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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Carnaval 2019 - os sambas do Grupo de Acesso

Ano passado, a campeã do Grupo de Acesso foi a Unidos do Viradouro. Quem será a vencedora em 2019? A parada é difícil, pois há bons sambas. Mas o momento de crise pelo qual passa o carnaval pode refletir nos desfiles

Muito tempo depois da última atualização, o Saco de Gatos ressurge com uma postagem sobre Carnaval.

Pois é... muitos podem não gostar da folia momesca. Mas eu gosto. É uma das maiores manifestações de arte e cultura deste país. E muito embora venha sendo vilipendiada e maltratada, principalmente pela prefeitura neopentecostal do pífio Marcelo Crivella, a festa aqui no Rio de Janeiro ainda atrai turistas e visibilidade para a outrora Cidade Maravilhosa.

E em tempos onde o Carnaval e o samba-enredo como gênero musical estão de mal com o Brasil e com o povo do Rio de Janeiro, cada vez mais sectário, medíocre, bitolado e atrasado, o gênero agoniza, mas não morre.

A safra de 2019 no Grupo de Acesso (Série A) que desfila em dois dias, no início de março, nos traz enredos alentados, obras muito boas e uma reedição patrocinada pela volta da Unidos da Ponte à Marquês de Sapucaí.

Sem perda de tempo, seguem abaixo as 13 agremiações que vão lutar por uma vaga no Grupo Especial para o Carnaval de 2020, por ordem de apresentação na Marquês de Sapucaí - e não na ordem do CD mais uma vez produzido por Leonardo Bessa.

UNIDOS DA PONTE
Enredo: Oferendas
Carnavalescos: Guilherme Diniz e Rodrigo Marques
Compositor: Jorginho
Intérpretes: Lico Monteiro e Tiganá

Campeã do Grupo B em 2018 na Intendente Magalhães, a Unidos da Ponte aposta num dos grandes sambas de sua alentada safra dos anos 1980 para permanecer na Marquês de Sapucaí, onde chegou a figurar por muito tempo na Elite e no Grupo de Acesso. "Oferendas" foi a obra do desfile de 1984 onde, mesmo com a escola rebaixada ao então Grupo 1-B, o samba agradou por sua excepcional cadência na oportunidade.

Contudo, a gravação não está à altura do que se (ou)viu com Grilo na condução do samba de Jorginho. Por mais que Tiganá e Lico Monteiro se esforcem - com direito a um alusivo longuíssimo - a versão 2019 é menos inspirada do que a original, embora houvesse uma tentativa de deixar a obra o mais próxima possível em termos de cadência. Sobre o samba como um todo, não é necessária qualquer avaliação, já que é uma reedição. É nele em que a Ponte e a turma de São João de Meriti se agarra para permanecer mais um ano na Série A.

ALEGRIA DA ZONA SUL
Enredo: Saravá, Umbanda!
Carnavalesco: Marco Antônio Falleiros
Compositores: Márcio André, Neyzinho do Cavaco, Lopita 77, Ribeirinho, Elson Ramires, Beto Rocha, Telmo Augusto, Fábio Xavier, China, Girão e Samir Trindade
Intérprete: Igor Vianna

A agremiação que congrega as comunidades do Cantagalo e Pavão/Pavãozinho segue, apesar de algumas dificuldades, firme na Série A com boas posições nos últimos desfiles. A expectativa é que a Alegria da Zona Sul mantenha os mesmos objetivos, embora a obra para 2019 não tenha a mesma qualidade que o samba do último desfile, que rendeu à escola um bom 8º lugar.

O samba de Márcio André, Samir Trindade e cia., com direito à participação de integrantes de parcerias vencedoras noutras agremiações em carnavais passados, é apenas regular - há quem diga que animado demais para falar de Umbanda. Sobre a interpretação, sem comentários adicionais: Igor Vianna está muito à vontade na gravação da faixa.

ACADÊMICOS DA ROCINHA
Enredo: Bananas Para o Preconceito
Carnavalesco: Júnior Pernambucano
Compositores: Cláudio Russo, Diego Nicolau, Renato Galante, Kirrazinho, Ralf e Fadico
Intérprete: Ciganerey

Um tema sempre necessário e atual no Carnaval, o preconceito é abordado com muita propriedade na proposta de enredo de Júnior Pernambucano para o carnaval da Acadêmicos da Rocinha. Muito oportuno também, por conta de tudo o que vivemos e viveremos no futuro. Melhor pular essa parte para não entrar numa seara, digamos, nebulosa...

