sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Fosfosol - "Recordar é viver... Assis acabou com vocês"

Dezesseis de dezembro de 1984. Maracanã, o templo sagrado do futebol brasileiro, palco de mais uma decisão do Campeonato Carioca. Flamengo x Fluminense, o clássico eterno, de maior festa, de maior colorido, prometendo mais um jogão de bola para os torcedores.

Fla-Flu que naquele ano foi um confronto envolto em algumas polêmicas, como na Taça Guanabara, onde alguns jogadores do Flu foram presentear o General Figueiredo, então o último presidente do período nefasto da ditadura militar - e também tricolor, com uma camisa do clube. Mal assessorados, estes jogadores (entre eles Delei e Paulo Victor) se deixaram ser fotografados na companhia de Paulo Salim Maluf, o candidato do PDS na eleição indireta que aconteceria em janeiro de 1985.

A imprensa repercutiu - mal - o episódio nas hostes tricolores e fez a festa. A chamada "Malufada" não pegou bem mesmo e claro que a torcida do rival do Fluminense caiu na pele dos tricolores. "Maluf é corrupção, Tancredo é solução", bradava uma faixa na arquibancada do Maracanã no dia do confronto decisivo entre a dupla Fla-Flu. O Fluminense sentiu o golpe da "Malufada": perdeu por 1 x 0, gol de Adílio. Sobrou para Luiz Henrique Menezes, que era o treinador e foi demitido.

No returno, o Fluminense continuou em campanha regular e o Flamengo, relaxado por ter ganho o primeiro turno do Estadual, cometeu deslizes que hoje seriam imperdoáveis. Na penúltima rodada, o rubro-negro empatou com o Campo Grande em 1 x 1, antes do Fla-Flu da rodada final, que aconteceu num sábado à noite. E para desespero dos flamengos, o tricolor venceu: 2 x 1, com gols de Washington e Assis. E com isso, credenciou-se para jogar o triangular decisivo do campeonato, posto que, com 33 pontos, fez melhor campanha no cômputo geral em relação a Flamengo e Vasco, que ganhou a Taça Rio.

Com Carlos Alberto Torres, o "Capita" de 70, no banco orientando aquela constelação de craques, o Fluminense teve lá seus problemas ao longo da competição. Ricardo Gomes, excelente zagueiro de apenas 19 anos, foi alijado por uma contusão séria no joelho e entrou o raçudo e por vezes tosco Vica, que viera da Ferroviária de Araraquara. Branco, também às voltas com problemas físicos, vez por outra dava lugar ao eficiente Renato Martins. E Delei, sem contrato durante grande parte do campeonato, era substituído ora por Leomir, ora por Renê. Sem que a meia-cancha que tinha ainda Jandir, Assis e o craque Romerito, perdesse sua eficiência.

O Flu atropelou o então freguês Vasco na primeira partida do tricolor no triangular por 2 x 0 e esperou o desfecho do jogo entre cruzmaltinos e flamengos para ver como ficaria sua situação no último jogo. O Fla venceu por 1 x 0 e isso fez com que, quem vencesse o clássico, levaria o título para casa. Empate forçava a realização de um jogo extra na quarta seguinte, pois não havia critério de desempate por saldo de gols.

Nada menos que 153.520 torcedores pagaram ingresso para assistir àquele Fla-Flu decisivo, proporcionando uma renda de Cr$ 788.175.000,00. José Roberto Wright foi indicado para apitar o jogo e o Fluminense, com Raul Carlesso no banco - pois Carlos Alberto Torres estava suspenso pelo STJD da federação - entrou para o jogo com Paulo Victor, Aldo, Duílio, Vica e Renato; Leomir, Renê e Assis; Romerito, Washington e Tato.

O Flamengo, com um time tão forte quanto o do Fluminense, jogou com Fillol, Jorginho, Leandro, Mozer e Adalberto; Andrade, Adílio e Tita; Bebeto, Nunes e Élder. O técnico era Mário Jorge Lobo Zagallo.

Com a bola rolando, os jogadores mostraram porque o Fla-Flu é um confronto tão emblemático quanto imprevisível. Ambos os times vinham com disposição e vontade de vencer e sim, de fato, o Flamengo deu muito trabalho à defesa tricolor. Mas Paulo Victor, muralha inexpugnável, pegou tudo naquela tarde-noite de dezembro.

O confronto caminhava para um empate que decretaria o jogo extra na quarta-feira dia 19 de dezembro. Mas para alguém vencer, era preciso explorar a mínima desatenção do adversário. E aos 30 minutos do 2º tempo, aconteceu.

O Fluminense saiu jogando do seu campo defensivo, bola de pé em pé, com o Flamengo na roda. A pelota passou para o lado direito do gramado, onde Renê e Aldo fizeram ótima trama. O gaúcho fez o passe e o amapaense dos cruzamentos perfeitos passou pelas costas de Adalberto e recebeu livre para fazer o levantamento para a área adversária.

Num desses caprichos do destino, a bola encontrou um velho conhecido da torcida tricolor e também da rubro-negra: Benedito de Assis Silva, o Assis, o Carrasco de 1983, meteu a cabeça na bola e Fillol, o goleiraço argentino, ficou "paradão, paradão, paradão", como disse José Carlos Araújo na narração do gol pela Rádio Globo.

Assis, que tantas alegrias nos dera no ano anterior, voltava a pôr na boca dos rubro-negros o gosto amargo de mais uma derrota. O Fluminense, como ótimo time que era, administrou o resultado, ganhou o bicampeonato estadual e fechou o ano de 1984 com chave de ouro, provando que fora de fato e de direito, o melhor do país.

"RECORDAR É VIVER, ASSIS ACABOU COM VOCÊS!"

Saudações tricolores!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Fosfosol - América Campeão dos Campeões (1982)

O querido Ameriquinha do Rio de Janeiro é tido como o segundo clube de muitos na Cidade Maravilhosa. Como eu ainda sou do tempo em que o "Diabo" dava trabalho, assim como o Bangu, a Fluminense, Flamengo, Vasco e Botafogo, é claro que tinha minha simpatia - principalmente quando roubava pontos preciosos dos adversários.

