma delícia de se ouvir, com belíssima melodia e ótima interpretação de Bruno Ribas - contratado em cima da hora para o lugar de Luizinho Andanças - e com uma forcinha de um dos compositores, Dudu Nobre. Faz tempo que a turma da Zona Oeste não vinha tão bem em termos de samba como agora em 2014. O problema é que a escola segue envolta com os velhos problemas de sempre: a indefinição política, resolvida há dias com a renúncia de Paulo Vianna na presidência, o atraso no barracão e demais imbróglios envolvendo até a troca da Rainha de Bateria. Que nada abale o desfile da Mocidade. Nota 9,8

União da Ilha do Governador
Enredo: "É brinquedo, é brincadeira! A Ilha vai levantar poeira!"
Compositores: Paulo George, Gabriel Fraga, Carlinhos Fuzil, Régis, Canindé e Flávio Pires
Intérprete: Ito Melodia

A segunda escola de quase todo mundo que gosta de carnaval no Rio de Janeiro vem com um bom samba para o desfile do Grupo Especial de 2014, para apagar a frustração dos insulanos com a obra apresentada ano passado na homenagem a Vinícius de Moraes. A tricolor da Ilha do Governador traz um enredo à altura da alegria que a agremiação tem como característica na maioria absoluta de seus desfiles. O único senão de um samba que tem uma boa melodia e boas sacadas como no refrão do meio é que falta o chamado "algo mais". Nada que comprometa o trabalho de Carlinhos Fuzil e parceiros. Ito Melodia, filho do saudoso Aroldo Melodia, conduz a gravação com segurança e animação. Nota 9,5

Unidos de Vila Isabel
Enredo: "Retratos de um Brasil plural"
Compositores: Evandro Bocão, Arlindo Cruz, André Diniz, Professor Wladimir e Artur das Ferragens
Intérprete: Gilsinho

Campeã incontestável de 2013 com um samba que estava furos acima do resto, desta vez a Vila Isabel não tem uma obra-prima à altura do ano passado para lutar pelo bicampeonato, embora mais uma vez estejam entre seus autores o mala e onipresente Arlindo Cruz e também André Diniz, no que já é lugar comum em matéria de disputa na terra de Noel Rosa. Melodicamente, é uma obra que lembra em alguns momentos o samba do ano passado, mas não passa disso. A letra é menos inspirada, embora seja um bom samba - mesmo apelando para referências batidas como o canto do uirapuru e a lenda do negrinho do pastoreio. A Vila ganhou com a vinda de Gilsinho, que deixou a Portela. O intérprete saiu-se muito bem na gravação. Nota 9,5

Imperatriz Leopoldinense
Enredo: "Arthur X - o reino do Galinho de Ouro na corte da Imperatriz"
Compositores: Elymar Santos, Me Leva, Guga, Gil Branco e Tião Pinheiro
Intérprete: Wander Pires

Mais uma tentativa de trazer o futebol ao carnaval: a Imperatriz Leopoldinense faz uma aposta duvidosa num enredo sobre Zico (que faz 60 anos exatamente no dia do desfile, 3 de março) para angariar a simpatia da torcida flamenga para a agremiação de Ramos, sempre espiaçada pelos bambas e tida como uma escola "fria" e "certinha". Coisa de quem, convenhamos, não entende do riscado porque já vimos a Imperatriz levantar a avenida, como aconteceu em 1980/81, em outros dois anos em que não foi campeã - 82/83 - e em 1989, no ano em que derrotou o luxo do lixo da Beija-Flor de Joãozinho Trinta. Mas isso não vem ao caso, agora. Voltemos à aposta duvidosa: afirmo isso me baseando no que aconteceu com a Estácio de Sá em 1995 (100 anos do Flamengo), com a Unidos da Tijuca em 1998 (100 anos do Vasco) e com a Acadêmicos da Rocinha (100 anos do Fluminense). Foram enredos que não deram em nada ou em rebaixamento - caso da agremiação do Borel. E que fique claro: desde o início, achei a proposta de enredo equivocada, sendo que eu sou torcedor doente da Imperatriz. E com imenso pesar, não vou torcer pela minha escola do coração pela primeira vez nos últimos 34 anos. O samba também não é grande coisa. Na gravação, ficou sem explosão nenhuma, embora o refrão de cabeça seja pura apelação para fazer a galera levantar na arquibancada. E para o meu gosto, havia coisa melhor na disputa: o samba defendido por Wantuir e Preto Jóia na gravação e assinado por Zé Catimba (há quem diga que era de André Diniz, que não pode pôr o nome na parceria, por já estar na Vila) era mais melódico do que a obra que vai para a avenida. Só posso dizer uma coisa: em 2015 volto a torcer, a menos que se escolha outro enredo ridículo. Nota 9,2

Portela
Enredo: "Um Rio de mar a mar: do Valongo à glória de São Sebastião"
Compositores: Toninho Nascimento, Luiz Carlos Máximo, Waguinho, Edson Alves e J. Amaral
Intérprete: Wantuir

Mais um grande samba da parceria de Luiz Carlos Máximo, o que tem sido normal nos últimos três anos. A Portela segue sua aposta em obras com três refrões, mantendo o padrão que encantou os bambas e também os jurados, que premiaram a agremiação de Oswaldo Cruz com cinco notas máximas em 2012 e 2013. Samba delicioso de ouvir, cheio de bossa, ginga e malandragem, digno de fazer o Rio circular de terno de linho e chapéu panamá, feito malandro da Lapa. A estreia de Wantuir é em grande estilo. Foi uma excelente aquisição para o microfone da azul e branco no lugar de Gilsinho, que foi para a Vila. É a melhor das 12 obras do Grupo Especial neste ano. Nota 9,9

Unidos da Tijuca
Enredo: "Acelera, Tijuca!"
Compositores: Gustavinho Oliveira, Fadico, Caio Alves e Rafael dos Santos
Intérprete: Tinga

A viagem do carnavalesco Paulo Barros sobre o tema Ayrton Senna, cuja morte completa 20 anos em 2014 nos traz o outro boi com abóbora do carnaval deste ano no Grupo Especial. E não é porque sou fã declarado do outro tricampeão de Fórmula 1, Nelson Piquet, que critico duramente a obra da agremiação do morro do Borel. É porque o samba é ruim. No primeiro refrão já pega pesado com dois dos grandes rivais de Ayrton - Alain Prost e Michael Schumacher. Tem quem ache que não, mas um refrão que diz "Tentando trapacear, deu mole, rodou na pista... ficou para trás o Vigarista", sendo que Schumacher era jocosamente chamado de Dick Vigarista pela imprensa brasileira e o Prost rodou na volta de apresentação do GP de San Marino de 1991, fica bastante claro quem são os vilões da história, não é mesmo? E o final do segundo refrão, que tinha "Ayrton Senna do Borel" foi trocado para "Ayrton Senna do Brasil", com certeza para fazer um ligeiro afago no ego de Galvão Bueno. E sobre o samba, a escolha foi infeliz: havia, sem nenhuma dúvida, pelo menos uma obra melhor do que esta, assinada pela parceria de Luiz Thiago e Diego do Carmo. Nota 8,7

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Carnaval 2014 - os sambas do Grupo de Acesso

A Unidos do Viradouro é uma das dezessete escolas que lutarão pelo título da Série A no carnaval do Rio de Janeiro. Desfiles serão em 28 de fevereiro e 1º de março

Este blog raramente é atualizado, mas como eu também gosto de carnaval - não só de música em geral e principalmente de esportes - vou dar os meus pitacos sobre a safra de sambas-enredo do Carnaval de 2014 do Rio de Janeiro.