Apesar de bons momentos indiscutíveis, especialmente na primeira estrofe e no refrão principal, o samba de craques como Cláudio Russo e Diego Nicolau é bom - porém, um pouco distante de outros que considero superiores. Num primeiro momento, achava esse samba da Borboleta um dos melhores para o ano de 2019, mas a cada audição, mudei de opinião. Com o reforço de Ciganerey (um tanto quanto contido na gravação), dispensado pela Mangueira, no carro de som, veremos como a Rocinha se sairá neste carnaval.

ACADÊMICOS DE SANTA CRUZ
Enredo: Ruth de Souza - Senhora Liberdade, Abre as Asas Sobre Nós
Carnavalesco: Cahê Rodrigues
Compositores: Samir Trindade, Elson Ramirez e Júnior Fionda
Intérprete: Roninho (Participação Especial: Xande de Pilares)

A Santa Cruz não tinha enredo, não tinha samba, não tinha nada. Isso até o fim do primeiro semestre de 2018. Em agosto, veio o anúncio da chegada do carnavalesco Cahê Rodrigues, que sugeriu um enredo sobre a atriz Ruth de Souza, uma das primeiras negras a subir no palco do Teatro Municipal para a encenação de "Imperador Jones", de Eugene O'Neill, em 1945.

A carioca de 97 anos recebe da escola da Zona Oeste uma homenagem à altura de sua carreira. Aliás, para o meu conceito, o melhor samba do Grupo de Acesso - mesmo sendo encomendado à Samir Trindade, Elson Ramirez e Júnior Fionda, a toque de caixa.

De rica trajetória no teatro, cinema e televisão, a Dama Negra é homenageada com um samba de formato tradicional e de letra excepcional, com momentos emocionantes e uma referência ao enredo "Heróis da Resistência", apresentado pela agremiação nos anos 1990. Roninho divide a ótima gravação com Xande de Pilares, que acabou convidado pelo presidente Zezo para dar mais um 'molho' a um samba que tem tudo para acontecer na Sapucaí.

O problema é justamente este: a enorme expectativa se transformar em decepção, diante do histórico de más colocações nos recentes desfiles da escola.

UNIDOS DE PADRE MIGUEL
Enredo: Qualquer Semelhança Não Terá Sido Mera Coincidência
Carnavalesco: João Victor Araújo
Compositores: Jefinho Rodrigues, Igor Leal, Jonas Marques, Wagner Santos, Gulle, Eli Penteado, Roni Pit Stop e Ruth Labre
Intérprete: Pixulé

"Qualquer Semelhança Terá Sido Mera Coincidência": quem nunca, ao final das novelas da Rede Globo, nunca leu algo semelhante nos créditos finais da maioria dos folhetins apresentados pela referida emissora carioca por muito tempo?

Pois é... a Unidos de Padre Miguel, cansada de bater na trave nos últimos anos, aposta numa bem-sacada homenagem a Dias Gomes, para buscar o sonhado título rumo ao Grupo Especial em 2020. A agremiação da Vila Vintém tem um bom samba de Jefinho Rodrigues e parceiros para tentar superar as outras 12 escolas concorrentes - muito embora a melodia seja muito parecida com as obras dos últimos dois anos.

É preciso fazer justiça, principalmente, que a letra cita personagens e obras do dramaturgo baiano sem apelar a clichês e lugares-comuns, como o samba em que sua primeira mulher, Janete Clair, foi homenageada pelo Leão de Nova Iguaçu em 1992. E principalmente que a letra casou de forma perfeita com o momento atual vivido neste país. Basta prestar atenção na mensagem passada pelos compositores e pelo enredo.

Um samba forte, não tão à altura da obra-prima apresentada em 2017, mas que pode muito bem levar a UPM ao tão esperado "final feliz" do refrão.

INOCENTES DE BELFORD ROXO
Enredo: O Frasco do Bandoleiro (baseado num causo com a boca na botija)
Carnavalesco: Marcus Ferreira
Compositores: André Diniz e Cláudio Russo
Intérprete: Nino do Milênio

Este é uma incógnita entre os sambas da safra de 2019. Carrega a assinatura de André Diniz e Cláudio Russo, com a escola da Baixada Fluminense recorrendo a (mais uma) obra encomendada.

Mas apesar da grife, não gosto. Princpalmente por conta do intérprete. Nino do Milênio é muito, muito chato. Perdoem-me quem gosta do referido cantor, mas eu não consigo gostar. No Tuiuti, ano passado, foi simplesmente engolido no desfile principal pelos demais integrantes do carro de som. Logo após o Desfile das Campeãs, foi preterido por Grazzi Brasil e Celsinho Moddy.

E em seu retorno à escola, não consegue dar um destaque maior a um samba confuso, de melodia estranha. Se a Inocentes chegar perto do 4º lugar alcançado em 2018, parabéns.

