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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Carnaval 2019 - Os sambas do Grupo Especial

Ano passado, ganhou o desenredo da Beija-Flor, em que pese a escola de Nilópolis ter apresentado um bom samba e um chão fortíssimo. Veremos como será em 2019, no ano do 70º aniversário da "Deusa da Passarela"
Após o texto publicado com meus pitacos sobre os sambas do Grupo de Acesso, agora vamos aos sambas do Grupo Especial, que é a grande atração do carnaval carioca em 2019.

É uma safra da qual eu gosto, no geral. Tem coisas pavorosas, mas outras realmente excepcionais. Não dá para ignorar as deficiências de alguns sambas e, por outro lado, há que se valorizar vários outros que certamente sairão da Sapucaí com a nota máxima.

O "presidente-vampiro" foi um destaques do surpreendente desfile do Paraíso do Tuitui em 2018. O que será que Jack Vasconcellos nos aprontará neste ano?
E samba-enredo hoje tem sido um negócio muito sério e definitivo. Tanto que a Beija-Flor, com um grande chão e um visual altamente duvidoso, venceu o carnaval do ano passado - situação que até hoje rende muita polêmica. De repente, pode ser o quesito de desempate - como também não pode. 

Tem muita outra coisa que define carnaval, desde o tempo de 1900 e guaraná de rolha - e infelizmente o que temos visto são viradas de mesa que têm diminuído a credibilidade do Carnaval do Rio de Janeiro.

Mas vamos lá... temos 14 escolas, sete em cada dia, trazendo homenagens, temas polêmicos, reedição, galhofa e crítica social. Tem gente no páreo, outras ali na zona da marola, algumas com chance bem razoável de voltar no Sábado das Campeãs e pelo menos uma escola já largaria rebaixada para o Acesso - minha opinião.

Seguem abaixo as agremiações por ordem de apresentação no desfile e não pelo que se ouviu no CD produzido mais uma vez por Laíla e Mário Jorge Bruno, gravado "ao vivo" na Cidade do Samba e mixado e complementado no estúdio Cia. dos Técnicos.

IMPÉRIO SERRANO
Enredo: O que é, o que é?
Carnavalesco: Paulo Menezes
Compositor: Luiz Gonzaga Júnior (Gonzaguinha)
Intérpretes: Silas Leleu e Anderson Paz

Tenho muito carinho pelo Império Serrano. A escola de Madureira é madrinha da minha Imperatriz Leopoldinense. Quando comecei a acompanhar mais a fundo esse negócio de Carnaval e samba-enredo, sempre ouvi falar em Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, o filho deste, Jorginho do Império, Beto Sem Braço e Aluízio Machado. Bambas da maior qualidade.

Não obstante, o último carnaval ganho pela verde e branco de Magno é o histórico "Bum Bum Paticumbum Prugurundum", de 1982. Um senhor samba e um desfile que ficou para a história e na memória.

E eis que para 2019 o Império joga totalmente no lixo sua tradição de 72 anos e vem com a ideia de transformar um clássico da MPB em enredo e, pior, em samba-enredo. 

Não seria discutível pegar a música de Gonzaguinha e torná-la o mote do enredo do carnavalesco Paulo Menezes e acredito até nas melhores intenções do artista. Mas, façam-me o favor: aquilo é música popular. Pra ser cantado no jeito de samba-enredo não cabe, não tem métrica de samba-enredo como "Vai passar", de Chico Buarque de Hollanda. 

Acompanhei o ensaio técnico do último dia 23 e, embora o componente cante com emoção e fervor - e a bateria tenha dado um sacode, com Mestre Gilmar à frente da competentíssima Sinfônica - não dá pra salvar o que não tem salvação.

Com todo respeito ao Império, até porque o Império merece todo o nosso respeito: vilipendiar a própria história do Carnaval carioca e do próprio samba-enredo e suas raízes imperianas, é demais para o meu gosto.

UNIDOS DO VIRADOURO
Enredo: Viraviradouro
Carnavalesco: Paulo Barros
Compositores: Renan Gêmeo, Bebeto Maneiro, Thiago Carvalhal, Ludson Areia, Júnior Filhão, Raphael Richaid, Ricardo Neves, Carlinhos Viradouro e Rodrigo Gêmeo
Intérprete: Zé Paulo Sierra

De volta ao Grupo Especial, a Unidos do Viradouro retorna com um samba que é a cara dos enredos de Paulo Barros. A letra não diz nada com nada, mas é tremendamente funcional, bem construída, com melodia valente e um grande intérprete - sou fã de Zé Paulo Sierra e falei isso pra ele, pessoalmente, no Baródromo - quando o cantor se apresentou na casa ano passado.

E não só o samba é adequado. A própria Viradouro se preparou muito bem para permanecer no lugar em que muitos dizem que não devia ter saído. Contratou Ciça para comandar uma bateria que tem feito um trabalho excepcional e principalmente um Paulo Barros que retorna à agremiação do Barreto e vem mordido para querer fazer um grande carnaval e mostrar que continua um gênio indomável e por vezes polêmico - deveria, por exemplo, ter ficado calado quando falou que "enredos críticos são modinha". Nada menos exato.

Nos bastidores, dizem que a escola está pronta e que pode voltar ao Sábado das Campeãs. E torço para que volte. Mas o samba-enredo não é daqueles fora de série. A escola pode perder alguns décimos por conta da letra - porém, cabeça de jurado é que nem bunda de neném: você não sabe o que pode sair de dentro dela...

ACADÊMICOS DO GRANDE RIO
Enredo: Quem nunca...? Que atire a primeira pedra
Carnavalescos: Renato e Márcia Lage
Compositores: Moacyr Luz, Cláudio Russo, André Diniz, Licinho Júnior, Elias Bililico e G. Martins
Intérprete: Evandro Malandro

A Grande Rio sambou na cara de quem vive do Carnaval. "Quem tem amigos, tem tudo" - frase do presidente da agremiação de Caxias, quando se negociou a vergonhosa virada de mesa que manteve a tricolor no Grupo Especial.

Para piorar, veio o deboche do título do enredo proposto por Renato Lage e a mulher deste, Márcia, para 2019. Uma tentativa de se redimir do pecado cometido no ano passado na estreia do carnavalesco com o enredo sobre o genial Chacrinha, quando ficaram em penúltimo lugar. E apesar da griffe que carregam Moacyr Luz, Cláudio Russo e André Diniz, o samba deixa a desejar nos argumentos e na proposta.

"Se errei, peço perdão", é um escárnio da letra. A escola errou e feio. Não há quem não negue. "Falam de mim, eu falo de paz". Que paz? Não haveria essa palhaçada toda e não perderíamos tempo criticando a segunda vergonha seguida perpetrada pela LIESA se o regulamento fosse cumprido à risca.