Vou começar pelo Grupo de Acesso, que tem - com exceção das reedições, que aqui não serão avaliadas - bons sambas. Não é uma safra tão boa quanto a de 2013, mas temos pelo menos quatro obras que podem impulsionar suas escolas a brigar pelo título e dentre as reedições, uma é - logicamente - aguardada com imensa expectativa. Refiro-me, claro, à volta do Em Cima da Hora à Sapucaí com "Os Sertões", sua obra-prima do Carnaval de 1976, num ano de muitas chuvas - algo que está previsto no roteiro para este ano, o que deve mexer muito com os brios da rapaziada de Cavalcante.

Sem grandes delongas, vamos às análises, por ordem de apresentação das 17 escolas da Série A:

Em Cima da Hora
Enredo: "Os Sertões"
Compositor: Edeor de Paula
Intérpretes: Antônio Carlos e Arthur Franco

Campeã do Grupo B em 2013, a escola de Cavalcante marca sua presença de volta à Sapucaí revivendo o maior samba de sua história e um dos maiores do Carnaval do Rio de Janeiro. Não é uma tarefa das mais fáceis reeditar uma obra de 1976, quando os sambas eram mais dolentes e cadenciados. Mas a produção do CD, a cargo de Leonardo Bessa, trabalhou bem para que a melodia não se descaracterizasse e mesmo num andamento mais acelerado - um tom acima, os intérpretes Antônio Carlos (ex-Sereno de Campo Grande) e Arthur Franco, que vinha defendendo os sambas da Mocidade Vicentina na Intendente Magalhães, brilharam. Tomara que a previsão de chuva não se concretize e que possamos ver uma apresentação digna da agremiação suburbana.

União de Jacarepaguá
Enredo: "Os Iorubás - A história do povo nagô"
Compositores: Alexandre Valle, Dona Ivanísia, Neyzinho do Cavaco, Mário Araújo, James Bernardes e Girão
Intérprete: Tiganá

Após uma digna apresentação em 2013, a União de Jacarepaguá tem a difícil missão de continuar numa Série A que prevê o rebaixamento de três agremiações. Jorge Caribé idealizou mais um enredo afro entre enésimos já apresentados na Marquês de Sapucaí e o samba foi o primeiro inédito da safra para este ano. Não chega a ser dos melhores do gênero, mas está longe de comprometer. Tiganá defendeu muito bem a composição de Alexandre Valle e parceiros na gravação. Nota 9,5

Acadêmicos da Rocinha
Enredo: "Do paraíso sonhado, um sonho realizado..."
Compositores: Alexandre Naval, Anderson Benson, Flavinho Segal, F. Maria, J. do Táxi, Leandro RC, Marcelinho e Maurício Amorim
Intérprete: Leléu

Não satisfeita com o samba trash de 2013 e que, surpreendentemente, rendeu a ponto da escola realizar um excelente desfile ano passado, a Acadêmicos da Rocinha aposta na mesma parceria para a obra de 2014. O enredo é apelativo: uma ode à Barra da Tijuca, bairro detestado por sete entre dez cariocas. E a letra do samba, com todo respeito aos compositores, está longe de colocar qualquer agremiação no rol das favoritas. Rimar lelé da cuca com Barra da Tijuca, convenhamos, não é algo agradável aos ouvidos exigentes de quem foi amamentado com sambas-enredo dos anos 70 e 80. A escola vai ter que cortar um dobrado para agradar a plateia. Na gravação da faixa no CD, Leléu defendeu o samba com garra. E só. Nota 8,9

Renascer de Jacarepaguá
Enredo: "Olhar caricato. Simplesmente, Lan!"
Compositores: Moacyr Luz e Cláudio Russo
Intérpretes: Diego Nicolau e Evandro Malandro

Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortellini Rossi Rossini. Simplesmente, Lan. O caricaturista fã do Flamengo, da Portela e de belas mulheres, preferencialmente mulatas, que terá completado 89 anos de intensa vida antes do desfile oficial, é o homenageado da Renascer de Jacarepaguá para este carnaval da Série A. E temos um belo samba inédito aqui, cortesia da parceria entre Moacyr Luz e Cláudio Russo, duas griffes do gênero. Variações melódicas interessantes e sacadas inteligentes como usar a frase "O Rio de Janeiro é todo Lan!" por duas vezes num dos três refrões da letra compõem uma obra simpática, muito bem defendida por Diego Nicolau e Evandro Malandro, substitutos do antigo intérprete Rogerinho. Nota 9,7

Unidos do Porto da Pedra
Enredo: "Majestades do Samba: os defensores do meu pavilhão!"
Compositores: Bira, Márcio Rangel, Wilson Bizzar, Eric Costa, Alexandre Villela e Duda SG
Intérprete: Anderson Paz

A Porto da Pedra tem como grande mérito livrar-nos do tenebroso samba de Paulinho Direito, uma das piores coisas já concebidas para qualquer disputa de quadra em qualquer tempo. Tudo bem que a "obra" entrou para o terreno do trash e para o folclore do carnaval carioca, mas querer que fosse para a avenida é inconcebível. O samba escolhido para o desfile de 2014 tem bela melodia e apenas isso. Nenhuma menção explícita aos homenageados do enredo idealizado pelo carnavalesco Leandro Valente, para exaltar a figura de mestre-sala e porta-bandeira. Anderson Paz, de volta às gravações, defendeu bem a obra de Bira, Márcio Rangel e parceiros. Nota 9,3

Paraíso do Tuiuti
Enredo: "Kizomba, a Festa da Raça"
Compositores: Rodolpho, Jonas e Luiz Carlos da Vila
Intérprete: Daniel Silva

Essa é uma das duas reedições sob o grande signo da incógnita nesta Série A. Principalmente porque esta é uma obra da Vila Isabel reeditada pelo Paraíso do Tuiuti, simpática mas pequena agremiação de São Cristóvão que escapou por pouco de ser rebaixada para o Grupo B ano passado. O enredo idealizado por Martinho da Vila e que foi apresentado no ano do centenário da Abolição da Escravatura (e que ganhou brilhantemente o carnaval de 1988) será responsabilidade do carnavalesco Severo Luzardo, que ano passado fez um carnaval bastante pretensioso no Acadêmicos do Cubango, que não deu em nada. A atuação de Daniel Silva na gravação da faixa é correta. 