ACADÊMICOS DO SOSSEGO
Enredo: Não Se Meta Com Minha Fé, Acredito em Quem Quiser
Carnavalesco: Leandro Valente
Compositores: Felipe Filósofo, Orlando Ambrosio, Michel do Alto, Sergio Joca, Fabio Borges, Serginho Rocco, W. Motta, Ademir Ribeiro, Diego Tavares, Mário da Vila, Gilmar Silva e Lucas Donato
Intérpretes: Guto e Juliana Pagung

Quantidade nem sempre significa qualidade e muito menos excelência em samba-enredo. Para a obra de 2019, a Acadêmicos do Sossego - que se salvou do rebaixamento por conta de outra virada de mesa - conta com nada menos que 12 compositores de uma das obras mais fracas do ano.

Acho válida a tentativa de fazer alguma coisa diferente em termos de estrutura de letra. Ano passado, o bom samba "Ritualis" não tinha verbo. O deste ano não tem rima. Mas até aí, morreu o neves: "Raízes", clássico da Vila Isabel de 1987, que tinha Martinho da Vila na parceria, também usou deste recurso e foi muito mais bem sucedido que a parceria encabeçada por Felipe Filósofo e por Lucas Donato, sobrinho do saudoso Roberto Ribeiro.

Até que o novato Guto, egresso do carnaval de Nova Friburgo e Juliana Pagung, guindada do carro de som da Mocidade Independente de Padre Miguel, não comprometem. Mas a obra da escola do Largo da Batalha, em Niterói, soa irregular e um tanto quanto estranha.

Por falar na Sossego, a escola já apresentou sua parcela de polêmica para o carnaval 2019. Ela apresentará uma alegoria de um demônio com traços que lembram muito o prefeito carioca Marcelo Crivella. 

Qualquer semelhança...

UNIDOS DE BANGU
Enredo: Do Ventre da Terra, Raízes Para o Mundo
Carnavalescos: Alex de Oliveira e Edson Pereira
Compositores: Samir Trindade, André Kaballa, Márcio de Deus, Wellington Amaro, Paulinho Ferreira, Henrique Costa, Fabio Fonseca, Fabio Martins, Neizinho, Julio Assis, Marlon P. e Vinícius Sombra
Intérpretes: Tem-Tem Jr. e Luis Oliveira

Após se segurar na Sapucaí para o carnaval de 2019, a Unidos de Bangu abrirá o desfile do sábado com outro samba que também deixa um pouco a desejar na safra da Série A. O enredo já não ajuda muito, embora a escola da Zona Oeste até esteja bem servida de carnavalescos. Mas quando o tema é a... batata (!), fica difícil defender.

Daí a sinopse não ajuda muito e a obra, que conta com 12 compositores - igualzinho à Sossego - não diz nada com nada. Será uma tarefa árdua para os banguenses e principalmente para os novatos intérpretes Tem-Tem Jr. e Luis Oliveira, que até deram o seu melhor num samba muito bem gravado no CD. Mas no geral, é uma obra abaixo da maioria.

RENASCER DE JACAREPAGUÁ
Enredo: Dois de Fevereiro no Rio Vermelho
Carnavalescos: Raphael Torres e Alexandre Rangel
Compositores: Moacyr Luz, Cláudio Russo e Diego Nicolau
Intérprete: Diego Nicolau

Sexto ano de sambas encomendados à dupla Moacyr Luz/Cláudio Russo, desta vez com Diego Nicolau participando da composição - e o resultado não poderia ser outro: mais uma obra espetacular para a Renascer de Jacarepaguá desfilar na Marquês de Sapucaí.

Enredos sobre Bahia normalmente são repletos de clichês, mas - por mais que alguns deles estejam aqui presentes, o samba é muito bom. Tem ótimos refrães e um meio de primeira parte realmente muito bonito e inspirado, na referência à Gabriela. E Diego Nicolau dá um show na gravação, na melhor performance de qualquer intérprete neste disco.

Obra propícia para a excelente bateria da Renascer deitar e rolar na avenida.

ESTÁCIO DE SÁ
Enredo: A Fé Que Emerge das Águas
Carnavalesco: Tarcísio Zanon
Compositores: Alexandre Naval, Edson Marinho, Tinga, Jorge Xavier, Luiz Sapatinho, Cláudio, Álvaro Roberto, Alexandre Moraes, Hugo Bruno e Júlio Alves
Intérprete: Serginho do Porto

Samba de excelente sinopse de autoria de Daniel Targueta, a obra estaciana para 2019 pode ser uma das boas surpresas do desfile. Inspirado na festa do Cristo Negro do Panamá, o enredo do carnavalesco Tarcísio Zanon ganhou uma obra que a princípio parecia resvalar no meio-termo, mas que com as devidas mudanças cresceu e ficou muito interessante.