Lamento que o ótimo intérprete Evandro Malandro faça sua merecida estreia no Grupo Especial cantando um samba tão despropositado. A notar que a bateria da Tricolor voltou a ter a mesma qualidade dos tempos de Odilon, comandada pelo novato Fafá. 

A Grande Rio poderia voltar aos seus ótimos enredos dos anos 1990, para resgatar alguma simpatia deste escriba aqui. Porque, olha... tá difícil.

ACADÊMICOS DO SALGUEIRO
Enredo: Xangô
Carnavalesco: Alex de Souza
Compositores: Demá Chagas, Marcelo Motta, Renato Galante, Fred Camacho, Getúlio Coelho, Leonardo Gallo, Vanderlei Sena, Francisco Aquino, Guinga do Salgueiro e Ricardo Fernandes
Intérprete: Emerson Dias

Se existe um samba com a cara de uma escola, esse é o do Acadêmicos do Salgueiro. Uma letra bem construída, poderosa, forte e bem ao gosto da nação salgueirense - que viveu momentos de indefinição absoluta no período pré-carnavalesco.

Sai Regina, volta Regina, sai Regina de novo, volta Regina mais uma vez, sai Regina. Definitivamente. E sem Regina Celi Fernandes, talvez a vermelho e branco da Tijuca possa ter paz. A nova diretoria trouxe o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira que a antiga presidente resolveu botar no olho da rua e, em troca disso, Mestre Marcão, um dos grandes diretores de Bateria do nosso Carnaval, foi demitido. Quinho, intérprete-símbolo do Sal por muitos anos, também afastado pela ex-presidente, voltou para dar mais "molho" ao carro de som.

Outros acertos foram a permanência de Alex de Souza como carnavalesco e a vinda de Emerson Dias a reboque do acerto que manteve a Grande Rio no Grupo Especial. O Salgueiro ganha em peso com um intérprete que finalmente poderá mostrar o que vale cantando um grande samba. Eu gosto da obra de Marcelo Motta e parceiros. Vamos ver se a escola sai da fila que pode chegar a 10 anos...

Em tempo: Xangô é o orixá da Justiça. E em tempos que é preciso se fazer justiça, veremos se haverá uma no resultado final.

Porque em 2018... melhor deixar pra lá.

BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS
Enredo: Quem não viu vai ver... As fábulas do Beija-Flor
Carnavalesco: Comissão de Carnaval (Cid Carvalho, Bianca Behrends, Leo Mídia, Rodrigo Pacheco e Victor Santos)
Compositores: Di Menor BF, Júlio Assis, Kirazinho, Diego Oliveira, Fabinho Ferreira, Diogo Rosa, Dr. Rogério, Carlinho Ousadia, Márcio França, Kaká Kalmão, Jorge Aila e Serginho Aguiar
Intérprete: Neguinho da Beija-Flor

A Beija-Flor chega ao carnaval do seu 70º aniversário com mudanças drásticas em sua estrutura de Carnaval. Laíla e Fransérgio deixaram a escola, rumo a novos desafios. Um mal-parado com Gabriel David, que parece ser o herdeiro de Anísio Abrahão David na hierarquia nilopolitana, pode trazer sérias consequências para o desfile de 2019.

Começaram mal com a escolha do samba. Na verdade, anunciaram um que em princípio parecia perfeito. Depois, a direção da agremiação decidiu por um "Frankenstein" enfiando partes de um dos sambas derrotados na final - piorando a obra que seria aquela que impulsionaria os 75 minutos de desfile da 'Deusa da Passarela'.

E é um samba aquém do que se imaginava para se falar de sete décadas "do Beija-Flor", como diz o título do enredo e como disse Neguinho da Beija-Flor ao abrir o samba de 1976 com um "Olha o Beija-Flor aí, meu povo". Logo na primeira estrofe, já fala em humildade - algo que falta não só à escola como aos seus próprios componentes - que são fieis xiitas e apaixonados, justiça seja feita. Foi até pelo chão e pela comunidade que venceram - injustamente - o desfile de 2018. 

Como letra, não gosto. Acho fraco. Um dos piores da safra. Poderia ser bem mais descritivo das histórias e tradições da Beija-Flor.

IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE
Enredo: Me dá um dinheiro aí!
Carnavalescos: Mário Monteiro e Kaká Monteiro
Compositores: Elymar Santos, Márcio Pessi, Jorge Arthur, Maninho do Ponto, Júlio Alves e Dudu Miller
Intérprete: Arthur Franco

Era uma vez uma sinopse terrível, cortesia de uma ideia de enredo desproposital para as tradições da Imperatriz Leopoldinense, que gerou uma eliminatória e uma safra abaixo da crítica e um samba apontado como um dos piores do ano pelos críticos e eu, gresilense fanático, torci muito o nariz. 

Quando você olha a letra de um samba que tem entre seus compositores alguns dos campeões de 2018 e nada mais nada menos que Elymar Santos, um apaixonado pela GRESIL, você até pode pensar... 'eles podiam ter feito melhor'. Sim, sem dúvida, se a sinopse tivesse ajudado.

Mas o Carnaval nos traz coisas que só o imaginário popular pode nos proporcionar. Fui alertado de que o bicho poderia não ser tão feio quanto se imaginava. E eu imaginava a Rainha de Ramos como séria candidata ao rebaixamento.

Só que muitos outros sambas trash como este da Imperatriz (não tão pior quanto a nefasta obra de 1988 e o ridículo samba do Bacalhau, registre-se) tornam-se audíveis, palatáveis e até gostosos de ouvir - depois que você se acostuma com ele e o teu viés de avaliação muda. 

Pela galhofa, pela sacanagem do refrão dúbio no meio ("Troca troca ê... na beira da praia")... afinal, Carnaval não é alegria e galhofa? Pois a Imperatriz vem diferente, muito diferente de suas tradições.

E eu vi uma Imperatriz animada, alegre, feliz e descompromissada no ensaio do último sábado. Não só com um samba na ponta da língua, como a bateria está espetacular. A Swing da Leopoldina chega ao desfile em forma absurda. Mestre Lolo está de parabéns com o trabalho de reconstrução de um ponto crucial de um desfile, na parte melódica e de harmonia musical. Se fizer o dever de casa, sai com quatro notas máximas.

UNIDOS DA TIJUCA
Enredo: Cada macaco no seu galho. Ó meu pai, me dê o pão que eu não morro de fome!
Carnavalesco: Comissão de Carnaval (Laíla, Fransérgio, Annik Salmon, Hélcio Paim e Marcus Paulo)
Compositores: Márcio André, Júlio Alves, Daniel Katar, Diego Moura, Dr. Jairo, Nêgo, Elias Lopes e Júnior Trindade
Intérprete: Wantuir

Mais um grande samba da safra 2019. Fruto da vinda de Laíla para a escola do Borel, quase quatro décadas após sua primeira passagem pela agremiação. E uma obra que emula - demais - muitos dos sambas ouvidos e depois vistos na avenida apresentados pela Beija-Flor. Foi a impressão que tive na primeira audição - e muitas outras me fizeram ter essa certeza.