Inocentes de Belford Roxo
Enredo: "O triunfo da América - O canto lírico de Joaquina Lapinha"
Compositores: Altamiro, Tico do Gato, Vinícius Ferreira, Claudinho, Chiquinho do Bar, Manelão, Abílio Mestre Sala, Paulo e Juruna Zona
Intérprete: Ciganerey

Laíla mal chegou à agremiação da Baixada Fluminense e já fez das suas: juntou dois sambas para fazer um, em homenagem à mineira Maria Joaquina Lapinha, soprano de grande carreira no século XIX. Até que a obra de Altamiro e parceiros começa bem e sua melodia é bem dolente até o refrão do meio. Mas é um samba sem explosão e com tendência a se arrastar até o refrão final, que também não é lá grande coisa. Boa participação de Ciganerey na gravação. Nota 9,3

Império Serrano
Enredo: "Angra com os Reis"
Compositores: Paulinho Valença, Henrique Hoffmann, Popeye, Victor Alves, Filipe Araújo, Tião Pinheiro, J. Centeno e Beto do Império
Intérprete: Clóvis Pê

Mais um enredo CEP trazido pelo Menino de Quarenta e Sete para a avenida. O Império Serrano, em mais um ano no Acesso, aposta em Angra dos Reis para voltar ao Grupo Especial. Não será uma tarefa fácil e o maior império de bambas do carnaval carioca terá que se desdobrar para atingir um objetivo que é cada vez mais complicado. Apesar disto, o samba de Paulinho Valença e parceiros é dos mais agradáveis, de letra menos rebuscada que o habitual e com bela melodia, com boas sacadas para falar do "negro guerreiro de Bracuí". Ótima interpretação de Clóvis Pê e destacada participação do combo percussivo com os agogôs que são marca registrada da agremiação de Magno. Nota 9,6

Tradição
Enredo: "Sonhar com Rei da Leão"
Compositor: Neguinho da Beija-Flor (Neguinho da Vala)
Intérprete: Marquinhos Silva (participação especial de Neguinho da Beija-Flor)

Lá vem a Tradição, com mais uma reedição. Com o perdão da rima, ninguém aguenta mais a escola de Campinho apelando para não cair para a Intendente Magalhães, rua onde fica sua quadra-sede. É a sexta reedição de enredos por parte da agremiação - quatro de coirmãs. A vítima da vez é a Beija-Flor com seu enredo de 1976 que deu para a escola de Nilópolis seu primeiro título entre as grandes escolas. Afora o fato de ser uma alusão ao jogo do bicho, atividade eminentemente ilegal, o samba está longe de ser dos melhores já produzidos por qualquer compositor da Beija-Flor. Creio que um dos motivos da reedição seja a alusão a Natal da Portela, pai do presidente da Tradição, Nésio Nascimento, na segunda estrofe após o refrão do meio, porque pelos motivos já descritos, nada justificaria a volta deste samba ao carnaval após 38 anos. O fraco Marquinhos Silva, que assassinou o sambaço da Portela reeditado ano passado no desfile da Tradição, foi ajudado pelo próprio Neguinho da Beija-Flor, compositor e intérprete do samba na avenida, que até 1976 era conhecido pela alcunha de Neguinho da Vala.

Alegria da Zona Sul
Enredo: "Sacopenapã"
Compositores: Márcio André Filho, Gabriel Braga, Virgínia, Adelson, Edvander e Telmo Augusto
Intérprete: Edmilton di Bem

A origem de Copacabana é cantada pela Alegria da Zona Sul, agremiação dos morros do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho. É uma bela proposta de enredo, com um bom samba, de melodia valente, letra bastante interessante e dois refrões bem gostosos de se cantar. O ótimo Edmílton di Bem, que já teve passagens por Tradição, Estácio de Sá e Unidos de Lucas, que já se saíra muito bem no ano passado durante o desfile que homenageou o Cordão do Bola Preta, tem excelente desempenho na gravação. Pena que o samba tem apenas uma passada e meia no CD. Nota 9,5

União do Parque Curicica
Enredo: "Na garrafa, no barril, salve a cachaça, patrimônio cultural do Brasil"
Compositores: Washington, Júnior Bebezão, Thiago Silveira, Fael Cachinho, Vagner Silva, Bola, Pitimbu, Dudu, Zé Luís e Cláudio Russo
Intérprete: Ronaldo Yllê

Não será uma missão fácil para a União do Parque Curicica a permanência na Série A depois da reedição do sambaço da Portela de 1994, com um enredo 'inédito' sobre a cachaça - que, convenhamos, não é novidade nenhuma em se tratando de carnaval. Apesar do tema já recorrente, a escola optou pela junção de dois sambas para apresentar sua obra definitiva na avenida. No disco, Ronaldo Yllê tem bom desempenho. Se enredo e samba vão funcionar no desfile oficial, já é outra história. Nota 9,2

Caprichosos de Pilares
Enredo: "Dos malandros e das madames: Lapa, a estrela da noite carioca"
Compositores: Jorginho Moreira, Frank, Rafael Gigante, Victor Rangel, Max Colonna e Edinho de Pilares
Intérprete: Thiago Brito

Lapa, outro enredo recorrente em carnavais do Rio de Janeiro, é o tema da Caprichosos de Pilares, que traz um samba apenas correto e sem explosão. O refrão principal foi modificado - para pior, o que deixou a obra ainda mais pasteurizada do que já estava. Destaque para o retorno de Thiago Brito ao carro de som da agremiação suburbana, após dois anos na Inocentes de Belford Roxo. Nota 9,3

Unidos do Viradouro
Enredo: "Sou a terra de Ismael. Guanabaran vou cruzar, pra você tiro o chapéu, Rio vou te abraçar"
Compositores: Dudu Nobre, Diego Tavares, Zé Glória, Paulo Oliveira, Dílson Marimba e Júnior Fraga
Intérprete: Zé Paulo Sierra

Vice-campeã da Série A em 2013, a Unidos do Viradouro continua sua saga para voltar ao Grupo Especial, do qual foi campeã em 1997. E desta vez, o samba que ganhou a disputa não tem o mesmo brilho da obra do ano passado, embora seja funcional, adequado ao enredo, com melodia valente e um refrão delicioso de cantar. Vamos ver como a obra de Dudu Nobre e parceiros se sairá na avenida, no primeiro carnaval concebido por João Victor Araújo para a agremiação do Barreto. Zé Paulo Sierra, após um bom tempo na Estação Primeira de Mangueira, faz sua estreia na Viradouro no CD da Série A, com boa atuação. Nota 9,5