Apesar dos clichês religiosos, tem belíssimos momentos - sem contar a boa interpretação de Serginho do Porto. Resta ver se no retorno de Mestre Chuvisco à frente da bateria da agremiação vermelha e branca, se o samba terá a sustentação de ritmo e cadência necessários para ser bem defendido pelos componentes e entendido pelo público na avenida.

UNIDOS DO PORTO DA PEDRA
Enredo: Antônio Pitanga, Um Negro em Movimento
Carnavalesco: Jaime Cezário
Compositores: Bira, Claudinho Guimarães, Duda SG, Márcio Rangel, Alexandre Vilela, Guilherme Andrade, Adelyr, Bruno Soares, Rafael Raçudo, Paulo Borges, Oscar Bessa e Eric Costa
Intérprete: Luizinho Andanças

A Porto da Pedra foi protagonista de um dos maiores equívocos para o carnaval 2019. Tudo porque a agremiação de São Gonçalo abriu mão da obra apresentada pela parceria de Altay Veloso, Zé Glória e Paulo César Feital, que disparadamente era não só o melhor samba do Grupo de Acesso como também de todo o carnaval do Rio de Janeiro para este ano.

E até parecia favas contadas no anúncio do enredo que o samba seria este, pois houve o rumor que não haveria disputa. O homenageado Antônio Pitanga deixou-se fotografar com Feital e Altay no lançamento do enredo, mas a diretoria da Porto da Pedra decidiu pelas eliminatórias. E na final, a surpresa: foi escolhida a obra de Bira, Claudinho Guimarães e parceiros.

Num primeiro momento, até gostei do samba vencedor - muito bem defendido por Evandro Malandro na demo (aliás e a propósito), mas depois de muitas outras audições com o intérprete Luizinho Andanças, já não me agrada tanto.

Em termos de impacto e importância, o samba derrotado era disparado muito, mas muito melhor. Enfim... veremos na apuração o desfecho dessa escolha.

IMPÉRIO DA TIJUCA
Enredo: Império do Café, o Vale da Esperança!
Carnavalesco: Jorge Caribé
Compositores: Diego Nicolau, Tinga, Pixulé, Jota e Braguinha Cromadinho
Intérprete: Daniel Silva

Samba com grife - tem Tinga, Pixulé e Diego Nicolau na parceria - acaba sendo outra das boas surpresas da safra de 2019.

Para falar da saga do Vale do Café, formada por 15 municípios do Rio de Janeiro, apela para as referências um tanto quanto batidas do trabalho escravo dos negros africanos - o que não pode ser omitido - mas a composição guarda belos momentos e dois ótimos refrães.

Desnecessária a "lacração" ao falar de agronegócio na última frase da segunda parte. Mas no geral, é uma obra muito agradável. E Daniel Silva é um dos cantores da nova geração que me agrada bastante com seu timbre grave bem característico.

ACADÊMICOS DO CUBANGO
Enredo: Igbá Cubango - A Alma das Coisas e a Arte dos Milagres
Carnavalescos: Gabriel Haddad e Leonardo Bora
Compositores: Robson Ramos, Sardinha, Duda Tonon, Anderson Lemos, Altinho, Sérgio Careca, Carlão do Caranguejo e Samir Trindade
Intérprete: Thiago Brito

O fechamento do desfile de 2019 promete muita emoção. A Acadêmicos do Cubango nos oferta mais um belo enredo à altura das tradições da verde e branco de Niterói, com referências a sortilégios, milagres, amuletos e fé - de temática afro e com uma merecida homenagem ao lendário enredo "Afoxé", campeão do carnaval niteroiense há 40 anos.

Gozado que no começo não gostei muito da gravação - não pela presença do intérprete Thiago Brito, muito pelo contrário - mas da produção em si. Não a achei à altura da obra num primeiro momento. E desgostei um pouco do samba quando vi que a segunda parte da letra (praticamente toda), bem como alguns outros trechos, fora clamorosamente mexida em relação à obra original de Sardinha e parceiros, gravada na demo por Tinga e Diego Nicolau.

Mas é aquela história: você escuta, uma, duas, cinco, dez vezes, e passa a gostar do samba. E ele realmente é bom, muito bom. Se pegar na avenida, pode ser um "sacode" para quem sabe conduzir Cubango ao desfile principal, que nunca a escola visitou - o oposto da Viradouro, que já foi inclusive campeã em 1997.