É um samba denso, de melodia pesada, mas que eu adoro. Acho emocionante, bonito - do início ao fim - e com uma belíssima melodia. Depois de toda a polêmica da virada de mesa de 2017 e do resultado digno do ano passado (7º lugar), a Unidos da Tijuca vem com toda a força para brigar pelo título.

Outro destaque é o retorno do ótimo Wantuir ao carro de som da escola e o intérprete foi muito bem na gravação da obra tijucana, que tem entre seus compositores o excepcional cantor Nêgo, irmão de Neguinho da Beija-Flor.

SÃO CLEMENTE
Enredo: E o samba sambou
Carnavalesco: Jorge Silveira
Compositores: Mais Velho, Helinho 107, Nino, Chocolate e Alceu Maia
Intérpretes: Leozinho Nunes e Bruno Ribas

Única a apostar numa reedição para a safra de 2019 do Grupo Especial, a São Clemente luta pela permanência na elite do Carnaval carioca tendo na obra de 1990 o seu grande trunfo.

Na época, com o título "E o samba sambou...?" do enredo, a nação clementiana pisou forte na Marquês de Sapucaí e o samba assinado por Mais Velho, Helinho 107, Chocolate, Nino e o grande cavaquinista e arranjador Alceu Maia, pegou na veia. Surpreendeu pela crítica ácida e absolutamente pertinente à estrutura de carnaval que tínhamos - o Império já fizera o mesmo em 1982 - e ainda temos. 

Muito embora pareça uma crítica datada para uns, para outros - e para mim - continua soando como algo pertinente. Resta ver se o carnavalesco Jorge Silveira dará o seu recado na concepção da proposta. O samba é imortal. Pra mim, um dos melhores da história da São Clemente, que precisa trazer de volta à avenida o seu status quo de escola irreverente, ousada e crítica, que tanto faz falta à festa.

UNIDOS DE VILA ISABEL
Enredo: Em nome do pai, do filho e dos Santos, a Vila canta a cidade de Pedro
Carnavalesco: Edson Pereira
Compositores: Evandro Bocão, André Diniz, Professor Wladimir, Marcelo Valência, Júlio Alves, Deco Augusto e Ivan Ribeiro
Intérprete: Tinga

Enredo CEP que o Povo do Samba traz para 2019 exaltando Petrópolis, com um samba apenas de razoável para bom. E olha que estamos falando de uma obra que é assinada por craques como André Diniz e Evandro Bocão - que acabou mexida desde as eliminatórias e a final e piorou depois das modificações.

Mas cabe esperar pelo trabalho de barracão que será feito pelo excelente Edson Pereira, que já mostrou seu valor em carnavais muito bons no Grupo de Acesso (Série A) e já trabalhou como assistente de Alexandre Louzada na Mocidade. Com uma estrutura hoje sólida financeiramente, a Vila está tranquila no que diz respeito à sua estrutura de desfile - tanto que até trouxe de volta o intérprete Tinga, que defendia a Unidos da Tijuca. 

A bateria Swingueira de Noel, agora sob o comando de Macaco Branco, após a polêmica passagem de Chuvisco pela azul e branco, parece também retomar a velha forma. A conferir no desfile principal.

PORTELA
Enredo: Na Madureira moderníssima, hei sempre de ouvir cantar uma sabiá
Carnavalesca: Rosa Magalhães
Compositores: Jorge do Batuke, Waltinho Botafogo, Rogério Lobo, Beto Aquino, Claudinho Oliveira, José Carlos, Zé Miranda, D' Sousa e Araguaci
Intérprete: Gilsinho

Clara Nunes finalmente é enredo da escola do coração, que a abraçou quando começou a decolar na carreira, no início dos anos 1970. Trinta e seis anos depois da morte de uma das maiores cantoras que este país teve a oportunidade de conhecer, a "Sabiá" será cantada pela Portela com toda devoção e emoção no Carnaval de 2019.

Tenho certeza que os portelenses sentem cheiro de gol e a chance é grande, naquele que pode ser o último carnaval de Rosa Magalhães na Marquês de Sapucaí (aliás, independentemente de título ou não, a artista está fora da escola em 2020).  O samba de Jorge do Batuke e parceiros ganhou a quadra desde as primeiras eliminatórias e era a chamada "pule de 10", não tinha como perder e não perdeu na final.

Ouvi o samba pela primeira vez após a vitória, cantado por Zé Paulo Sierra no Baródromo - e eu adorei a entonação do refrão ao fim da segunda (parte), que lembrava o jeito que Clara Nunes cantava o samba "Guerreira" ("Sou a mineira guerreira, filha de Ogum com Iansã..."). Na voz do intérprete oficial, Gilsinho, o tom adotado foi mais de emoção, mais pra cima. Faz parte...

E é um samba que tem como característica a descrição em primeira pessoa, e que é a cara da Portela, como "Xangô" é a cara do Salgueiro - embora eu saiba que muitos torçam o nariz pra ele. Paciência... 

Eu sou suspeito: amo de paixão a cantora Clara Nunes e minha mãe é portelense. Na falta de chances da Imperatriz, torço pelo título da Portela.

UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR
Enredo: A peleja poética entre Rachel e Alencar no avarandado do céu
Carnavalesco: Severo Luzardo
Compositores: Myngal, Marcelão da Ilha, Roger Linhares, Marinho, Cap. Barreto, Eli Doutor, Fernando Nicola e Marco Moreno
Intérprete: Ito Melodia

Muitos são críticos ao samba da União da Ilha, apontando-o disparadamente como o pior entre os inéditos, descontando o samba que não é samba do Império Serrano (acho os de Grande Rio e Beija-Flor ainda piores). Outros apontam o dedo para as escolhas da própria agremiação, que muitos dizem não saber mais escolher direito suas obras que vão para a avenida.

E num ano difícil e com alguns excelentes sambas, realmente a Ilha foi aquém de suas possibilidades. A proposta de enredo do carnavalesco Severo Luzardo é muito boa - e é um achado homenagear o Ceará puxando pelo lado poético e cultural, falando em Rachel de Queiroz e José de Alencar, ícones do estado nordestino. Mas... não foi brindado infelizmente com um grande samba.

Só que a Ilha tão criticada surpreendeu positivamente ao escriba aqui no ensaio técnico. Vi uma escola cantando forte o samba, que treinou animada e com uma bateria simplesmente espetacular. A Baterilha fez um belíssimo trabalho e está de parabéns. Mas notei também uma queda nos setores finais, que até pode ser encarada como natural - mas que pode ser um complicador para quem é apontada como uma das possíveis candidatas a rebaixamento.