Em 1982, a CBF preencheu parte do calendário do futebol brasileiro com o Torneio dos Campeões, reunindo 18 das principais agremiações do país. O América entrou justamente como o 18º de um ranking que contemplava os times que tivessem participado de finais de competições nacionais: o Torneio Rio-São Paulo, a Taça de Prata e o Campeonato Brasileiro.

O América entrou no Grupo C com Grêmio, Cruzeiro e Atlético-MG. Sem se destacar por atuações sensacionais, o time treinado por Dudu, o grande cabeça-de-área da "Academia" do Palmeiras e tio de Dorival Júnior, hoje treinador do Internacional, fez o chamado dever de casa na primeira fase, onde os times jogavam em turno e returno dentro do grupo, para definir os dois classificados para as quartas-de-final.

Após empates com Cruzeiro e Grêmio, ambos por 1 x 1, o América pregou uma peça no Galo, em pleno Mineirão. Com um gol de Elói, venceu por 1 x 0, fechou o primeiro turno com 4 pontos ganhos. E teria vencido o segundo, se não perdesse a chance no saldo de gols contra o mesmo Atlético-MG. Porém, o América tirou partido do fato de conhecer bem o adversário nas quartas-de-final e desclassificou o Galo com mais uma vitória por 1 x 0, desta feita no Maracanã.

Pelo caminho, a Portuguesa de Desportos, time com melhor campanha da primeira fase e que surrou o Fluminense, na época com um time muito fraco, sem dó nem piedade, por 3 x 1. A Lusa jogava com o mando de campo e o América, nem aí para o fato de atuar fora, abriu o placar no Pacaembu. Os paulistas empataram e a decisão da vaga para a finalíssima ficou para as cobranças de pênaltis.

Gasperin, goleiro gaúcho que atuava no América, brilhou. Pegou um pênalti cobrado por Toquinho e quando Odirlei mandou uma bomba no travessão, o "Diabo" estava na decisão do Torneio dos Campeões.

O adversário do time carioca era o Guarani de Campinas, de brilhante campanha no Brasileirão de 1982, que terminara meses antes da decisão da competição, marcada para os dias 10 e 12 de junho. Na primeira partida, no Brinco de Ouro, empate em 1 x 1. A final, num sábado à noite e disputada no Maracanã, teve público pagante de 11.329 torcedores, proporcionando uma renda de Cr$ 5.099.600,00.

O América entrou em campo com Gasperin, Chiquinho, Duílio, Everaldo e Zé Dílson (depois Sérgio Pinto); Pires, Gilberto e Elói (depois João Luís); Serginho, Moreno e Gilson Gênio. O Guarani alinhou com Sidmar, Sóter, Darci, Odair e Almeida; Éderson, Júlio César (depois Henrique) e Jorge Mendonça; João Luís (depois Delém), Marcelo e Ernâni Banana. O treinador do Bugre era Zé Duarte.

A partida foi dura e disputada debaixo de chuva. O América tentou se impor diante do campo mais pesado e de um adversário com jogadores de ótima técnica, como Jorge Mendonça, que jogou o fino no Brasileirão e inexplicavelmente foi esquecido da seleção para a Copa de 1982. E logo aos 13 minutos, Moreno abriu o placar no Maracanã.

O Guarani não se deu por vencido e no segundo tempo buscou o empate. Aos 17 minutos, o reserva Delém pegou a sobra de um cruzamento mascado de Jorge Mendonça e fuzilou Gasperin, empatando o jogo, que foi para a prorrogação.

Os jogadores lutaram com todas as suas forças e o América, ligeiramente melhor em campo, tinha mais chances. Faltando cinco minutos para o apito final do árbitro Carlos Rosa Martins, Gílson Gênio pegou rebote de um chute desferido por ele mesmo e que batera num defensor do Guarani. Sidmar nada pôde fazer. O América venceu a partida por 2 x 1 e se tornou o Campeão dos Campeões, slogan que emoldura a fachada decorada em mármore na sede social na Rua Campos Sales, na Tijuca.

Fiquem com um vídeo mostrando os grandes momentos do Mequinha no Torneio dos Campeões.




video

domingo, 4 de dezembro de 2011

O Doutor da bola


"Sócrates morreu de tanto viver, que é uma boa forma de morrer"

(Flavio Gomes)


O futebol brasileiro e mundial chora hoje a perda de uma personagem que entrou para a história do esporte. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira nos deixou na madrugada deste domingo, aos 57 anos de idade, vítima de um choque séptico, após uma luta imensa para seguir vivendo do jeito como queria, gostava e desejava.

Libertário por natureza, o Doutor Sócrates tinha características que admiro muito nas pessoas. Um caráter acima de qualquer suspeita. Posições firmes, precisas. Sinceridade expressada nas palavras e também em como atuava no campo, defendendo primeiro a camisa do Botinha, o Botafogo de Ribeirão Preto, onde estourou para o futebol nos anos 70, com a elegância que seu 1,90 metro permitia. Aquele rapaz magro, de rosto marcado pela acne, não por acaso passaria a ser conhecido como Magrão.

O Magrão chegou ao Corinthians em 1979 e tornou-se ícone de uma torcida sofrida e apaixonada. Conquistou títulos que, por exemplo, Rivellino não conseguiu. E tornou-se, junto a Adílson Monteiro Alves, Wladimir, Casagrande, Édson Boaro e tantos outros, um dos pilares da chamada Democracia Corinthiana. Extinta a necessidade da concentração, os jogadores passaram a ser donos do próprio nariz. E Sócrates, já adepto de uma boa cervejinha, naturalmente era defensor da liberdade no Parque São Jorge.