E um pequeno aparte: guardem os nomes dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora. Os dois já fizeram ano passado um excepcional trabalho no enredo alusivo a Arthur Bispo do Rosário. Daqui a pouco, vai ter escola do Especial disputando os dois a tapa.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Carnaval 2014 - os sambas do Grupo Especial

Maior campeã do carnaval do Rio de Janeiro com 21 títulos, a Portela busca sair de uma longa "fila" com o melhor dos 12 sambas do Grupo Especial no ano de 2014

Como eu prometera no post anterior, agora chegou a vez dos pitacos sobre os sambas do Grupo Especial. Repito que esta é uma análise despretensiosa, coisa de quem gosta de samba e acha que pode dar opinião sobre a safra de 2014. Longe de mim querer parecer gato-mestre da matéria, mas acompanho carnaval há uns bons 30 anos, então creio que possa discorrer sobre o tema sem nenhum problema.

Para começar, vou meter o pé na porta: o que é a gravação dos sambas deste ano? Apresentar explanações dos carnavalescos sobre cada um dos doze enredos? O que o ouvinte quer é SAMBA, música pura e simplesmente. Dessa vez, o sr. Laíla, de quem já não tenho muita simpatia por meter o bedelho dele em tudo e ainda por cima se achar o todo poderoso da Beija-Flor, se superou no nonsense. Não tenho curtido também o formato de gravação ao vivo, adotado novamente desde 2011. Enfim, questão de gosto.

Nenhum dos 12 sambas das principais escolas do carnaval do Rio de Janeiro está alçado à categoria de obra-prima, mas é certo que alguns se sobressaem, enquanto outros elevam o nível da categoria dos bois com abóbora, algo que nunca é esperado de grandes escolas, mas por vezes isso acaba acontecendo.

Vamos então aos comentários, por ordem de apresentação na avenida, como feito na análise dos sambas da Série A.

Império da Tijuca
Enredo: "Batuk"
Compositores: Márcio André, Rono Maia, Karine Santos, Tatá, Vaguinho e Alexandre Alegria
Intérprete: Pixulé

Campeã da Série A em 2013, a agremiação do morro da Formiga volta ao Grupo Especial após 18 anos e com um grande samba. A parceria de Márcio André acertou na mosca e o que eles nos trazem é um refrão de cabeça poderoso - Vai tremer... o chão vai tremer... é nó na madeira, segura que eu quero ver... - e uma obra bastante adequada ao enredo proposto pelo carnavalesco Júnior Pernambucano, que faz sua estreia no grande desfile. Outro grande achado é a escola se intitular "o primeiro império do samba", o que não deixa de ser verdade, pois o Imperinho veio em 1940 e o Império Serrano surgiu em 1947. Se a escola fizer tudo direitinho e os jurados não canetarem esse samba-enredo, as chances de permanência no Grupo Especial são boas. Mais uma estreia merece destaque: a do intérprete Pixulé, que com "muita habilidade" conduz a gravação, onde foi mudado o tom na frase "Lua... clareia na aldeia... celebração... é dom de comunicação". Nada comprometedor, pelo contrário. Nota 9,8

Acadêmicos do Grande Rio
Enredo: "Verdes olhos de Maysa sobre o mar, no caminho: Maricá"
Compositores: Deré, Robson Moratelli, Rafael Ribeiro, Hugo da Grande Rio e Toni Vietnã
Intérprete: Emerson Dias

Enredo CEP, como já se sabe e alusivo aos 200 anos de Maricá, com uma resvalada na cantora Maysa, para dar um pouco mais de credibilidade à escolha, já que a intérprete dos olhos que na definição de Manuel Bandeira eram "dois oceanos não-pacíficos", morou na cidade até o fim de sua vida em 1977. Não tenho a menor simpatia pela agremiação de Duque de Caxias pelo viés midiático que lhe é dado. Tenho enorme restrição a enredos do gênero porque eles apelam para os inevitáveis clichês na construção de uma letra de samba-enredo. E para piorar, o andamento da bateria comandada por Mestre Ciça é excessivamente acelerado, beirando a marcha. Apesar dos pesares, o samba não é dos mais terríveis do ano, embora seu refrão principal seja bem fraquinho se comparado ao da Império da Tijuca - aliás, é covardia a comparação. Emerson Dias, que conduz a gravação sozinho, esteve bem e seguro. Nota 9,1

São Clemente
Enredo: "Favela"
Compositores: Ricardo Góes, Serginho Machado, Grey, Anderson, FM e Flavinho Segal
Intérprete: Igor Sorriso

A agremiação de Botafogo aposta, como algumas outras coirmãs têm feito depois da aposta bem-sucedida da Portela, num samba com estrutura de três refrões. Eu estive numa das eliminatórias e para o meu gosto, havia obras melhores que a escolhida para representar a São Clemente em 2014. Mas a letra é bem construída e não compromete no resultado final. O intérprete Igor Sorriso foi apenas correto - nos dois últimos anos, especialmente em 2012, ele deu um show nas gravações. Nota 9,2