PARAÍSO DO TUIUTI
Entedo: O Salvador da Pátria
Carnavalesco: Jack Vasconcelos
Compositores: Cláudio Russo, Moacyr Luz, Aníbal, Zezé e Jurandir
Intérpretes: Celsinho Mody e Grazzi Brasil

Disposta a mostrar que o vice-campeonato do Grupo Especial no ano passado, após um desfile tão emocionante quanto sensacional e surpreendente, a Paraíso do Tuiuti quer pisar na avenida para mais uma vez dar o seu recado na Sapucaí.

Novamente Jack Vasconcelos propõe um enredo panfletário com obra encomendada e assinada por Cláudio Russo e Moacyr Luz. Não chega a ter o mesmo brilhantismo do samba de 2018, mas é igualmente excelente, empolgante, pega na veia e pelo visto o Tuiuti vem de novo meter o dedo em feridas que insistem em se manter abertas.

E eu vejo um ponto muito positivo no crescimento da escola de São Cristóvão, que é a afirmação da excelente cantora Grazzi Brasil como intérprete de avenida e de Celsinho Mody. Foi um achado a permanência de ambos em detrimento do discutível Nino do Milênio - e há quem diga que um dia a Grazzi vai ser intérprete principal sozinha. Será?

O que muito se discute do enredo e do samba é que o Bode Ioiô, eleito vereador em 1922 no Ceará e chamado de "O Salvador da Pátria" seja uma metáfora para se citar o ex-presidente Lula, do mesmo modo que a novela global que teve Lima Duarte interpretando o inesquecível boia-fria Sassá Mutema, foi apontada como panfletária e pró-Lula às vésperas da eleição presidencial de 1989. 

Críticas e alusões a parte, temos tudo para assistir a mais um grande desfile do Tuiuti.

ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA
Enredo: Histórias para ninar gente grande
Carnavalesco: Leandro Vieira
Compositores: Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Márcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino
Intérprete: Marquinho Art'Samba

Leandro Vieira é um gênio do Carnaval do Rio de Janeiro. Quem presta atenção em suas propostas recentes de enredo já teve a dimensão exata do que ele tem feito em termos de trabalhos estéticos, alegóricos e, principalmente, de propor discussões.

O que o enredo da Mangueira nos traz para 2019 é a desconstrução de alguns mitos da história do país. Virando os livros pelo avesso, o Leandro nos aponta os reais heróis e heroínas de um país tão carente e que, cultural, política e sociologicamente, passa por um dos períodos mais nefastos dos últimos tempos.

O samba composto por Deivid Domênico e parceiros é uma porrada. Me emocionou de saída na gravação da demo com a doce menina Cacá, que estava (ou está, já que não assisto) no The Voice Kids, da RGT ao lado do Wantuir. Já era dentre as obras que concorriam nas 14 escolas do Especial, a mais falada e comentada. Ganhou a disputa e caiu no gosto dos bambas. No Baródromo, a cada vez que é executado pelo Grupo Arquibancada, é urrado por todos os presentes na casa sediada na Lapa.

Enfim... se os sambas-enredo tivessem a mesma penetração midiática que já tiveram nos anos 1980 - e a própria LIESA tem culpa no cartório, assim como as próprias escolas - a Mangueira seria pule de dez entre as mais ouvidas não só no Rio como no Brasil inteiro.

O Carnaval precisa de mais cabeças como a de Leandro Vieira. Precisa de mais sambas como o da Mangueira. Pra nos fazer acordar e ver que os livros de história nem sempre apontam a verdade e muito menos nos dizem quem foram aqueles que lutaram para que o Brasil existisse. Que nesse período de trevas, a Velha Manga nos traga luz, nos emocione e nos faça crer que o samba ainda pulsa nas nossas veias como um instrumento de protesto e comoção social.

MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL
Enredo: Eu sou o tempo. Tempo é vida
Carnavalesco: Alexandre Louzada
Compositores: Jefinho Rodrigues, Diego Nicolau, Marquinho Índio, Jonas Marques, Richard Valença, Roni Pit Stop, Orlando Ambrosio, Cabeça do Ajax
Intérprete: Wander Pires

Elza Soares, que será enredo da verde e branco de Padre Miguel em 2020, com seu timbre característico, apesar dos seus 88 anos vividos e sofridos, abre a faixa da última escola que desfilará na Sapucaí em 2019, fechando o Grupo Especial. É um bonito samba o eleito pela Mocidade, composto por Jefinho Rodrigues e parceiros. Mas confesso que gosto muito mais dos dois últimos, em especial o do título dividido de forma polêmica com a Portela ano retrasado.

A agremiação da Zona Oeste renasceu após tempos difíceis, flertando com o Grupo de Acesso, e parece disposta a repetir os bons carnavais dos últimos dois anos. Mas a Mocidade esbarra num problema: se a Mangueira for o rolo compressor que se aguarda, a tendência é que a expectativa pelo carnaval que será mais uma vez concebido por Alexandre Louzada, pode diminuir assim como a presença de público na Sapucaí.

Só que a escola tem, além de um belo samba, um dos cinco melhores do ano - no meu gosto pessoal - quesitos capazes de fazê-la brigar lá na frente. Se a bateria "Não existe mais quente" for bem julgada e os responsáveis pelas notas estiverem de bom humor, só na parte relativa à música, a chance é grande de 80 pontos. Aí temos que ver como vem a parte estética e a Mocidade era uma das escolas mais atrasadas de barracão. Mas Louzada garante que tudo estará pronto a contento e acho que veremos um belo espetáculo de encerramento do desfile deste ano.














terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Carnaval 2014 - os sambas do Grupo Especial

Maior campeã do carnaval do Rio de Janeiro com 21 títulos, a Portela busca sair de uma longa "fila" com o melhor dos 12 sambas do Grupo Especial no ano de 2014

Como eu prometera no post anterior, agora chegou a vez dos pitacos sobre os sambas do Grupo Especial. Repito que esta é uma análise despretensiosa, coisa de quem gosta de samba e acha que pode dar opinião sobre a safra de 2014. Longe de mim querer parecer gato-mestre da matéria, mas acompanho carnaval há uns bons 30 anos, então creio que possa discorrer sobre o tema sem nenhum problema.

Para começar, vou meter o pé na porta: o que é a gravação dos sambas deste ano? Apresentar explanações dos carnavalescos sobre cada um dos doze enredos? O que o ouvinte quer é SAMBA, música pura e simplesmente. Dessa vez, o sr. Laíla, de quem já não tenho muita simpatia por meter o bedelho dele em tudo e ainda por cima se achar o todo poderoso da Beija-Flor, se superou no nonsense. Não tenho curtido também o formato de gravação ao vivo, adotado novamente desde 2011. Enfim, questão de gosto.

Nenhum dos 12 sambas das principais escolas do carnaval do Rio de Janeiro está alçado à categoria de obra-prima, mas é certo que alguns se sobressaem, enquanto outros elevam o nível da categoria dos bois com abóbora, algo que nunca é esperado de grandes escolas, mas por vezes isso acaba acontecendo.