Estácio de Sá
Enredo: "Um Rio à beira-mar: ventos do passado em direção ao futuro!"
Compositores: China do Estácio, Thiago Daniel, Jorge Lopa, Guto Smuk, Filipe Medrado, Renato Pinto, Eduardo Moreira e Ricardo Basile
Intérpretes: Leandro Santos e Dominguinhos do Estácio

O berço do samba vem com um enredo que, certamente, vai fazer a alegria do prefeito Eduardo Paes (Calma, isto não é um elogio ao político, pelo contrário). Assim como a obra alusiva ao Teleporto - e que rendeu um bom samba - este enredo fala do "bota-abaixo" de Pereira Passos e também remete às obras do Porto Maravilha e a revitalização consequente daquela área, oferecimento do atual alcaide - a Estácio de Sá vem com um dos melhores sambas da Série A em 2014. A gravação é uma das melhores do disco, com a volta de Dominguinhos do Estácio à escola que o revelou para o carnaval. Ele e Leandro Santos conduzem muito bem a obra de China do Estácio e parceiros. Nota 9,8

Acadêmicos de Santa Cruz
Enredo: "Do toque do criador à cidade saudável do Brasil - Jundiaí, uma referência nacional"
Compositores: Preguinho, Léo do Tamborim, Douglas Ramos, Robinho do Cavaco e Rodolfo Frez
Intérprete: Paulinho Mocidade

Com todo o respeito aos jundiaienses e habitantes daquela região do interior de São Paulo, mas Jundiaí não dá samba. Por mais que a Acadêmicos de Santa Cruz nos queira mostrar que isso é possível, o único mérito da obra da escola da Zona Oeste é trazer sangue novo para as composições da agremiação, já que venceu a parceria de Preguinho, Léo do Tamborim e parceiros. No mais, não é um grande samba, posto que é um enredo CEP (como já fora o alusivo ao Ceará em 2013, mas com um samba bem melhor). Aliás, a Santa Cruz já apresentou coisas bem melhores no Acesso. Paulinho Mocidade, que será a voz da escola mais uma vez na avenida, conduziu o samba muito bem no disco. Nota 9,1

Unidos de Padre Miguel
Enredo: "Decifra-me ou te devoro: enigmas da vida!"
Compositores: Arlindo Neto, Pedrinho da Flor, Jefinho Rodrigues, Jorginho Medeiros, Lauro Silva e Fernando Piá
Intérprete: Marquinhos Art Samba

Após trazer um samba de temática afro de viés bastante duvidoso em 2013 e fazer um desfile bem razoável, a Unidos de Padre Miguel quer surpreender neste ano, com uma obra assinada pelo bamba Pedrinho da Flor, de grandes composições para o Império da Tijuca nos anos 80 e que também tem entre os parceiros Arlindo Neto, filho do onipresente Arlindo Cruz. É um bom samba, de melodia dolente e dois bons refrões. O enredo da vermelho e branco remete à ideia de carnaval de Paulo Barros para a Unidos da Tijuca em 2010. Vamos ver como será o trabalho plástico do bom carnavalesco Edson Pereira. O samba foi muito bem defendido por Marquinhos Art Samba em sua gravação. Nota 9,5

Acadêmicos do Cubango
Enredo: "Continente Negro - uma epopeia africana"
Compositores: Sardinha, Gustavo Soares, Diego Moura, Deigre Silva, Júnior Fionda, Lequinho e Igor Leal
Intérprete: Marcelo Rodrigues

Um dos melhores sambas do carnaval do Rio de Janeiro. Não há outra obra tão boa na Série A quanto a que a Cubango apresentará na avenida e a agremiação niteroiense é especialista em temas afro, tendo reeditado "Afoxé", lendário enredo de 1979, em 2008, afora outras ótimas obras que foram para a Sapucaí em 2004 e 2005. Candidato a todos os prêmios de melhor samba-enredo do ano no Acesso e deve conquistá-los sem nenhuma contestação. A rapaziada da melhor qualidade capitaneada por Sardinha e Diego Moura, com o auxílio luxuoso de Júnior Fionda, Lequinho e Igor Leal, campeões na Mangueira, está de parabéns. A letra diz que "a demanda da Cubango é vencer". Será que chegou a hora? Nota 10


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Um passo atrás

Todo mundo feliz e sorridente na foto, agora. Quero ver se caso a seleção fracassar em 2014, quem vai dar risada...

A Confederação Brasileira de Futebol pisou feio na bola e resolveu dar um passo atrás para, quem sabe, conseguir dar dois à frente. A saída de Mano Menezes do comando da seleção não era esperada para agora, mas a julgar pelo desempenho pífio na Copa América do ano passado e por mais um vice-campeonato olímpico, ficou claro que ele não duraria muito no cargo. E Mano, é bom lembrar, fora uma escolha do antigo presidente Ricardo Teixeira, não do atual, José Maria Marín, que assumiu o cargo em meio a denúncias de corrupção sobre o mandatário anterior - mas que, cabe a ressalva, não é dos mais queridos no meio. Muitos o têm como uma figura abjeta, governador biônico do estado de São Paulo, malufista, filhote da ditadura, enfim... coisas da política nacional.

Saiu da seleção um técnico de currículo mediano, carisma beirando a zero e que por muitas vezes convocou jogadores insípidos e outros, visivelmente, visando negociações com o mercado internacional da bola. Não é de se espantar que Hulk, atleta do Porto antes dos jogos olímpicos de Londres, tenha sido negociado por uma fortuna absurda para o Zenit St. Petersburg, da Rússia. Como explicar tal fenômeno? Com a palavra, as ligações estranhas entre o técnico e seu empresário, Carlos Leite, que também era responsável por dezenas de jogadores convocados por... Mano Menezes.

De certa forma, a demissão de Mano põe fim a um fenômeno que incomodava boa parte da imprensa: o corinthianismo que começava a imperar dentro da seleção, pois além do técnico, que trabalhou no alvinegro de Parque São Jorge, havia ainda Andrés Sanches por lá. Deram-lhe um cargo de diretor de seleções, quando Teixeira ainda mandava alguma coisa. Chegou Marín e as coisas mudaram. O vice de Marin é o presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), Marco Polo del Nero, com passado ligado à Sociedade Esportiva Palmeiras. Como dois bicudos não se beijam e, após a saída de Mano, Andrés insistiu que Tite, treinador do seu Corinthians, seria a escolha perfeita para substituir Mano. Erro fatal: ontem, o dirigente e Marín chegaram a um acordo e Andrés pediu demissão.