Em votação popular, foi eleito o Atleta do Ano na revista Placar em tempos onde a democracia estava refugiada em porões de uma feroz ditadura militar, usurpando esse direito do povo brasileiro por 20 anos. Em tempos de Diretas Já, o Doutor subiu em palanques, fez campanha igualmente feroz e apaixonada pelo voto direto e, num comício histórico diante de 1 milhão de pessoas e outras tantas em rede nacional, garantiu a brasileiros, paulistanos e corinthianos que ficaria no país se a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada. Posou de D. Pedro semanas antes do alvinegro ser eliminado pelo Fluminense de Assis, Romerito, Washington e Tato na semifinal do Brasileiro de 1984. Reprovada a emenda Dante de Oliveira, Sócrates assinou com a Fiorentina.

Na Squadra Viola, o Dottore não foi feliz. Ficou por lá só uma temporada e pouco. Regressou em 86. Foi para o Flamengo jogar ao lado de Zico, que conhecia da seleção desde 1979. Marcado por lesões, quase não jogou. Após uma fracassada negociação para ingressar na Ponte Preta, Sócrates encerrou a carreira aos 35 anos no Santos de Pelé.

As minhas grandes lembranças de Sócrates, como aliás de muitos brasileiros com mais de 40 anos, como eu, certamente estão naquele time mágico da Copa de 1982, cultuado mundo afora não pelos títulos que não conquistou, mas sim pelo futebol vistoso, ofensivo, onde Sócrates, jaqueta com o número 8 às costas, era um dos virtuoses, um dos estilistas. São marcantes, para mim, o lindo gol contra a URSS e sua comemoração cheia de alegria, sorriso aberto e peito estufado, afora o gol contra a Itália, chute rasteiro, com categoria e classe para vencer um paredão chamado Dino Zoff.

O futebol, quase sempre alegre, hoje fica marcado por um momento que para nós, é triste. Vai-se o talento. Vai-se o homem, o caráter, o ser humano, a lealdade, a personalidade. Ficam na nossa memória os gols, os passes, os toques classudos de calcanhar, a categoria e o gênio.

Obrigado, Doutor Sócrates.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fosfosol - Palmeiras 1 x 2 Internacional de Limeira (1986)


O ano de 1986 foi marcante para um até então desconhecido time do interior de São Paulo. A Associação Atlética Internacional, de Limeira, entrou para a história do futebol brasileiro a ser o primeiro time fora da capital - descontando o Santos de Pelé, claro - a ganhar o Paulistão.

Foi uma conquista surpreendente, mas com muitos méritos. O alvinegro limeirense foi de fato o melhor time de toda a competição, eliminando o Santos em dois jogos de forma incontestável para enfrentar o Palmeiras treinado por Carbone, campeão carioca com o Fluminense em 1983.

Se por um lado o Verdão tinha jogadores do naipe de Jorginho, Edmar, Mirandinha, Éder e Mendonça, a Inter contava com um trunfo e tanto fora das quatro linhas - além da fanática torcida: José Macia, o Pepe, maior artilheiro do Santos depois de Pelé.

Pepe montou um time de operários da bola. O goleiro era Silas, eterno reserva do Santos. Na zaga, estavam Bolívar (pai do Bolívar do Inter, que acabou de levar uma suspensão de seis meses do STJD, reduzida a uma punição ridícula de 15 dias graças a um efeito suspensivo) e Juarez, que depois jogaria na Itália. Gilberto Costa era o pilar do meio-campo, junto ao experiente Manguinha, ex-Guarani e Náutico. No ataque, letal, brilhavam Kita com seus gols e o ponta Tato, homônimo do atacante do Fluminense, de grande velocidade nas arrancadas.

O Palmeiras despachou o Corinthians na outra semifinal, com direito a gol olímpico de Éder e despontou na decisão como favorito. No primeiro jogo, disputado em 31 de julho no Morumbi - palco das duas partidas - o Verdão não conseguiu furar a defesa limeirense e não houve gols nos primeiros 90 minutos do confronto.

A noite histórica de 3 de agosto teve 68.564 torcedores no Estádio Cícero Pompeu de Toledo, proporcionando uma renda na época de pouco mais de 2 milhões de cruzados, a moeda corrente de 1986. O Palmeiras entrou em campo com Martorelli, Diogo (depois Ditinho), Márcio, Amarildo e Denys; Lino (depois Mendonça), Gérson e Jorginho; Mirandinha, Edmar e Éder. A Inter jogou com Silas, João Luís, Bolívar, Juarez e Pecos; Manguinha, Gilberto Costa e João Batista (depois Alves); Tato, Kita e Lê (depois Carlos Silva).

No primeiro tempo, o Palmeiras de novo não conseguiu furar a defesa rival e os primeiros 45 minutos terminaram com o zero no placar, aumentando a apreensão do alviverde, que vivia uma seca de 9 anos sem títulos. Aí, aconteceu. Aos cinco minutos do segundo tempo, Kita chutou forte de fora da área, quase caído, e venceu Martorelli. Foi o 24º gol do gaúcho João Leithardt Neto no Paulistão de 1986.

A vibração dos alvinegros continuou e a casa palmeirense caiu de vez em cinco minutos. Denys cometeu uma falha grotesca num domínio de bola e Tato, espertíssimo, roubou a bola e, com Martorelli batido, ampliou. Delírio limeirense no Morumbi.

A partir daí, a pressão do Palmeiras aumentou e Silas deu conta do recado até os 29 do segundo tempo, quando a insistência deu resultado e o zagueiro Amarildo, de cabeça, descontou. Kita ainda perdeu um gol feito sem goleiro e a chance do 3º gol da Internacional. E o Palmeiras, no desespero, por pouco não chegou ao empate. Silas deu rebote num chute de fora da área e Mirandinha cabeceou para fora.

Mas a festa, estava escrito, era do pequeno time do interior. E no apito final de Dulcício Wanderley Boschilla, veio a explosão de alegria dos torcedores da Inter, campeã paulista de 1986.

"Este é um título que eu ofereço à toda torcida de Limeira, à minha esposa e à família do falecido Zezinho Figueroa (vítima de um aneurisma cerebral aos 34 anos, em fevereiro daquele mesmo ano). Venceu o melhor realmente", afiançou Pepe.