Vamos então aos comentários, por ordem de apresentação na avenida, como feito na análise dos sambas da Série A.

Império da Tijuca
Enredo: "Batuk"
Compositores: Márcio André, Rono Maia, Karine Santos, Tatá, Vaguinho e Alexandre Alegria
Intérprete: Pixulé

Campeã da Série A em 2013, a agremiação do morro da Formiga volta ao Grupo Especial após 18 anos e com um grande samba. A parceria de Márcio André acertou na mosca e o que eles nos trazem é um refrão de cabeça poderoso - Vai tremer... o chão vai tremer... é nó na madeira, segura que eu quero ver... - e uma obra bastante adequada ao enredo proposto pelo carnavalesco Júnior Pernambucano, que faz sua estreia no grande desfile. Outro grande achado é a escola se intitular "o primeiro império do samba", o que não deixa de ser verdade, pois o Imperinho veio em 1940 e o Império Serrano surgiu em 1947. Se a escola fizer tudo direitinho e os jurados não canetarem esse samba-enredo, as chances de permanência no Grupo Especial são boas. Mais uma estreia merece destaque: a do intérprete Pixulé, que com "muita habilidade" conduz a gravação, onde foi mudado o tom na frase "Lua... clareia na aldeia... celebração... é dom de comunicação". Nada comprometedor, pelo contrário. Nota 9,8

Acadêmicos do Grande Rio
Enredo: "Verdes olhos de Maysa sobre o mar, no caminho: Maricá"
Compositores: Deré, Robson Moratelli, Rafael Ribeiro, Hugo da Grande Rio e Toni Vietnã
Intérprete: Emerson Dias

Enredo CEP, como já se sabe e alusivo aos 200 anos de Maricá, com uma resvalada na cantora Maysa, para dar um pouco mais de credibilidade à escolha, já que a intérprete dos olhos que na definição de Manuel Bandeira eram "dois oceanos não-pacíficos", morou na cidade até o fim de sua vida em 1977. Não tenho a menor simpatia pela agremiação de Duque de Caxias pelo viés midiático que lhe é dado. Tenho enorme restrição a enredos do gênero porque eles apelam para os inevitáveis clichês na construção de uma letra de samba-enredo. E para piorar, o andamento da bateria comandada por Mestre Ciça é excessivamente acelerado, beirando a marcha. Apesar dos pesares, o samba não é dos mais terríveis do ano, embora seu refrão principal seja bem fraquinho se comparado ao da Império da Tijuca - aliás, é covardia a comparação. Emerson Dias, que conduz a gravação sozinho, esteve bem e seguro. Nota 9,1

São Clemente
Enredo: "Favela"
Compositores: Ricardo Góes, Serginho Machado, Grey, Anderson, FM e Flavinho Segal
Intérprete: Igor Sorriso

A agremiação de Botafogo aposta, como algumas outras coirmãs têm feito depois da aposta bem-sucedida da Portela, num samba com estrutura de três refrões. Eu estive numa das eliminatórias e para o meu gosto, havia obras melhores que a escolhida para representar a São Clemente em 2014. Mas a letra é bem construída e não compromete no resultado final. O intérprete Igor Sorriso foi apenas correto - nos dois últimos anos, especialmente em 2012, ele deu um show nas gravações. Nota 9,2

Estação Primeira de Mangueira
Enredo: "A festança brasileira cai no samba da Mangueira"
Compositores: Lequinho, Júnior Fionda, Paulinho Carvalho e Igor Leal
Intérprete: Luizito

E não é que a Mangueira vem para o carnaval de 2014 despida da antipatia que vinha conquistando nos últimos carnavais? Nada de "a maior escola do samba do planeta" e nada de "É surdo um, mané!". A verde e rosa de Cartola e Carlos Cachaça retoma suas tradições e rebatiza a lendária bateria com o lema de sempre - "Tem que respeitar meu tamborim". Foram condições impostas pelo presidente Chiquinho da Mangueira e o intérprete Luizito, que vinha com o alusivo ao qual me referi primeiro, seguiu à risca as ordens do 'chefe'. E ele brinda o ouvinte com uma interpretação fabulosa de um dos melhores sambas do ano, cortesia da parceria de Lequinho, Júnior Fionda e Igor Leal, já campeã noutros anos. O refrão de cabeça é ligeiramente duvidoso com o "Oba Oba... eu quero ver quem vai...", mas não compromete o restante da obra. Nota 9,7

Acadêmicos do Salgueiro
Enredo: "Gaia, a vida em nossas mãos"
Compositores: Xande de Pilares, Dudu Botelho, Miudinho, Betinho de Pilares, Rodrigo Raposo e Jassa
Intérpretes: Quinho, Leonardo Bessa, Xande de Pilares e Serginho do Porto

Lá vem o Salgueiro com seus exageros de sempre. Quatro intérpretes e um samba que os bambas qualificam como um dos melhores do ano - mas será que só sou eu que não gosto dele? À primeira audição, não me pegou e mesmo tendo escutado bem mais do que uma vez, continua não me agradando. O clichê "Caô, meu pai, Xangô" eu já ouvi zilionésimas vezes noutras obras e noutros carnavais, alguns bem recentes. Que pena, Salgueiro... seu samba não tocou meu coração. Nota 9,4

Beija-Flor de Nilópolis
Enredo: "O astro iluminado da comunicação brasileira"
Compositores: Sidney de Pilares, JR Beija-Flor, Júnior Trindade, Zé Carlos, Adílson Brandão e Diogo Rosa
Intérprete: Neguinho da Beija-Flor

Um dos grandes desastres de 2014. O pior samba da Beija-Flor desde os seus dois infames enredos de exaltação ao governo militar nos anos 70. Também pudera: fruto de uma escolha absolutamente infeliz de enredo, ao homenagear o ex-vice-presidente de operações da Rede Globo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, como mote para falar da comunicação do Brasil, só podia sair um samba tenebroso como este apresentado pela agremiação de Nilópolis. Um autêntico boi com abóbora que nem Laíla conseguiu salvar. Começaram muito mal quando o samba foi apresentado. Havia um "A campeã voltou" que logo foi descartado pelo diretor de carnaval porque podia soar mal para a BF - como se a própria fama da agremiação já não contribuísse para isso. Ao mexer na letra, Laíla piorou ainda mais a obra, como se ainda fosse possível. O refrão do meio é horroroso. Alguém gostou desse negócio de "Um lado a comunicar, o outro comunicou"? E o tal do "que babado é esse, de samba no pé"? Meu Deus... nem nos meus piores pensamentos podia imaginar a Beija-Flor apelando para um samba tão ruim. Enfim, gosto não se discute. Lamenta-se. Os componentes vão cantar com a fúria costumeira e vão achar tudo lindo, tudo ótimo, como sempre acham. Tomara que os jurados não se deixem levar pelo peso do enredo e coloquem a Beija-Flor fora do desfile das campeãs, que é o que ela merece. Nota 8,5