Estação Primeira de Mangueira
Enredo: "A festança brasileira cai no samba da Mangueira"
Compositores: Lequinho, Júnior Fionda, Paulinho Carvalho e Igor Leal
Intérprete: Luizito

E não é que a Mangueira vem para o carnaval de 2014 despida da antipatia que vinha conquistando nos últimos carnavais? Nada de "a maior escola do samba do planeta" e nada de "É surdo um, mané!". A verde e rosa de Cartola e Carlos Cachaça retoma suas tradições e rebatiza a lendária bateria com o lema de sempre - "Tem que respeitar meu tamborim". Foram condições impostas pelo presidente Chiquinho da Mangueira e o intérprete Luizito, que vinha com o alusivo ao qual me referi primeiro, seguiu à risca as ordens do 'chefe'. E ele brinda o ouvinte com uma interpretação fabulosa de um dos melhores sambas do ano, cortesia da parceria de Lequinho, Júnior Fionda e Igor Leal, já campeã noutros anos. O refrão de cabeça é ligeiramente duvidoso com o "Oba Oba... eu quero ver quem vai...", mas não compromete o restante da obra. Nota 9,7

Acadêmicos do Salgueiro
Enredo: "Gaia, a vida em nossas mãos"
Compositores: Xande de Pilares, Dudu Botelho, Miudinho, Betinho de Pilares, Rodrigo Raposo e Jassa
Intérpretes: Quinho, Leonardo Bessa, Xande de Pilares e Serginho do Porto

Lá vem o Salgueiro com seus exageros de sempre. Quatro intérpretes e um samba que os bambas qualificam como um dos melhores do ano - mas será que só sou eu que não gosto dele? À primeira audição, não me pegou e mesmo tendo escutado bem mais do que uma vez, continua não me agradando. O clichê "Caô, meu pai, Xangô" eu já ouvi zilionésimas vezes noutras obras e noutros carnavais, alguns bem recentes. Que pena, Salgueiro... seu samba não tocou meu coração. Nota 9,4

Beija-Flor de Nilópolis
Enredo: "O astro iluminado da comunicação brasileira"
Compositores: Sidney de Pilares, JR Beija-Flor, Júnior Trindade, Zé Carlos, Adílson Brandão e Diogo Rosa
Intérprete: Neguinho da Beija-Flor

Um dos grandes desastres de 2014. O pior samba da Beija-Flor desde os seus dois infames enredos de exaltação ao governo militar nos anos 70. Também pudera: fruto de uma escolha absolutamente infeliz de enredo, ao homenagear o ex-vice-presidente de operações da Rede Globo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, como mote para falar da comunicação do Brasil, só podia sair um samba tenebroso como este apresentado pela agremiação de Nilópolis. Um autêntico boi com abóbora que nem Laíla conseguiu salvar. Começaram muito mal quando o samba foi apresentado. Havia um "A campeã voltou" que logo foi descartado pelo diretor de carnaval porque podia soar mal para a BF - como se a própria fama da agremiação já não contribuísse para isso. Ao mexer na letra, Laíla piorou ainda mais a obra, como se ainda fosse possível. O refrão do meio é horroroso. Alguém gostou desse negócio de "Um lado a comunicar, o outro comunicou"? E o tal do "que babado é esse, de samba no pé"? Meu Deus... nem nos meus piores pensamentos podia imaginar a Beija-Flor apelando para um samba tão ruim. Enfim, gosto não se discute. Lamenta-se. Os componentes vão cantar com a fúria costumeira e vão achar tudo lindo, tudo ótimo, como sempre acham. Tomara que os jurados não se deixem levar pelo peso do enredo e coloquem a Beija-Flor fora do desfile das campeãs, que é o que ela merece. Nota 8,5

Mocidade Independente de Padre Miguel
Enredo: "Pernambucópolis"
Compositores: Dudu Nobre, Jefinho Rodrigues, Marquinho Índio, Jorginho Medeiros, Gabriel Teixeira e Diego Nicolau
Intérprete: Bruno Ribas (participação especial Dudu Nobre)

Sambão! Se a Mocidade Independente de Padre Miguel precisava de algo para recuperar a auto-estima dos seus componentes, eis uma obra à altura das tradições da agremiação verde-e-branco. A homenagem a um dos grandes nomes da escola, o carnavalesco Fernando Pinto, autor de enredos lendários como "Ziriguidum 2001" e "Tupinicópolis", emociona. O samba é uma delícia de se ouvir, com belíssima melodia e ótima interpretação de Bruno Ribas - contratado em cima da hora para o lugar de Luizinho Andanças - e com uma forcinha de um dos compositores, Dudu Nobre. Faz tempo que a turma da Zona Oeste não vinha tão bem em termos de samba como agora em 2014. O problema é que a escola segue envolta com os velhos problemas de sempre: a indefinição política, resolvida há dias com a renúncia de Paulo Vianna na presidência, o atraso no barracão e demais imbróglios envolvendo até a troca da Rainha de Bateria. Que nada abale o desfile da Mocidade. Nota 9,8