 A CBF não conseguiu enganar ninguém quando disse primeiro que anunciaria o novo treinador "em janeiro de 2013", mudando depois para "quinta-feira", vulgo "hoje". O acordo com Luiz Felipe Scolari já estava sacramentado, pronto, engavetado e esperando o momento exato para que, livre de Mano, Marín pudesse acertar com o treinador que ele e Marco Polo queriam para a seleção. 

Consumatum est, a reboque do acerto, veio Carlos Alberto Parreira, para exercer a função de coordenador. Com oito Copas do Mundo na bagagem - o que, convenhamos, não é pouco, Parreira é um homem viajado, educado, teórico e político. E principalmente, muito mais conhecedor de futebol do que o bronco Andrés Sanches, que exercia, na opinião de muitos, um cargo além do poder que um homem como ele poderia ter dentro dos bastidores do futebol brasileiro. O binômio Felipão-Parreira, mais do que uma combinação "vitoriosa", porque foram os treinadores das duas últimas conquistas do Brasil em Copas, em 94 e 2002, é uma forma de Marín e a CBF lavarem as mãos em público. Disse o presidente da entidade, que aliás cometeu a gafe de chamar Parreira de Antônio Carlos Parreira (à la Roberto Horcades, que chamou Fred de Fábio na apresentação do centroavante no Fluminense em 2009), que "está feita a vontade popular". 

Não, presidente, não está feita a vontade popular. Pior: a CBF joga nas costas de Felipão e Parreira a completa responsabilidade da conquista do hexa. Sabem aquela fala do Capitão Fábio em Tropa de Elite?  "Essa pica não é mais minha. Agora tá na mão do aspira." Pois é... a "pica" agora está nas mãos dos dois que chegam para apagar o incêndio que tomou conta da seleção brasileira.

No fundo, a escolha até pode ter algum fundamento. Felipão é um treinador que se dá bem em competições de tiro curto. Com um Palmeiras de elenco tenebroso, levou no primeiro semestre a Copa do Brasil e levou o alviverde, recém-rebaixado à Série B, de volta para a Libertadores da América. Mas não são poucos os que creditam esse rebaixamento ao trabalho que Scolari (não) fez no segundo semestre. Claro que há uma corrente favorável a pôr toda a culpa na diretoria encabeçada pelo presidente Arnaldo Tirone, que - vamos e venhamos - é um péssimo dirigente. Mas Felipão também deixou o barco correr frouxo, o clima ficou ruim, insustentável e aí é fácil largar o mesmo barco à deriva quando se sabia que a corrente já tinha levado a embarcação palmeirense rumo à Segundona.

E tem mais: o Felipão de 2013/14 não é mais o mesmo de 2002 - com relação a conquistas, porque a metralhadora giratória continua a mesma, repleta de frases de efeito e outras infelizes, como a que ele soltou sobre os funcionários públicos. Quantos títulos após o penta ele conquistou mesmo? E Parreira? Que conquistas relevantes teve como treinador nos últimos tempos? Sem querer tirar os méritos dos dois quando a seleção ganhou Copas do Mundo sob o comando de ambos, insisto: a escolha é um passo atrás da CBF.

O futebol brasileiro, 14º colocado no ranking de seleções da FIFA, nunca atingiu um nível de descrédito tão grande, nem mesmo quando a antiga CBD trocou Aimoré Moreira por João Saldanha - e olha que João Saldanha era jornalista e só tinha sido treinador, de forma 'experimental' no Botafogo, de 1955 a 1959. Uma seleção que prefere enfrentar Gabão, China e outros menos votados a fazer confrontos, como nos velhos e bons tempos, contra potências feito a Argentina de Lionel Messi, a Alemanha de Özil e Götze, a Holanda de Robben e Sneijder e, principalmente, a Espanha cuja filosofia de jogo lembra o Barcelona do mesmo Messi citado linhas acima, só pode estar onde está no futebol internacional.

Há não muito tempo atrás, quem jogava pra frente, de forma envolvente, alegre, objetiva e que encantava a torcida, éramos nós, os brasileiros. E hoje, o que jogamos? O que os nossos treinadores mostram de envolvente, objetivo e alegre em seus times? O Fluminense, embora campeão brasileiro com méritos e uma campanha de números incontestáveis, fez várias partidas onde irritou sua torcida. Venceu várias delas jogando mal, mas é do esporte. E olha que eu sou torcedor do Fluminense, nunca é demais lembrar.

Futebol, hoje, é resultado, bola na rede e três pontos. Que se exploda o placar. Mas poderia haver, como houve noutros tempos, o diferencial, a jogada que vale a pena ser vista e revista, o toque refinado do craque. E o treinador que, na minha concepção, seria perfeito para reimplantar a vocação de futebol bem jogado que sempre tivemos, não era um brasileiro.

Para o meu gosto, Pep Guardiola é que deveria ser chamado para dar uma injeção de moral e ânimo para a seleção brasileira. Hoje, na coletiva de apresentação de Felipão e Parreira, José Maria Marín desdenhou e disse que Guardiola "nunca foi treinador de seleção". Não deixa de estar certo o presidente da CBF. Mas, puxemos pela memória: Dunga fora treinador de seleção, quiçá de clube, antes de assumir após a saída de Parreira e o fracasso na Copa de 2006? E Mano? Tinha credenciais e peso para treinar uma seleção brasileira? Nem Felipão tinha treinado seleção alguma antes de pegar o rabo de foguete em 2001 e conseguir o penta. Só depois disso é que foi treinar Portugal numa Eurocopa e numa Copa do Mundo.

A CBF esqueceu que o futebol brasileiro só experimentou renovações e reinvenções na parte tática com a presença de estrangeiros. Com o WM de Herbert Chapman, introduzido aqui - se não me falhe a memória -  pelo húngaro Dori Kruschner, saímos da idade da pedra para um 3º lugar na Copa da França em 1938. Depois disso, tivemos que pagar tributo ao uruguaio Ondino Vieira, a outro húngaro, Bela Guttman e também ao paraguaio Fleitas "Feiticeiro" Solich.

Não é a toa que a mentalidade de "seleção brasileira dirigida por brasileiros" só foi quebrada uma única vez, com Filpo Nuñez no comando de um Palmeiras travestido de seleção brasileira, que derrotou por 3 x 0 o Uruguai num amistoso em 1965, em Belo Horizonte. Enquanto continuarmos assim, a nossa decadência técnica, tática e competitiva vai ficando cada vez mais latente e o Brasil cada vez mais atrasado e defasado em relação aos seus adversários.

Será que a surra que o Santos levou do Barcelona há quase um ano já não tinha servido de lição? 

Pelo visto, o pessoal quer levar mais porrada para ver onde é que fica o fundo do poço. Se bobear, o futebol brasileiro está bem pertinho dele. É só fracassar mais uma vez - e em casa - para ver o que vão falar da CBF de José Maria Marín e asseclas pós-2014.