Quem quiser que discorde de José Macia...

Confira o vídeo da reportagem do Globo Esporte de 4 de setembro, apresentado por Léo Batista. A narração dos gols é de Luiz Alfredo.

video

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Carnaval 2012 - pitacos sobre o CD do Grupo Especial

Gosto de carnaval. Muito. A culpa, claro, é paterna. Nos anos 70, todo início de ano, todo fim de semana, lá vinham os discos com as feéricas capas da Top Tape ocupar a vitrola. Claro que eu, pequeno, não sabia patavina das letras, mas não resistia a chamar minha mãe, portelense roxa, de "nega fulô", quando ouvia 'Memórias poéticas de Jorge de Lima', samba da Estação Primeira de Mangueira do ano de 1975. E olha que de "nega fulô", minha mãe não tem nada.

O tempo passou, os discos de samba-enredo foram embora quando meu pai saiu de casa, mas a empolgação pelo carnaval, os sambas e os desfiles não feneceu. Pelo contrário, só cresceu. Com o passar dos anos, me interessei mais e mais pelo carnaval e a história dos desfiles, a ponto de passar tardes inteiras na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro lendo apaixonadamente a cobertura dos carnavais mais antigos, folheando edições de O Globo caindo aos pedaços.

A partir de 1981, com o coração conquistado pela Imperatriz Leopoldinense de forma definitiva, tornei-me um torcedor alucinado da agremiação de Ramos, bairro onde passei quase três décadas da minha vida. Essa paixão nunca me impediu, contudo, de elogiar a performance de outras escolas na avenida nem como deixar de admirar grandes sambas que tomaram conta da Marquês de Sapucaí.

Vejo que 2012 está marcado por um ano com sambas muito acima da média do que vínhamos ouvindo neste começo de século XXI. Se por vezes uma obra se salvava em meio à mediocridade e, por vezes, nenhuma era digna de registro, para o carnaval do ano que vem temos uma autêntica obra-prima, um samba que tinha tudo para sê-lo (mas não foi) e outros dois ou três muito bons. Infelizmente, não nos livramos dos chamados "bois com abóbora" nesta safra.

Proponho aqui minha humilde avaliação, ressaltando, mais uma vez: não sou especialista, não sou um crítico. Apenas um admirador desta festa que, por uma semana, iguala pobres e ricos numa só paixão.

Beija-Flor de Nilópolis - Vou entrar de sola numa questão polêmica acerca do samba da Beija-Flor. A junção proposta entre as duas obras finalistas "matou" uma possível obra-prima do carnaval de 2012. No meu entender, o samba da parceria de Samir Trindade, com seu excepcional refrão "Meu São Luís do Maranhão... poema encantado de amor... onde canta o sabiá... hoje canta a Beija-Flor" era de letra e melodia superior à composição de J. Velloso e parceiros, da qual aproveitou-se a segunda parte e o refrão do meio. Não é um samba ruim, muito longe disso. Mas a decisão da junção fez a Beija-Flor dar em si mesma um "tiro no pé". Perderam a chance de figurar como uma das melhores obras do carnaval por conta disso. Nota 9,6

Unidos da Tijuca - A agremiação do Borel também não foi feliz na escolha do seu samba-enredo para 2012. Tem alusões muito bem sacadas a Luiz Gonzaga, o "Rei do Baião" homenageado pela escola vice-campeã do ano passado, mas o samba não chega a empolgar. A melodia é apenas correta. Bruno Ribas gravou o samba muito bem, só que na gravação, o tom da voz do intérprete ficou mais alto do que deveria - o que pode dificultar o canto dos componentes na hora do desfile. Passando ao largo da comparação com o espetacular samba "Lua Viajante", enredo da Unidos de Lucas de 1982, esta homenagem a Gonzagão ficou devendo um pouquinho. Nota 9,5

Estação Primeira de Mangueira - A homenagem ao Cacique de Ramos é mais uma sacada inteligente de Ivo Meirelles após o desfile deste ano, com um enredo alusivo ao baluarte da verde-e-rosa Nelson Cavaquinho. Mas alguma coisa ficou estranha na gravação do samba de 2012: justamente a primeira 'passada', aquela em que o ouvinte tem que ser cativado pela voz do intérprete, é uma reunião de 'bambas' que, se soou inovadora pela proposta, por outro lado tornou-a estranha pelo desnível de vozes como as de Beth Carvalho e Jorge Aragão, por exemplo. No mais, o samba é bom, com uma segunda parte irresistível, porém com dois pequenos problemas: citações desnecessárias à própria Mangueira (uma vez que o homenageado é o Cacique de Ramos) e o refrão, destoando do resto da obra pela pobreza. Nota 9,5

Unidos de Vila Isabel - Vira e mexe a azul e branco da terra de Noel Rosa nos brinda com grandes sambas. Este de 2012 não é exceção. A escolha de mais um enredo "africano" nos remete a Kizomba e outros tantos desfiles carregados de emoção que a Vila Isabel já nos proporcionou no carnaval carioca. E mais uma vez, a escola leva para a avenida um samba de André Diniz, o maior vencedor das disputas de samba-enredo do Rio de Janeiro. Uma obra belíssima, com dois refrões sensacionais - "Reina Ginga ê matamba vem ver a lua de Luanda nos guiar... Reina Ginga ê matamba negra de Zambi, sua terra é seu altar" e "Semba de lá, que eu sambo de cá... Já clareou o dia de paz... Vai ressoar o canto livre... Nos meus tambores, o sonho vive" - e uma linha melódica perfeita. Tinga cantou o samba à perfeição na gravação do disco. O problema é que, na avenida, o intérprete costuma apelar para os gritos, o que pode comprometer a escola no seu desfile. Nota 9,9