Mocidade Independente de Padre Miguel
Enredo: "Pernambucópolis"
Compositores: Dudu Nobre, Jefinho Rodrigues, Marquinho Índio, Jorginho Medeiros, Gabriel Teixeira e Diego Nicolau
Intérprete: Bruno Ribas (participação especial Dudu Nobre)

Sambão! Se a Mocidade Independente de Padre Miguel precisava de algo para recuperar a auto-estima dos seus componentes, eis uma obra à altura das tradições da agremiação verde-e-branco. A homenagem a um dos grandes nomes da escola, o carnavalesco Fernando Pinto, autor de enredos lendários como "Ziriguidum 2001" e "Tupinicópolis", emociona. O samba é uma delícia de se ouvir, com belíssima melodia e ótima interpretação de Bruno Ribas - contratado em cima da hora para o lugar de Luizinho Andanças - e com uma forcinha de um dos compositores, Dudu Nobre. Faz tempo que a turma da Zona Oeste não vinha tão bem em termos de samba como agora em 2014. O problema é que a escola segue envolta com os velhos problemas de sempre: a indefinição política, resolvida há dias com a renúncia de Paulo Vianna na presidência, o atraso no barracão e demais imbróglios envolvendo até a troca da Rainha de Bateria. Que nada abale o desfile da Mocidade. Nota 9,8

União da Ilha do Governador
Enredo: "É brinquedo, é brincadeira! A Ilha vai levantar poeira!"
Compositores: Paulo George, Gabriel Fraga, Carlinhos Fuzil, Régis, Canindé e Flávio Pires
Intérprete: Ito Melodia

A segunda escola de quase todo mundo que gosta de carnaval no Rio de Janeiro vem com um bom samba para o desfile do Grupo Especial de 2014, para apagar a frustração dos insulanos com a obra apresentada ano passado na homenagem a Vinícius de Moraes. A tricolor da Ilha do Governador traz um enredo à altura da alegria que a agremiação tem como característica na maioria absoluta de seus desfiles. O único senão de um samba que tem uma boa melodia e boas sacadas como no refrão do meio é que falta o chamado "algo mais". Nada que comprometa o trabalho de Carlinhos Fuzil e parceiros. Ito Melodia, filho do saudoso Aroldo Melodia, conduz a gravação com segurança e animação. Nota 9,5

Unidos de Vila Isabel
Enredo: "Retratos de um Brasil plural"
Compositores: Evandro Bocão, Arlindo Cruz, André Diniz, Professor Wladimir e Artur das Ferragens
Intérprete: Gilsinho

Campeã incontestável de 2013 com um samba que estava furos acima do resto, desta vez a Vila Isabel não tem uma obra-prima à altura do ano passado para lutar pelo bicampeonato, embora mais uma vez estejam entre seus autores o mala e onipresente Arlindo Cruz e também André Diniz, no que já é lugar comum em matéria de disputa na terra de Noel Rosa. Melodicamente, é uma obra que lembra em alguns momentos o samba do ano passado, mas não passa disso. A letra é menos inspirada, embora seja um bom samba - mesmo apelando para referências batidas como o canto do uirapuru e a lenda do negrinho do pastoreio. A Vila ganhou com a vinda de Gilsinho, que deixou a Portela. O intérprete saiu-se muito bem na gravação. Nota 9,5

Imperatriz Leopoldinense
Enredo: "Arthur X - o reino do Galinho de Ouro na corte da Imperatriz"
Compositores: Elymar Santos, Me Leva, Guga, Gil Branco e Tião Pinheiro
Intérprete: Wander Pires

Mais uma tentativa de trazer o futebol ao carnaval: a Imperatriz Leopoldinense faz uma aposta duvidosa num enredo sobre Zico (que faz 60 anos exatamente no dia do desfile, 3 de março) para angariar a simpatia da torcida flamenga para a agremiação de Ramos, sempre espiaçada pelos bambas e tida como uma escola "fria" e "certinha". Coisa de quem, convenhamos, não entende do riscado porque já vimos a Imperatriz levantar a avenida, como aconteceu em 1980/81, em outros dois anos em que não foi campeã - 82/83 - e em 1989, no ano em que derrotou o luxo do lixo da Beija-Flor de Joãozinho Trinta. Mas isso não vem ao caso, agora. Voltemos à aposta duvidosa: afirmo isso me baseando no que aconteceu com a Estácio de Sá em 1995 (100 anos do Flamengo), com a Unidos da Tijuca em 1998 (100 anos do Vasco) e com a Acadêmicos da Rocinha (100 anos do Fluminense). Foram enredos que não deram em nada ou em rebaixamento - caso da agremiação do Borel. E que fique claro: desde o início, achei a proposta de enredo equivocada, sendo que eu sou torcedor doente da Imperatriz. E com imenso pesar, não vou torcer pela minha escola do coração pela primeira vez nos últimos 34 anos. O samba também não é grande coisa. Na gravação, ficou sem explosão nenhuma, embora o refrão de cabeça seja pura apelação para fazer a galera levantar na arquibancada. E para o meu gosto, havia coisa melhor na disputa: o samba defendido por Wantuir e Preto Jóia na gravação e assinado por Zé Catimba (há quem diga que era de André Diniz, que não pode pôr o nome na parceria, por já estar na Vila) era mais melódico do que a obra que vai para a avenida. Só posso dizer uma coisa: em 2015 volto a torcer, a menos que se escolha outro enredo ridículo. Nota 9,2

Portela
Enredo: "Um Rio de mar a mar: do Valongo à glória de São Sebastião"
Compositores: Toninho Nascimento, Luiz Carlos Máximo, Waguinho, Edson Alves e J. Amaral
Intérprete: Wantuir

Mais um grande samba da parceria de Luiz Carlos Máximo, o que tem sido normal nos últimos três anos. A Portela segue sua aposta em obras com três refrões, mantendo o padrão que encantou os bambas e também os jurados, que premiaram a agremiação de Oswaldo Cruz com cinco notas máximas em 2012 e 2013. Samba delicioso de ouvir, cheio de bossa, ginga e malandragem, digno de fazer o Rio circular de terno de linho e chapéu panamá, feito malandro da Lapa. A estreia de Wantuir é em grande estilo. Foi uma excelente aquisição para o microfone da azul e branco no lugar de Gilsinho, que foi para a Vila. É a melhor das 12 obras do Grupo Especial neste ano. Nota 9,9

Unidos da Tijuca
Enredo: "Acelera, Tijuca!"
Compositores: Gustavinho Oliveira, Fadico, Caio Alves e Rafael dos Santos
Intérprete: Tinga