É isso.

sábado, 17 de novembro de 2012

O início. O fim. O meio.

“Não importa o quão duro você é. A vida te bate e vai querer te deixar na lona. Mas não se trata de quão forte você pode bater; se trata do quanto você aguenta apanhar e continuar seguindo em pé. É assim que a vitória é conquistada”.
(do filme Rocky Balboa)


Pode soar piegas, mas é assim que devo encarar as coisas. Desde ontem, 16 de novembro, como muita gente já sabe, eu não trabalho mais no SporTV e por consequência, nas Organizações Globo.



Foram nove de 13 anos dedicados ao trabalho intenso dentro do automobilismo, com o extinto Grid Motor, no Linha de Chegada e nas inúmeras corridas que comentei e até narrei, que perdi a conta. Fiz de tudo por lá. De Fórmula 1 ao kart.



Como disse no facebook, não guardo mágoa e nem tristeza. Até porque eu mantenho comigo o que me fez ser respeitado, gostado e admirado por algumas pessoas. O conhecimento, a competência e o amor pelo automobilismo e pelo esporte em geral continuam aqui. São meus bens mais preciosos, depois de tantos anos. Existe uma minoria que pode ter uma falsa impressão a meu respeito. Pois que tenham. Um cara que nunca se importou com ostentações, que nem carro possui, não pode ser taxado de "arrogante", como sei que já fui chamado por aí.



Enfim, é vida que segue. É hora de começar um novo caminho. Uma porta se fechou? Não tem problema: outras se abrirão, no devido tempo, no momento certo.



E enquanto o novo blog A Mil Por Hora (afinal, os textos são meus e o nome é ideia minha) não migra para uma plataforma "independente", volto para onde tudo começou.



É... o Saco de Gatos não morreu. Ele sempre deu um tempo. Sempre esteve aqui quando precisei. Igual à quem deu força nesse momento complicado. Aliás, é nessas horas em que a gente vê quem é amigo. E quem, em contrapartida, não é.



Bom sábado para todos.



PS.: Ah! Meu e-mail passa a ser este: rodrigomattar36@terra.com.br


domingo, 21 de outubro de 2012

+1 DOSE, BARÃO!

Com o cartaz do show ao fundo

Vinte de outubro. Uma noite para a história. Minha e de muita gente sedenta de rock and roll, que foi na Fundição Progresso, na Lapa, reduto da boemia carioca, para ver, celebrar e cantar junto com uma das bandas fundamentais do rock brasileiro: o Barão Vermelho.

Surgido há 30 anos do rompante juvenil de Maurício Barros e Guto Goffi, os dois reais fundadores do grupo, o Barão foi o motor dos petardos poéticos de Cazuza, indicado por Leo Jaime para ser o vocalista, lá por 1982. Os ensaios eram no Rio Comprido, na casa de Maurício e os primeiros shows, caóticos. Mas os Barões tinham energia e pegada nas músicas. E foi essa energia, essa pegada, que cativaram Ezequiel Neves, que conseguiu para eles a abertura de um show de Sandra Sá no Morro da Urca.

Vieram os primeiros discos, os primeiros sucessos, o Rock in Rio I, a debandada de Cazuza, Frejat assumindo os vocais, os problemas com Dé Palmeira, a entrada de Fernando Magalhães e Peninha, a vinda de Dadi, a saída de Maurício e também de Dadi e depois Rodrigo Santos assumindo o baixo... um turbilhão de acontecimentos e o Barão sobrevivendo aos temporais.

Eles experimentaram o apogeu, a queda e o ressurgimento. Pararam quando acharam que tinham que parar. E deixaram nos fãs aquela vontade de vê-los juntos de novo. E aconteceu.

Eu fui na Fundição na qualidade de convidado, "na faixa". Por conta de uma daquelas surpresas do destino, um dos leitores do meu blog A Mil Por Hora, do SporTV, é Duda Ordunha, que trabalha com a banda e já foi produtor do Noites Cariocas. E citado no livro "Vale Tudo" - a ótima biografia de Tim Maia, escrita por Nelson Motta. Um belo dia, chegou um pacote aqui em casa: um livro e um DVD duplo do Barão. Presente do Duda, que num e-mail, certa ocasião, falou: "O Barão deve se reunir para um show que celebrará os 30 anos do grupo. Quer ir?"

Enjeitar um convite destes? Nem de brincadeira...

E na base do RSVP o convite veio.

Os arcos da Lapa iluminados na noite escura

Saí do plantão no sábado e fui para a Lapa. Não é fácil sair da Barra da Tijuca às 22h e se mandar pro Centro do Rio. Mas lá fui eu, sedento de rock and roll e de uma boa cerveja gelada. Fui indicado para a entrada dos convidados e, com o nome na lista, uma menina indagou. "Convidado do Duda, né?". E no saguão dos elevadores, ganhei não só uma pulseira, mas duas, de livre circulação no 5º andar dos camarotes.

Chegando lá dentro, encontro a lenda, o mito Fausto Fawcett - assim como eu, tricolor de quatro costados. Sem ter o que fazer, fiquei zanzando pelo espaço, bebendo uma cervejinha esperta, até que o Duda apareceu. "Bem-vindo. Está sendo bem tratado? Fique à vontade!" Não podia estar mais à vontade. Melhor que isso, só se eu pudesse descer e ver os Barões de perto ao fim do show, que prometia muito.

O espaço para o público na pista e numa espécie de arquibancada foi enchendo aos poucos e a abertura coube aos Autoramas, banda do Gabriel Thomaz, ex-Little Quail and The Mad Birds e do Bacalhau, antigo batera do Planet Hemp. Show enxuto, honesto, legal de acompanhar. Muito barulho para um grupo com três integrantes - a baixista é uma mulher, Flavia Couri.

E nisso começou o horário de verão. Pra lá de 1h da manhã, com a excitação da plateia a mil após um breve intróito de Perfeito Fortuna, que acolheu na lona do Circo Voador (em tempos de Arpoador, diga-se) o Barão nos seus primórdios, o grupo estava pronto. Os primeiros riffs de guitarra detonados por Frejat e Fernando Magalhães foram a senha para a explosão - no bom sentido - do público. "Por que a gente é assim?", da famosa frase 'Mais uma dose!', abriu os trabalhos, seguida por "Ponto Fraco" e "Pense e dance". Rock do bom, rock na veia da rapaziada e da mulherada. E sem tirar de dentro!

Essa era minha visão do alto, do 5º andar

Um mix de rocks dos primeiros tempos do Barão, como "Menina Mimada", "Billy Negão" e músicas mais recentes - "Cuidado", "Carne de Pescoço" e "Meus bons amigos" - foram capazes de manter o nível do show até chegar a parte onde os violões e a emoção tomarem conta da plateia, que cantou junto com Frejat em "Por você" e se emocionou na hora em que Cazuza foi homenageado, na execução da 'inédita' "Sorte e Azar", de "O Poeta está vivo" e da maravilhosa "Todo amor que houver nesta vida".