Acadêmicos do Salgueiro - Outro samba que foi praticamente unânime na final da agremiação vermelho e branco do Andaraí, o "Cordel Branco e Encarnado" se encaixa na proposta de enredo de Renato Lage, com um refrão muito bom, para cima, um dos melhores do carnaval: "Salgueiro é amor que mora no peito... Com todo respeito, o rei da folia... Eu sou o cordel branco e encarnado... "Danado" pra versar na Academia". Mas a impressão que fica no ar é que este mesmo samba não levou a fundo o lema da escola. "Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente". Num ano de grandes sambas, o do Salgueiro não pode ser comparado aos melhores, justamente porque faltou o 'diferente' que poderia virar as coisas a seu favor. No meu gosto, o samba que Wantuir defendia nas eliminatórias era melhor. Mas a obra de Marcelo Motta e parceiros caiu no gosto dos componentes. E para o Salgueiro é isso que importa. Nota 9,6

Imperatriz Leopoldinense - A "Rainha de Ramos" teve neste ano a disputa mais acirrada para a escolha do seu samba - muito mais do que em qualquer outra das 12 coirmãs, mostrando a excelência de sua Ala de Compositores, hoje provavelmente a melhor do carnaval do Rio de Janeiro. De princípio, simpatizei mais com os sambas das parcerias de Me Leva e cia. (vencedores das disputas para 2010 e 2011) e de Josimar e cia. (autores dos sambas dos carnavais de 2008 e 2009), por serem mais descritivos e mais condizentes com a homenagem a Jorge Amado em seu centenário. Mas, correndo por fora, ganhou corpo a obra de Jefferson Lima e parceiros, que de maneira até certo ponto surpreendente, venceu a disputa. É um samba criativo, de melodia eminentemente afro e de versos inspirados como os da segunda parte: "O vento soprou... As letras em liberdade... Joga a rede, pescador!... O povo tem sede de felicidade... A brisa a embalar... Histórias que falam de amor... Memórias sob o lume do luar... O doce perfume da flor", mas que peca pelos refrões, especialmente o chamado 'refrão de cabeça'. Não compromete, mas está abaixo por exemplo, de "Brasil de Todos os Deuses", esta sim uma obra-prima da Imperatriz neste século. Nota 9,8

Mocidade Independente de Padre Miguel - Não é implicância com a escola da Vila Vintém, mas honestamente não consegui ser atraído pelo samba que alude a Cândido Portinari, outro artista já homenageado em outras ocasiões nos desfiles das escolas de samba. Se ano passado a Imperatriz abusou do direito de pôr frases com a terminação "ar" - foram 25! - a parceria de Diego Nicolau, Gabriel Teixeira e Gustavo Soares apelou para um quarteto de "al" - real, mural, ideal e carnaval - no fim da segunda parte do samba, que tem uma linha melódica que também não é das melhores do ano. É uma obra acima da média do que a agremiação mostrou nos últimos anos, mas longe de ser excepcional. Nota 9,4

Unidos do Porto da Pedra - Não há como dizer que o samba da escola de São Gonçalo é o grande "boi com abóbora" de 2012. Também pudera: o enredo não ajuda na composição de um bom samba e a obra de Vadinho e parceiros cai na vala comum dos sambas que rapidamente serão esquecidos pelos bambas. Salvou-se a ótima performance de Wander Pires, que economizou nas firulas e mostrou que, quando quer, pode ser um excepcional cantor de samba-enredo. A bateria comandada por mestre Thiago Diogo também foi um ponto positivo na gravação do pior samba do ano. Nota 9,1

Unidos de São Clemente - Impossível não gostar do samba da agremiação de Botafogo, a única da Zona Sul do Rio no Grupo Especial - embora sua quadra seja na Cidade Nova. O refrão, com seu "Tem bububu no bobobó" gruda no ouvido que nem chiclete e é o mais "alegre", "pra cima" de todo carnaval, marcando, quem sabe, a volta da irreverência da São Clemente perdida ao longo dos anos e que, grosso modo, remete também aos bons tempos da Caprichosos de Pilares. Embora o samba não tenha outros momentos de grande inspiração e trechos como "Puxa, aqui Paris é avenida" beirem a grosseria, a obra passa sem grandes problemas. A destacar a interpretação do jovem Igor Sorriso, uma das melhores de todo o disco. Nota 9,5

Acadêmicos do Grande Rio - Tanto falatório para uma grande decepção. É assim que considero o samba da agremiação tricolor da Baixada Fluminense, dado o que se aguardava do enredo de 2012, cujo mote é a superação. Nem de longe o samba é capaz de lembrar do que aconteceu à Grande Rio ano passado e aludir a outras histórias parecidas ou específicas do tema. Muito estranha, fora de contexto, é a citação ao Festival de Parintins, mesmo que de forma indireta, o que torna o samba ainda mais incompreensível para quem, como eu, esperava uma obra emocionante sem ser piegas. E isto, Edispuma e seus parceiros não conseguiram fazer. Talvez seja o pior samba da Grande Rio desde sua última volta ao Grupo Especial em 1994. Nota 9,3

Portela - Um samba com a cara da Portela. Comovente. Lindo. Extraordinariamente belo. Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Naldo estão de parabéns. Atingiram a altura da obra-prima num samba que merece ser o grande hit do carnaval de 2012. Sem deixar de olhar para o futuro, os compositores flertam com o passado, numa junção absolutamente feliz de tempo e espaço, trazendo para o nosso deleite um samba de três partes, com refrões emocionantes e que já fazem parte do panteão de trechos inesquecíveis do carnaval carioca. Madureira vai subir o Pelô! Nota 10

União da Ilha do Governador - A safra de sambas da União da Ilha para 2012 foi considerada pelos 'bambas' muito abaixo da média do que a escola poderia proporcionar. De fato, com um tema bastante interessante, aludindo aos Jogos Olímpicos de Londres puxando para a competição que será disputada no Rio em 2016 e ao fato de que a Grã-Bretanha é uma ilha feito a Ilha do Governador, os compositores desta vez não foram tão inspirados. A junção das obras das parcerias de Marquinho do Banjo e Aloísio Vilar, melodicamente, não foi ruim, mas o conjunto ficou confuso. Uma lástima para uma escola que angaria a simpatia de muitos dos que gostam de carnaval. Destaco o refrão de cabeça, que assim como o da São Clemente, gruda nos ouvidos feito chiclete. E Ito Melodia, mais uma vez foi muito bem na interpretação de um samba insulano. Nota 9,3