União da Ilha do Governador
Enredo: "É brinquedo, é brincadeira! A Ilha vai levantar poeira!"
Compositores: Paulo George, Gabriel Fraga, Carlinhos Fuzil, Régis, Canindé e Flávio Pires
Intérprete: Ito Melodia

A segunda escola de quase todo mundo que gosta de carnaval no Rio de Janeiro vem com um bom samba para o desfile do Grupo Especial de 2014, para apagar a frustração dos insulanos com a obra apresentada ano passado na homenagem a Vinícius de Moraes. A tricolor da Ilha do Governador traz um enredo à altura da alegria que a agremiação tem como característica na maioria absoluta de seus desfiles. O único senão de um samba que tem uma boa melodia e boas sacadas como no refrão do meio é que falta o chamado "algo mais". Nada que comprometa o trabalho de Carlinhos Fuzil e parceiros. Ito Melodia, filho do saudoso Aroldo Melodia, conduz a gravação com segurança e animação. Nota 9,5

Unidos de Vila Isabel
Enredo: "Retratos de um Brasil plural"
Compositores: Evandro Bocão, Arlindo Cruz, André Diniz, Professor Wladimir e Artur das Ferragens
Intérprete: Gilsinho

Campeã incontestável de 2013 com um samba que estava furos acima do resto, desta vez a Vila Isabel não tem uma obra-prima à altura do ano passado para lutar pelo bicampeonato, embora mais uma vez estejam entre seus autores o mala e onipresente Arlindo Cruz e também André Diniz, no que já é lugar comum em matéria de disputa na terra de Noel Rosa. Melodicamente, é uma obra que lembra em alguns momentos o samba do ano passado, mas não passa disso. A letra é menos inspirada, embora seja um bom samba - mesmo apelando para referências batidas como o canto do uirapuru e a lenda do negrinho do pastoreio. A Vila ganhou com a vinda de Gilsinho, que deixou a Portela. O intérprete saiu-se muito bem na gravação. Nota 9,5

Imperatriz Leopoldinense
Enredo: "Arthur X - o reino do Galinho de Ouro na corte da Imperatriz"
Compositores: Elymar Santos, Me Leva, Guga, Gil Branco e Tião Pinheiro
Intérprete: Wander Pires

Mais uma tentativa de trazer o futebol ao carnaval: a Imperatriz Leopoldinense faz uma aposta duvidosa num enredo sobre Zico (que faz 60 anos exatamente no dia do desfile, 3 de março) para angariar a simpatia da torcida flamenga para a agremiação de Ramos, sempre espiaçada pelos bambas e tida como uma escola "fria" e "certinha". Coisa de quem, convenhamos, não entende do riscado porque já vimos a Imperatriz levantar a avenida, como aconteceu em 1980/81, em outros dois anos em que não foi campeã - 82/83 - e em 1989, no ano em que derrotou o luxo do lixo da Beija-Flor de Joãozinho Trinta. Mas isso não vem ao caso, agora. Voltemos à aposta duvidosa: afirmo isso me baseando no que aconteceu com a Estácio de Sá em 1995 (100 anos do Flamengo), com a Unidos da Tijuca em 1998 (100 anos do Vasco) e com a Acadêmicos da Rocinha (100 anos do Fluminense). Foram enredos que não deram em nada ou em rebaixamento - caso da agremiação do Borel. E que fique claro: desde o início, achei a proposta de enredo equivocada, sendo que eu sou torcedor doente da Imperatriz. E com imenso pesar, não vou torcer pela minha escola do coração pela primeira vez nos últimos 34 anos. O samba também não é grande coisa. Na gravação, ficou sem explosão nenhuma, embora o refrão de cabeça seja pura apelação para fazer a galera levantar na arquibancada. E para o meu gosto, havia coisa melhor na disputa: o samba defendido por Wantuir e Preto Jóia na gravação e assinado por Zé Catimba (há quem diga que era de André Diniz, que não pode pôr o nome na parceria, por já estar na Vila) era mais melódico do que a obra que vai para a avenida. Só posso dizer uma coisa: em 2015 volto a torcer, a menos que se escolha outro enredo ridículo. Nota 9,2

Portela
Enredo: "Um Rio de mar a mar: do Valongo à glória de São Sebastião"
Compositores: Toninho Nascimento, Luiz Carlos Máximo, Waguinho, Edson Alves e J. Amaral
Intérprete: Wantuir