Caju não foi o único lembrado da noite. Renato Russo também, com a versão do Barão para "Quando o sol bater na janela do seu quarto". E não podia faltar o pai do rock brasileiro, Raul Seixas, com sua "Tente outra vez" cantada em uníssono.

E com a plateia ganha, foi barbada para Frejat e cia. levarem a Fundição abaixo com "Bete Balanço", "Vem quente que eu estou fervendo", "Malandragem dá um tempo", "Maior abandonado", "Down em mim", "Pro dia nascer feliz", "O Tempo não para" e o apoteótico final com "Satisfaction", emulando o encerramento do CD ao vivo gravado no Dama Xoc nos anos noventa.

Entrementes, no momento onde saí para tirar uma água do joelho, encontro de novo o Duda. Morrendo de curiosidade, pergunto se após o término do show vou poder entrar no backstage e ele logo responde que a pulseira vermelha que eu tinha - além de uma outra laranja - dava livre acesso aos bastidores após o show. Quase caí pra trás quando soube que ia ver as feras do Barão de pertinho!

Celebrando com Fernandão Magalhães. ROCK AND ROLL!

E lá fui eu... que como muitos, acabei barrado por um segurança e depois com a entrada liberada pela intervenção salvadora do Duda. Não demorou muito e os Barões apareceram, um por um. Com exceção do Maurício Barros, com quem não consegui falar, agradeci pelo show, pela volta do grupo e tirei fotos com todos: Guto, Peninha, Fernando, meu xará Rodrigo e Frejat. De bônus, uma foto com Fausto Fawcett. E ainda tive o prazer de reencontrar outro xará meu: Rodrigo Pinto, ex-aluno da ECO/UERJ e biógrafo do Barão Vermelho.

Saí inebriado, em êxtase, depois dessa celebração ao Barão e ao bom rock and roll lá por cinco horas da manhã, meio perdido no tempo e no espaço. A muito custo consegui um táxi e voltei para a Tijuca feliz por fazer parte de um momento tão especial na trajetória de um grupo que fez parte de 30 anos da minha vida.

+1 DOSE, BARÃO!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Fosfosol - o dia em que o Fluminense ganhou dos "campeões do mundo"

Sempre existirá um engraçadinho que vai tentar, com uma chacota aqui e alhures, diminuir a história do "Retumbante de Glórias". O Fluminense incomoda. Sempre incomodou. E agora que sabemos que Bayern de Munique e Chelsea farão a final da UEFA Champions League na Allianz Arena, no sábado dia 19 de maio, me veio à mente que somente um clube dos 16 que avançaram para as fases de "mata-mata" da Libertadores da América jogou contra o vitorioso clube alemão.

O ano de 1975 marcou um divisor de águas na história do Fluminense. O juiz de direito Francisco Cavalcanti Horta, um vibrante e apaixonado sócio do clube, se tornara presidente e, numa cartada audaciosa, tirou Rivellino do Corinthians por Cr$ 3 milhões, uma soma astronômica, a maior transação do futebol brasileiro naquela época.

"Rivellino é só o primeiro. Virão muitos craques mais para o tricolor", prometia Horta. E vieram: Zé Mário, que comprou seu próprio passe vinculado ao Flamengo com dinheiro dado pelo próprio Horta; o polêmico e talentoso ponteiro-esquerdo Mário Sérgio, o "Calibre 38" (porque andava armado); o veloz e impetuoso "Búfalo" Gil - todos vieram se integrar a um elenco que tinha os campeões de 73 Félix, Toninho Baiano, Cléber, Assis, Marco Antônio, Silveira e Manfrini, além de um projeto de craque, Carlos Alberto "Pintinho", um cabeça-de-área tremendamente promissor.

Quando o Flu foi disputar pela primeira vez o Torneio Internacional de Paris, a convite de Daniel Hechter, então presidente do Paris Saint-Germain, Horta convenceu o presidente do Olympique Marseille a vender Paulo César Lima, o Pôl Cezár dos franceses, o Caju das louras gostosas, o craque tido como arrogante, narcisista, mas muito bom de bola. Estava formada a Máquina.

E para mostrar que essa Máquina estava azeitada e tinha poder de fogo, Horta marcou um amistoso contra ninguém menos que o FC Bayern München, o Bayern de Munique, o maior clube alemão e da Europa na época, como provado no bicampeonato europeu em 1974/1975, conquistado em vitórias sobre o Atlético de Madrid por 4-0 na final em 74 e os 2-0 sobre o Leeds United em 75.

Além disto, o Bayern respondia por meio time da seleção alemã que, comandada por Helmut Schön, derrotou o mítico Carrossel Holandês de Rinus Michels, Cruyff, Neeskens, Rep e Rensenbrink por 2-1 na final da Copa de 74. Basta dizer que o Kaiser Franz Beckenbauer era titular deste Bayern, assim como o goleiro Sepp Maier, o letal atacante Gerd Müller, além do zagueiro Schwarzenbeck e do atacante Kapellmann, convocados por Schön para o Mundial de seleções.

O público anunciado pelos alto-falantes do Maracanã, palco do jogo disputado em 10 de junho de 1975, foi de mais de 60 mil pagantes. Mas muita gente entrou sem ingresso e não é exagero dizer que quase 100 mil torcedores assistiram ao confronto da Máquina contra o maior time europeu daqueles tempos.

O Fluminense alinhou com Félix, Toninho Baiano, Silveira, Assis e Marco Antônio; Zé Mário e Kléber; Cafuringa, Rivellino, Paulo César Caju e Mário Sérgio. Agora, notem bem o timaço do Bayern: Sepp Maier, Durnberger, Schwarzenbeck, Franz Beckenbauer e Weiss; Roth,Törstensson e Karl-Heinz Rummenigge; Zöbel, Gerd Müller e Kapellmann.

Muito bem: dada a saída, o tricolor logo apresentou seu cartão de visitas. Com menos de 10 minutos de jogo, Rivellino deu um daqueles 'elásticos' que deixaram a zaga bávara sem ação. Logo depois, o "Curió das Laranjeiras" deixou Kléber na cara do gol e era só o garoto faturar para cima de Sepp Maier. Mas, num dos perversos acasos do destino, Gerd Müller, que ajudava na defesa, tentou cortar e fez contra. Logo ele, artilheiro de dois Mundiais somando 14 gols. E logo um gol contra? Fluminense 1-0 Bayern.