Renascer de Jacarepaguá - A caçula do Grupo Especial estreia em 2012 com um enredo homenageando o artista plástico Romero Britto e com um samba, no meu entender, apenas correto. A composição de Cláudio Russo e parceiros não consegue atingir o píncaro do que se espera de um samba. Não tem um refrão explosivo, não tem emoção, não tem 'pegada'. Apenas algunas sacadas inteligentes relativas ao homenageado se salvam numa obra meramente descritiva. Rogerinho Renascer não comprometeu na gravação, mas a escola buscou se socorrer de um nome de peso. Veio Nêgo, que durou pouco mais de uma semana na Renascer e já está no olho da rua. Só um milagre deverá manter a agremiação de Jacarepaguá no Grupo Especial em 2013. Nota 9,2

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Fosfosol - Fluminense 3 x 2 Vasco (1989)

Não foram poucas as vezes em que um Campeonato Brasileiro de Futebol terminou no ano seguinte ao seu início. O de 1988 - a segunda e também última edição da Copa União - não foi exceção. Aquela competição, ganha pelo Bahia, só terminaria em fevereiro de 1989, o que gerou sem nenhuma dúvida um duplo carnaval em Salvador.

Enfim: para chegar lá, o Bahia derrotou o Internacional após vencer os gaúchos na Fonte Nova por 2 x 1 e segurar o empate no Beira-Rio. Isso tudo depois de eliminar o Fluminense e o Colorado ganhar do Grêmio no famoso "Gre-Nal do Século".

A fase de "mata-mata", comum até a introdução definitiva dos pontos corridos, reservava grandes jogos e um deles não foi exceção: o confronto entre Fluminense e Vasco, pelas quartas-de-final.

Na primeira etapa da Copa União, com os times divididos em dois grupos de 12, Fluminense e Vasco jogaram em 23 de outubro de 1988. Foi o famoso jogo em que até Acácio e Ricardo Pinto bateram pênaltis - todo jogo que terminava empatado ia para as cobranças de tiros livres diretos da marca fatal. O Vasco foi mais feliz e levou o ponto extra.

Tanto o tricolor quanto o time de São Januário se classificaram para a fase de quartas-de-final e formaram um dos confrontos eliminatórios. O primeiro jogo foi em 29 de janeiro de 1989, um domingo. Vitória do Flu pelo score mínimo - golaço contra do folclórico Zé do Carmo.

A decisão foi na quarta-feira seguinte, dia 1º de fevereiro. O Estádio Mário Filho apanhou um bom público (75.157 pagantes) para acompanhar um jogo que, sem dúvida, prometia muito.

O Fluminense alinhou com Ricardo Pinto, Carlos André, Edinho, Édson Mariano e Eduardo "Cachaça"; Jandir, Donizete, Romerito e Paulinho Andreoli; Cacau e Washington. O técnico era Sérgio Cosme.

Jandir, Romerito e Washington eram os últimos remanescentes do time do tricampeonato estadual 83/84/85, que também consagrou-se campeão brasileiro em 1984.

Já o Vasco vinha com Acácio, Paulo Roberto, Célio Silva, Leonardo e Mazinho; Zé do Carmo, Geovani e Bismarck; Vivinho, Roberto Dinamite e Sorato. Zanata era o treinador cruzmaltino.

Com ares de favorito, porque tinha um time superior no papel e fizera a melhor campanha nos dois turnos da Copa União antes da fase de "mata-mata", o Vasco foi surpreendido aos nove minutos, numa jogada bem ao estilo do Fluminense dos anos 80. Contra-ataque rápido, puxado por Romerito, daí para Washington e um passe primoroso para Donizete, que com um toque venceu Acácio e fez o lado esquerdo do estádio explodir. Flu 1 x 0.

O Vasco era um time perigoso. E com Roberto Dinamite, já com 34 anos, não se podia brincar. Foi o eterno artilheiro que descobriu Bismarck livre. A jovem revelação de São Januário pegou de primeira, vencendo Ricardo Pinto e empatando a peleja.

A partir daí, o jogo foi defesa contra ataque. O Fluminense encolhido porque o 1 x 1 bastava para que o tricolor se classificasse para as semifinais. O Vasco, mesmo com a expulsão de Célio Silva após um golpe de caratê em Washington, buscou a vitória até o fim. E foi premiado pela insistência, mercê um erro - segundo os cruzmaltinos - do árbitro José Roberto Wright, que marcou jogo perigoso de Edinho num adversário em vez de dar um pênalti.

A falta foi cobrada com maestria por Geovani, que colocou a bola na cabeça de Leonardo, executando um tirombaço que fez o lado alvinegro do Maraca calar a torcida tricolor. A partida iria para a prorrogação e o empate, agora, era do Vasco.

Os primeiros 15 minutos de bola rolando no tempo suplementar terminaram, como disse Denis Menezes na transmissão da Rádio Globo, em "0 x 0 Vasco". Mas bastou a virada de campo e tudo mudou.

Sérgio Cosme, antes da bola voltar a rolar, processou uma alteração que, ironicamente, mudaria os rumos da partida. O inoperante Cacau deu lugar ao jovem Zé Maria, prata da casa que, a exemplo de muitos, teria vida curtíssima nas Laranjeiras.

Logo a 1 minuto do segundo tempo da prorrogação, Eduardo bateu uma falta pelo lado esquerdo, um mini-córner. Alexandre Cruz, que entrara na vaga de Romerito, hesitou. Mas Zé Maria, não. Ele chutou firme, seco e de pé direito, vencendo Acácio. Delírio tricolor. Frustração alvinegra.