A viagem do carnavalesco Paulo Barros sobre o tema Ayrton Senna, cuja morte completa 20 anos em 2014 nos traz o outro boi com abóbora do carnaval deste ano no Grupo Especial. E não é porque sou fã declarado do outro tricampeão de Fórmula 1, Nelson Piquet, que critico duramente a obra da agremiação do morro do Borel. É porque o samba é ruim. No primeiro refrão já pega pesado com dois dos grandes rivais de Ayrton - Alain Prost e Michael Schumacher. Tem quem ache que não, mas um refrão que diz "Tentando trapacear, deu mole, rodou na pista... ficou para trás o Vigarista", sendo que Schumacher era jocosamente chamado de Dick Vigarista pela imprensa brasileira e o Prost rodou na volta de apresentação do GP de San Marino de 1991, fica bastante claro quem são os vilões da história, não é mesmo? E o final do segundo refrão, que tinha "Ayrton Senna do Borel" foi trocado para "Ayrton Senna do Brasil", com certeza para fazer um ligeiro afago no ego de Galvão Bueno. E sobre o samba, a escolha foi infeliz: havia, sem nenhuma dúvida, pelo menos uma obra melhor do que esta, assinada pela parceria de Luiz Thiago e Diego do Carmo. Nota 8,7

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Carnaval 2012 - pitacos sobre o CD do Grupo Especial

Gosto de carnaval. Muito. A culpa, claro, é paterna. Nos anos 70, todo início de ano, todo fim de semana, lá vinham os discos com as feéricas capas da Top Tape ocupar a vitrola. Claro que eu, pequeno, não sabia patavina das letras, mas não resistia a chamar minha mãe, portelense roxa, de "nega fulô", quando ouvia 'Memórias poéticas de Jorge de Lima', samba da Estação Primeira de Mangueira do ano de 1975. E olha que de "nega fulô", minha mãe não tem nada.

O tempo passou, os discos de samba-enredo foram embora quando meu pai saiu de casa, mas a empolgação pelo carnaval, os sambas e os desfiles não feneceu. Pelo contrário, só cresceu. Com o passar dos anos, me interessei mais e mais pelo carnaval e a história dos desfiles, a ponto de passar tardes inteiras na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro lendo apaixonadamente a cobertura dos carnavais mais antigos, folheando edições de O Globo caindo aos pedaços.

A partir de 1981, com o coração conquistado pela Imperatriz Leopoldinense de forma definitiva, tornei-me um torcedor alucinado da agremiação de Ramos, bairro onde passei quase três décadas da minha vida. Essa paixão nunca me impediu, contudo, de elogiar a performance de outras escolas na avenida nem como deixar de admirar grandes sambas que tomaram conta da Marquês de Sapucaí.

Vejo que 2012 está marcado por um ano com sambas muito acima da média do que vínhamos ouvindo neste começo de século XXI. Se por vezes uma obra se salvava em meio à mediocridade e, por vezes, nenhuma era digna de registro, para o carnaval do ano que vem temos uma autêntica obra-prima, um samba que tinha tudo para sê-lo (mas não foi) e outros dois ou três muito bons. Infelizmente, não nos livramos dos chamados "bois com abóbora" nesta safra.

Proponho aqui minha humilde avaliação, ressaltando, mais uma vez: não sou especialista, não sou um crítico. Apenas um admirador desta festa que, por uma semana, iguala pobres e ricos numa só paixão.

Beija-Flor de Nilópolis - Vou entrar de sola numa questão polêmica acerca do samba da Beija-Flor. A junção proposta entre as duas obras finalistas "matou" uma possível obra-prima do carnaval de 2012. No meu entender, o samba da parceria de Samir Trindade, com seu excepcional refrão "Meu São Luís do Maranhão... poema encantado de amor... onde canta o sabiá... hoje canta a Beija-Flor" era de letra e melodia superior à composição de J. Velloso e parceiros, da qual aproveitou-se a segunda parte e o refrão do meio. Não é um samba ruim, muito longe disso. Mas a decisão da junção fez a Beija-Flor dar em si mesma um "tiro no pé". Perderam a chance de figurar como uma das melhores obras do carnaval por conta disso. Nota 9,6

Unidos da Tijuca - A agremiação do Borel também não foi feliz na escolha do seu samba-enredo para 2012. Tem alusões muito bem sacadas a Luiz Gonzaga, o "Rei do Baião" homenageado pela escola vice-campeã do ano passado, mas o samba não chega a empolgar. A melodia é apenas correta. Bruno Ribas gravou o samba muito bem, só que na gravação, o tom da voz do intérprete ficou mais alto do que deveria - o que pode dificultar o canto dos componentes na hora do desfile. Passando ao largo da comparação com o espetacular samba "Lua Viajante", enredo da Unidos de Lucas de 1982, esta homenagem a Gonzagão ficou devendo um pouquinho. Nota 9,5

Estação Primeira de Mangueira - A homenagem ao Cacique de Ramos é mais uma sacada inteligente de Ivo Meirelles após o desfile deste ano, com um enredo alusivo ao baluarte da verde-e-rosa Nelson Cavaquinho. Mas alguma coisa ficou estranha na gravação do samba de 2012: justamente a primeira 'passada', aquela em que o ouvinte tem que ser cativado pela voz do intérprete, é uma reunião de 'bambas' que, se soou inovadora pela proposta, por outro lado tornou-a estranha pelo desnível de vozes como as de Beth Carvalho e Jorge Aragão, por exemplo. No mais, o samba é bom, com uma segunda parte irresistível, porém com dois pequenos problemas: citações desnecessárias à própria Mangueira (uma vez que o homenageado é o Cacique de Ramos) e o refrão, destoando do resto da obra pela pobreza. Nota 9,5

Unidos de Vila Isabel - Vira e mexe a azul e branco da terra de Noel Rosa nos brinda com grandes sambas. Este de 2012 não é exceção. A escolha de mais um enredo "africano" nos remete a Kizomba e outros tantos desfiles carregados de emoção que a Vila Isabel já nos proporcionou no carnaval carioca. E mais uma vez, a escola leva para a avenida um samba de André Diniz, o maior vencedor das disputas de samba-enredo do Rio de Janeiro. Uma obra belíssima, com dois refrões sensacionais - "Reina Ginga ê matamba vem ver a lua de Luanda nos guiar... Reina Ginga ê matamba negra de Zambi, sua terra é seu altar" e "Semba de lá, que eu sambo de cá... Já clareou o dia de paz... Vai ressoar o canto livre... Nos meus tambores, o sonho vive" - e uma linha melódica perfeita. Tinga cantou o samba à perfeição na gravação do disco. O problema é que, na avenida, o intérprete costuma apelar para os gritos, o que pode comprometer a escola no seu desfile. Nota 9,9