A partida prosseguiu e o Fluminense agressivo, insinuante. O Bayern, apenas se defendendo, acuado. Sepp Maier pegou até pensamento no Maracanã, numa grande atuação de O Gato, como o lendário goleiro era conhecido. E Cafuringa, o folclórico ponteiro-direito tricolor, fez uma partida memorável, entortando impiedosamente o lateral-esquerdo Weiss. Por seu turno, Mário Sérgio fez gato e sapato de Durnberger na extrema-esquerda, numa atuação que provocou derramados elogios do presidente Horta, jogado ao chuveiro de terno e tudo no vestiário, quando fora cumprimentar o irreverente atacante tricolor.

O placar de 1-0 não traduz a enorme superioridade que o elenco brasileiro impõs sobre o poderoso Bayern. Era apenas um amistoso? Não importa. O Fluminense não ganhou um Brasileiro com a Máquina, que nunca disputou uma Libertadores?

E daí?

Vencemos o melhor time da Europa, que aliás e a propósito, se consagraria tricampeão continental derrotando o Saint-Etienne em 12 de maio de 1976 e que derrotaria o Cruzeiro na disputa do Mundial de Clubes, no fim daquele mesmo ano.




sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Fosfosol - "Recordar é viver... Assis acabou com vocês"

Dezesseis de dezembro de 1984. Maracanã, o templo sagrado do futebol brasileiro, palco de mais uma decisão do Campeonato Carioca. Flamengo x Fluminense, o clássico eterno, de maior festa, de maior colorido, prometendo mais um jogão de bola para os torcedores.

Fla-Flu que naquele ano foi um confronto envolto em algumas polêmicas, como na Taça Guanabara, onde alguns jogadores do Flu foram presentear o General Figueiredo, então o último presidente do período nefasto da ditadura militar - e também tricolor, com uma camisa do clube. Mal assessorados, estes jogadores (entre eles Delei e Paulo Victor) se deixaram ser fotografados na companhia de Paulo Salim Maluf, o candidato do PDS na eleição indireta que aconteceria em janeiro de 1985.

A imprensa repercutiu - mal - o episódio nas hostes tricolores e fez a festa. A chamada "Malufada" não pegou bem mesmo e claro que a torcida do rival do Fluminense caiu na pele dos tricolores. "Maluf é corrupção, Tancredo é solução", bradava uma faixa na arquibancada do Maracanã no dia do confronto decisivo entre a dupla Fla-Flu. O Fluminense sentiu o golpe da "Malufada": perdeu por 1 x 0, gol de Adílio. Sobrou para Luiz Henrique Menezes, que era o treinador e foi demitido.

No returno, o Fluminense continuou em campanha regular e o Flamengo, relaxado por ter ganho o primeiro turno do Estadual, cometeu deslizes que hoje seriam imperdoáveis. Na penúltima rodada, o rubro-negro empatou com o Campo Grande em 1 x 1, antes do Fla-Flu da rodada final, que aconteceu num sábado à noite. E para desespero dos flamengos, o tricolor venceu: 2 x 1, com gols de Washington e Assis. E com isso, credenciou-se para jogar o triangular decisivo do campeonato, posto que, com 33 pontos, fez melhor campanha no cômputo geral em relação a Flamengo e Vasco, que ganhou a Taça Rio.

Com Carlos Alberto Torres, o "Capita" de 70, no banco orientando aquela constelação de craques, o Fluminense teve lá seus problemas ao longo da competição. Ricardo Gomes, excelente zagueiro de apenas 19 anos, foi alijado por uma contusão séria no joelho e entrou o raçudo e por vezes tosco Vica, que viera da Ferroviária de Araraquara. Branco, também às voltas com problemas físicos, vez por outra dava lugar ao eficiente Renato Martins. E Delei, sem contrato durante grande parte do campeonato, era substituído ora por Leomir, ora por Renê. Sem que a meia-cancha que tinha ainda Jandir, Assis e o craque Romerito, perdesse sua eficiência.

O Flu atropelou o então freguês Vasco na primeira partida do tricolor no triangular por 2 x 0 e esperou o desfecho do jogo entre cruzmaltinos e flamengos para ver como ficaria sua situação no último jogo. O Fla venceu por 1 x 0 e isso fez com que, quem vencesse o clássico, levaria o título para casa. Empate forçava a realização de um jogo extra na quarta seguinte, pois não havia critério de desempate por saldo de gols.

Nada menos que 153.520 torcedores pagaram ingresso para assistir àquele Fla-Flu decisivo, proporcionando uma renda de Cr$ 788.175.000,00. José Roberto Wright foi indicado para apitar o jogo e o Fluminense, com Raul Carlesso no banco - pois Carlos Alberto Torres estava suspenso pelo STJD da federação - entrou para o jogo com Paulo Victor, Aldo, Duílio, Vica e Renato; Leomir, Renê e Assis; Romerito, Washington e Tato.

O Flamengo, com um time tão forte quanto o do Fluminense, jogou com Fillol, Jorginho, Leandro, Mozer e Adalberto; Andrade, Adílio e Tita; Bebeto, Nunes e Élder. O técnico era Mário Jorge Lobo Zagallo.

Com a bola rolando, os jogadores mostraram porque o Fla-Flu é um confronto tão emblemático quanto imprevisível. Ambos os times vinham com disposição e vontade de vencer e sim, de fato, o Flamengo deu muito trabalho à defesa tricolor. Mas Paulo Victor, muralha inexpugnável, pegou tudo naquela tarde-noite de dezembro.

O confronto caminhava para um empate que decretaria o jogo extra na quarta-feira dia 19 de dezembro. Mas para alguém vencer, era preciso explorar a mínima desatenção do adversário. E aos 30 minutos do 2º tempo, aconteceu.

O Fluminense saiu jogando do seu campo defensivo, bola de pé em pé, com o Flamengo na roda. A pelota passou para o lado direito do gramado, onde Renê e Aldo fizeram ótima trama. O gaúcho fez o passe e o amapaense dos cruzamentos perfeitos passou pelas costas de Adalberto e recebeu livre para fazer o levantamento para a área adversária.

Num desses caprichos do destino, a bola encontrou um velho conhecido da torcida tricolor e também da rubro-negra: Benedito de Assis Silva, o Assis, o Carrasco de 1983, meteu a cabeça na bola e Fillol, o goleiraço argentino, ficou "paradão, paradão, paradão", como disse José Carlos Araújo na narração do gol pela Rádio Globo.

Assis, que tantas alegrias nos dera no ano anterior, voltava a pôr na boca dos rubro-negros o gosto amargo de mais uma derrota. O Fluminense, como ótimo time que era, administrou o resultado, ganhou o bicampeonato estadual e fechou o ano de 1984 com chave de ouro, provando que fora de fato e de direito, o melhor do país.

"RECORDAR É VIVER, ASSIS ACABOU COM VOCÊS!"

Saudações tricolores!