Com a desvantagem do jogador a menos e a covardia de Zanata, o Vasco, cansado pelo esforço em levar a partida à prorrogação, levou o tiro de misericórdia no finalzinho. Zé Maria fez jogada pela direita e serviu Washington, marcado para sempre na memória de Acácio pelo gol cheio de dribles no Carioca de 1987. O camisa 9 do Fluminense, desta vez, caprichou na maldade. Encobriu o arqueiro do Vasco e fez o segundo gol que classificou o Flu para a fase semifinal da Copa União de 1988.

Confira o vídeo com a reportagem de Marcelo Rezende.


video

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Meninos, eu vi - Stevie Wonder no RiR


A quinta-feira foi um dia extra na programação do Rock in Rio. Aparentemente, o dia 29 estava riscado do mapa do festival.Agora, o dia 29 de setembro entra (mais um dia!) na história do evento, da música e com certeza na minha memória.

Mais cedo, escrevi no twitter que era o dia do aprendiz e do mestre. Jamiroquai antes, como um 'aquecimento' e Stevie Wonder, a lenda, o mito, o Pelé do soul e do R&B, tocando em nossa terra depois de muito tempo.

De fato, a apresentação de Jamiroquai foi correta, mas não muito além disso. Faltaram clássicos como "Space Cowboy" e "Virtual Insanity" e embora o groove de suas canções dissesse 'presente', faltou interação com o público. Se eu tivesse que dar uma nota para Jay Kay e sua ótima banda, daria um 7. O show dele esteve para o evento de 2011 como o de Beck esteve para o de 2001. Perfeito para um evento como o Free Jazz Festival, por exemplo, se o Free Jazz existisse.

O intervalo entre o show de Jamiroquai e Stevie Wonder só fez aumentar a expectativa do que o veterano cantor e compositor faria no Palco Mundo do Rock in Rio. E do começo ao fim, sem tirar nem pôr, o que vimos, ouvimos e presenciamos foi simplesmente fantástico. Um desfile de grandes canções e um artista e uma banda felizes por estarem ali diante de uma multidão igualmente fantástica.

Stevie mandou muito bem nos clássicos de costume, enchendo nossos ouvidos de groove e nos emocionando com músicas como "Overjoyed", cantada ao piano após uma épica e histórica intervenção dele, de sua filha Aisha (uma das integrantes do coro de apoio) e do próprio público, em participação maciça, em "Garota de Ipanema" e, surpresa das surpresas, em "Você abusou", clássico de Antônio Carlos & Jocafi que fez sucesso internacional nos anos 70. Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Antônio Carlos e Jocafi nunca se sentiram tão homenageados musicalmente por um artista internacional e por uma plateia de mais de 80 mil pessoas.

Claro, não podiam faltar as pérolas de seu repertório: "Higher Ground", "Sir Duke", "As", "Superstition", "I just called to say I love you" - canção que lhe conferiu o Oscar nos anos 80, e não foi à toa que o 'Pelé do Soul' ganhou 25 Grammys em sua carreira.

Ele insistiu em nos emocionar com "My chérie amour" e "You are the sunshine of my life" e pôs todo mundo para cantar com ele em "Isn't she lovely". E não foi só isso... a partir de sua emocionante versão de "Garota de Ipanema", ele virou do avesso o seu próprio setlist e não cantou baladas épicas como "For once in my life" e "Ribbon in the sky".

Pensando bem, e daí?

Daí que foi um show memorável, épico, espetacular, incrível, que dispensa demais adjetivos. Uma goleada musical que varou a madrugada e fez valer cada momento, cada nota, cada melodia, cada lágrima que derramamos nesta noite de quinta-feira.

Certeza que viver vale a pena depois de ver um homem com quase 50 anos de carreira fazer o que faz de melhor com alegria, paixão, carinho e respeito pelo público e pela música brasileira. Como disseram Tom e Vinícius em "Garota de Ipanema"... 'o mundo inteirinho se enche de graça e fica mais lindo por causa do amor'.

E foi esse amor do público brasileiro por Stevie Wonder que ele sentiu intensamente na pele, na alma e no coração.

Obrigado por existir, Stevie!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Meninos, eu vi - Metallica no RiR

Sabem aqueles momentos que você vive e quer guardar para sempre na retina, como um sonho bom?

Pois é... neste domingo, 25 de setembro, a música mais uma vez foi capaz de proporcionar a mim, a você, a todos nós que gostamos da boa música, um desses momentos. Quase quatro horas de adrenalina, de energia, de um absurdo de apresentação que foi a participação do Metallica na 'noite do metal' desta edição 2011 do Rock in Rio.

É fácil 'jogar com a plateia ganha'? Claro, é uma barbada - para quem sabe das coisas. O Metallica não é uma dessas bandinhas formadas na esquina. Os caras têm 30 anos de estrada, ganharam cancha, amadureceram, tratam bem demais o público - nada de palavrões desnecessários como os mascarados do Slipknot, a banda que (erroneamente) antecedeu James Hetfield, Lars Ulrich, Rob Trujillo e Kirk Hammett.

A Cidade do Rock explodiu em som e fúria da primeira à última música. Quando entrou no telão uma cena do filme "Três homens em conflito", estava deflagrada uma das maiores apresentações da história do festival. Eles aumentaram o fogo da panela de pressão com "Creeping Death", um dos clássicos obrigatórios em qualquer discoteca de metaleiro. E seguiram o mesmo roteiro do show com o Big Four, ocorrido há menos de duas semanas.

Ligados na tomada em 220V, Hetfield e seus camaradas entraram aceleradíssimos e sem tirar de dentro em "From Whom The Bell Tolls" e "Fuel", quando ele e Kirk Hammett trocaram de guitarra pela primeira vez - aliás, jurei que contaria quantas vezes isso aconteceu ao longo do show, mas no meio, empolgado com o som e a qualidade do espetáculo, perdi a conta.

A plateia, ensandecida, pedia mais. E vieram "Ride The Lightning", "Fade To Black", "Cyanide" e "All Nightmare Long", antes de um dos grandes sucessos do maior sucesso comercial da história do Metallica, que é o Black Album - "Sad But True". Aqui em casa, as esquadrias de alumínio da janela estremeceram, o quarteirão não dormiu, o som estéreo aumentou o volume e a TV trazia a imagem nítida, limpa, cristalina, em alta definição.