Acadêmicos do Salgueiro - Outro samba que foi praticamente unânime na final da agremiação vermelho e branco do Andaraí, o "Cordel Branco e Encarnado" se encaixa na proposta de enredo de Renato Lage, com um refrão muito bom, para cima, um dos melhores do carnaval: "Salgueiro é amor que mora no peito... Com todo respeito, o rei da folia... Eu sou o cordel branco e encarnado... "Danado" pra versar na Academia". Mas a impressão que fica no ar é que este mesmo samba não levou a fundo o lema da escola. "Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente". Num ano de grandes sambas, o do Salgueiro não pode ser comparado aos melhores, justamente porque faltou o 'diferente' que poderia virar as coisas a seu favor. No meu gosto, o samba que Wantuir defendia nas eliminatórias era melhor. Mas a obra de Marcelo Motta e parceiros caiu no gosto dos componentes. E para o Salgueiro é isso que importa. Nota 9,6

Imperatriz Leopoldinense - A "Rainha de Ramos" teve neste ano a disputa mais acirrada para a escolha do seu samba - muito mais do que em qualquer outra das 12 coirmãs, mostrando a excelência de sua Ala de Compositores, hoje provavelmente a melhor do carnaval do Rio de Janeiro. De princípio, simpatizei mais com os sambas das parcerias de Me Leva e cia. (vencedores das disputas para 2010 e 2011) e de Josimar e cia. (autores dos sambas dos carnavais de 2008 e 2009), por serem mais descritivos e mais condizentes com a homenagem a Jorge Amado em seu centenário. Mas, correndo por fora, ganhou corpo a obra de Jefferson Lima e parceiros, que de maneira até certo ponto surpreendente, venceu a disputa. É um samba criativo, de melodia eminentemente afro e de versos inspirados como os da segunda parte: "O vento soprou... As letras em liberdade... Joga a rede, pescador!... O povo tem sede de felicidade... A brisa a embalar... Histórias que falam de amor... Memórias sob o lume do luar... O doce perfume da flor", mas que peca pelos refrões, especialmente o chamado 'refrão de cabeça'. Não compromete, mas está abaixo por exemplo, de "Brasil de Todos os Deuses", esta sim uma obra-prima da Imperatriz neste século. Nota 9,8

Mocidade Independente de Padre Miguel - Não é implicância com a escola da Vila Vintém, mas honestamente não consegui ser atraído pelo samba que alude a Cândido Portinari, outro artista já homenageado em outras ocasiões nos desfiles das escolas de samba. Se ano passado a Imperatriz abusou do direito de pôr frases com a terminação "ar" - foram 25! - a parceria de Diego Nicolau, Gabriel Teixeira e Gustavo Soares apelou para um quarteto de "al" - real, mural, ideal e carnaval - no fim da segunda parte do samba, que tem uma linha melódica que também não é das melhores do ano. É uma obra acima da média do que a agremiação mostrou nos últimos anos, mas longe de ser excepcional. Nota 9,4

Unidos do Porto da Pedra - Não há como dizer que o samba da escola de São Gonçalo é o grande "boi com abóbora" de 2012. Também pudera: o enredo não ajuda na composição de um bom samba e a obra de Vadinho e parceiros cai na vala comum dos sambas que rapidamente serão esquecidos pelos bambas. Salvou-se a ótima performance de Wander Pires, que economizou nas firulas e mostrou que, quando quer, pode ser um excepcional cantor de samba-enredo. A bateria comandada por mestre Thiago Diogo também foi um ponto positivo na gravação do pior samba do ano. Nota 9,1

Unidos de São Clemente - Impossível não gostar do samba da agremiação de Botafogo, a única da Zona Sul do Rio no Grupo Especial - embora sua quadra seja na Cidade Nova. O refrão, com seu "Tem bububu no bobobó" gruda no ouvido que nem chiclete e é o mais "alegre", "pra cima" de todo carnaval, marcando, quem sabe, a volta da irreverência da São Clemente perdida ao longo dos anos e que, grosso modo, remete também aos bons tempos da Caprichosos de Pilares. Embora o samba não tenha outros momentos de grande inspiração e trechos como "Puxa, aqui Paris é avenida" beirem a grosseria, a obra passa sem grandes problemas. A destacar a interpretação do jovem Igor Sorriso, uma das melhores de todo o disco. Nota 9,5

Acadêmicos do Grande Rio - Tanto falatório para uma grande decepção. É assim que considero o samba da agremiação tricolor da Baixada Fluminense, dado o que se aguardava do enredo de 2012, cujo mote é a superação. Nem de longe o samba é capaz de lembrar do que aconteceu à Grande Rio ano passado e aludir a outras histórias parecidas ou específicas do tema. Muito estranha, fora de contexto, é a citação ao Festival de Parintins, mesmo que de forma indireta, o que torna o samba ainda mais incompreensível para quem, como eu, esperava uma obra emocionante sem ser piegas. E isto, Edispuma e seus parceiros não conseguiram fazer. Talvez seja o pior samba da Grande Rio desde sua última volta ao Grupo Especial em 1994. Nota 9,3

Portela - Um samba com a cara da Portela. Comovente. Lindo. Extraordinariamente belo. Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Naldo estão de parabéns. Atingiram a altura da obra-prima num samba que merece ser o grande hit do carnaval de 2012. Sem deixar de olhar para o futuro, os compositores flertam com o passado, numa junção absolutamente feliz de tempo e espaço, trazendo para o nosso deleite um samba de três partes, com refrões emocionantes e que já fazem parte do panteão de trechos inesquecíveis do carnaval carioca. Madureira vai subir o Pelô! Nota 10

União da Ilha do Governador - A safra de sambas da União da Ilha para 2012 foi considerada pelos 'bambas' muito abaixo da média do que a escola poderia proporcionar. De fato, com um tema bastante interessante, aludindo aos Jogos Olímpicos de Londres puxando para a competição que será disputada no Rio em 2016 e ao fato de que a Grã-Bretanha é uma ilha feito a Ilha do Governador, os compositores desta vez não foram tão inspirados. A junção das obras das parcerias de Marquinho do Banjo e Aloísio Vilar, melodicamente, não foi ruim, mas o conjunto ficou confuso. Uma lástima para uma escola que angaria a simpatia de muitos dos que gostam de carnaval. Destaco o refrão de cabeça, que assim como o da São Clemente, gruda nos ouvidos feito chiclete. E Ito Melodia, mais uma vez foi muito bem na interpretação de um samba insulano. Nota 9,3

Renascer de Jacarepaguá - A caçula do Grupo Especial estreia em 2012 com um enredo homenageando o artista plástico Romero Britto e com um samba, no meu entender, apenas correto. A composição de Cláudio Russo e parceiros não consegue atingir o píncaro do que se espera de um samba. Não tem um refrão explosivo, não tem emoção, não tem 'pegada'. Apenas algunas sacadas inteligentes relativas ao homenageado se salvam numa obra meramente descritiva. Rogerinho Renascer não comprometeu na gravação, mas a escola buscou se socorrer de um nome de peso. Veio Nêgo, que durou pouco mais de uma semana na Renascer e já está no olho da rua. Só um milagre deverá manter a agremiação de Jacarepaguá no Grupo Especial em 2013. Nota 9,2