Não foi difícil para o Metallica manter o altíssimo nível de sua apresentação, com uma espetacular "cozinha" formada por Lars Ulrich e Rob Trujillo (o veterano de guerras, ex-baixista de Suicidal Tendencies, Infectious Grooves e da banda de Ozzy Osbourne), que com seu instrumento quase na altura dos joelhos, deu uma aula de como tocar baixo sem ser fanfarrão - embora o Flea, que é um mestre dos mestres das quatro cordas, possa parecer um. E aí vieram a excepcional "Welcome Home (Sanitarium)", a sensacional "Orion" e "One", talvez a primeira música deles que ouvi na minha vida, lá pelo fim dos anos 80.

Daí para diante, o esporro sonoro foi absurdo, ajudado por 100 mil gargantas, almas e vozes urrando o que ainda lhes restava dentro de si. "Master of Puppets" e "Blackened" antecederam a outros dois clássicos do Black Album, a belíssima balada "Nothing Else Matters" (sim, belíssima, como não?) e a suprema "Enter The Sandman".

O bis, sumariamente omitido pela Rede Globo, que transmitiu todas as 15 músicas anteriores sem qualquer tipo de interrupção, porém com uma gravíssima falha de colocar apenas uma palavra de cada nome das músicas no setlist (normal, todo mundo abrevia os nomes, não pensaram nisso na hora?), coisa que daria demissão nos tempos em que Boni era o todo-poderoso da emissora. Como os tempos são de Boninho... melhor pular essa parte e voltar para o que interessa: as últimas três músicas, simplesmente arrasadoras - a cover de "Am I Evil?" (Yes I am!), a velocíssima "Whiplash" e, clássico dos clássicos, símbolo apoteótico da catarse, "Seek And Destroy".

O show terminou com uma merecida homenagem a Cliff Burton, baixista-fundador do Metallica, um monstro do seu instrumento, que morreu de forma trágica há 25 anos. Exatamente hoje, num 26 de setembro como este, só que de 1986.

Ao fim de 18 músicas, uma certeza: assistimos hoje a uma aula de show de rock and roll, talvez um dos poucos que mereçam figurar a partir de agora no topo das apresentações épicas do Rock in Rio, dentre as quais citaria Queen e Rod Stewart em 1985, Faith No More em 1991, Neil Young, Iron Maiden e R. E. M. em 2001 e, dez anos após a última passagem do evento por aqui, Metallica.

Uma certeza só? Tem certeza?

Que tal duas?

Então tá: Roberto Medina, fecha o barraco, rapaz. Já pode acabar com o Rock in Rio, tá? Obrigado.

sábado, 24 de setembro de 2011

Meninos, eu vi - Elton John no RiR

Elton John foi o primeiro artista que ouvi na minha vida. É sério. Com quatro anos de idade, ganhei do meu pai um "Greatest Hits" em cuja capa o cantor/compositor estava elegantemente trajado de branco: terno, calça, sapatos, chapéu - e com direito a um 'oclão' enorme.

Em suma: Reginald Kenneth Dwight e seu parceiro Bernie Taupin merecem todo o nosso respeito. Até porque, na minha modesta opinião - modesta sim, pois não sou crítico musical, apenas um apreciador de boa música - essa dupla talvez seja a maior dupla de compositores pop existente depois de Lennon-McCartney nos Beatles.

Quem quiser, que discorde.

Enfim... estamos em 2011 e em pleno século 21, Elton John, do alto dos seus 64 anos, deu hoje na Cidade do Rock uma AULA de como fazer um ótimo show pop sem resvalar na cafonice de Katy Perry e seu festival de fantasias de fazer inveja a qualquer escola de samba da Intendente Magalhães ou mesmo no repertório dançante-sem-sal da Rihanna. E isso porque não falei de Claudia Leitte, até porque a presença da mesma num festival de rock é totalmente incompreensível.

Elton jogou para a galera desde a primeira música, a clássica "Saturday's night alright for fighting", mostrando desde a primeira nota ao que ele e sua coesa - e ótima banda - vieram fazer no show. Os anos passam e ele continua um prodígio à frente do seu piano Yamaha, o que não é de se espantar.

E não se desgrudou dos clássicos. Do lendário álbum Madman across the water, de 1971, mandou em sequência "Levon" e "Tiny Dancer". E embalou os corações e as emoções dos mais empedernidos com os petardos de sempre. "Goodbye Yellow Brick Road" e "Rocket Man", evocada no casacão de seu figurino e, segundo consta a minha querida amiga Karol Stutz, nome do título do filme que está sendo produzido para biografar a vida e a obra do artista britânico.

Mas não ficou por aí. Ele ainda mandou "I guess that's why they call it the blues", uma nova de seu repertório, "Hey Ahab", e fechou com uma sequência de clássicos pra ninguém botar defeito: "Honky Cat", "Daniel", "Don't let the sun go down on me", "Skyline Pigeon", a maravilhosa "Bennie And The Jets", "The Bitch is Back" e a sensacional "Crocodile Rock", que, confesso, é uma música que já adorava ouvir quando tinha a tenra idade de quatro anos.

Só que o pior aconteceu: nos últimos acordes de "Crocodile...", alguns imbecis que provavelmente não sabem o que é música ou não têm o menor respeito pelo artista que acabavam de ouvir, parte do público clamava por Rihanna. De acordo com o setlist inicial, Elton John cantaria "Your song", clássico eterno de seu repertório, como um bis.

Mas não houve bis. Também pudera: ele já entrara no palco com um considerável atraso de 40 minutos. Lamentável sob todos os aspectos. Pela reação do público, infeliz pelo 'clamor' à artista seguinte, denotando desrespeito a Elton John e, principalmente, pela falha gravíssima da organização, que não permite a um cantor do naipe de Reginald Kenneth Dwight de fazer seu show completo.

Mesmo assim, só posso dizer...

THANK YOU, SIR ELTON JOHN!