Mais um grande samba da parceria de Luiz Carlos Máximo, o que tem sido normal nos últimos três anos. A Portela segue sua aposta em obras com três refrões, mantendo o padrão que encantou os bambas e também os jurados, que premiaram a agremiação de Oswaldo Cruz com cinco notas máximas em 2012 e 2013. Samba delicioso de ouvir, cheio de bossa, ginga e malandragem, digno de fazer o Rio circular de terno de linho e chapéu panamá, feito malandro da Lapa. A estreia de Wantuir é em grande estilo. Foi uma excelente aquisição para o microfone da azul e branco no lugar de Gilsinho, que foi para a Vila. É a melhor das 12 obras do Grupo Especial neste ano. Nota 9,9

Unidos da Tijuca
Enredo: "Acelera, Tijuca!"
Compositores: Gustavinho Oliveira, Fadico, Caio Alves e Rafael dos Santos
Intérprete: Tinga

A viagem do carnavalesco Paulo Barros sobre o tema Ayrton Senna, cuja morte completa 20 anos em 2014 nos traz o outro boi com abóbora do carnaval deste ano no Grupo Especial. E não é porque sou fã declarado do outro tricampeão de Fórmula 1, Nelson Piquet, que critico duramente a obra da agremiação do morro do Borel. É porque o samba é ruim. No primeiro refrão já pega pesado com dois dos grandes rivais de Ayrton - Alain Prost e Michael Schumacher. Tem quem ache que não, mas um refrão que diz "Tentando trapacear, deu mole, rodou na pista... ficou para trás o Vigarista", sendo que Schumacher era jocosamente chamado de Dick Vigarista pela imprensa brasileira e o Prost rodou na volta de apresentação do GP de San Marino de 1991, fica bastante claro quem são os vilões da história, não é mesmo? E o final do segundo refrão, que tinha "Ayrton Senna do Borel" foi trocado para "Ayrton Senna do Brasil", com certeza para fazer um ligeiro afago no ego de Galvão Bueno. E sobre o samba, a escolha foi infeliz: havia, sem nenhuma dúvida, pelo menos uma obra melhor do que esta, assinada pela parceria de Luiz Thiago e Diego do Carmo. Nota 8,7

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Carnaval 2014 - os sambas do Grupo de Acesso

A Unidos do Viradouro é uma das dezessete escolas que lutarão pelo título da Série A no carnaval do Rio de Janeiro. Desfiles serão em 28 de fevereiro e 1º de março

Este blog raramente é atualizado, mas como eu também gosto de carnaval - não só de música em geral e principalmente de esportes - vou dar os meus pitacos sobre a safra de sambas-enredo do Carnaval de 2014 do Rio de Janeiro.

Vou começar pelo Grupo de Acesso, que tem - com exceção das reedições, que aqui não serão avaliadas - bons sambas. Não é uma safra tão boa quanto a de 2013, mas temos pelo menos quatro obras que podem impulsionar suas escolas a brigar pelo título e dentre as reedições, uma é - logicamente - aguardada com imensa expectativa. Refiro-me, claro, à volta do Em Cima da Hora à Sapucaí com "Os Sertões", sua obra-prima do Carnaval de 1976, num ano de muitas chuvas - algo que está previsto no roteiro para este ano, o que deve mexer muito com os brios da rapaziada de Cavalcante.

Sem grandes delongas, vamos às análises, por ordem de apresentação das 17 escolas da Série A:

Em Cima da Hora
Enredo: "Os Sertões"
Compositor: Edeor de Paula
Intérpretes: Antônio Carlos e Arthur Franco

Campeã do Grupo B em 2013, a escola de Cavalcante marca sua presença de volta à Sapucaí revivendo o maior samba de sua história e um dos maiores do Carnaval do Rio de Janeiro. Não é uma tarefa das mais fáceis reeditar uma obra de 1976, quando os sambas eram mais dolentes e cadenciados. Mas a produção do CD, a cargo de Leonardo Bessa, trabalhou bem para que a melodia não se descaracterizasse e mesmo num andamento mais acelerado - um tom acima, os intérpretes Antônio Carlos (ex-Sereno de Campo Grande) e Arthur Franco, que vinha defendendo os sambas da Mocidade Vicentina na Intendente Magalhães, brilharam. Tomara que a previsão de chuva não se concretize e que possamos ver uma apresentação digna da agremiação suburbana.

União de Jacarepaguá
Enredo: "Os Iorubás - A história do povo nagô"
Compositores: Alexandre Valle, Dona Ivanísia, Neyzinho do Cavaco, Mário Araújo, James Bernardes e Girão
Intérprete: Tiganá

Após uma digna apresentação em 2013, a União de Jacarepaguá tem a difícil missão de continuar numa Série A que prevê o rebaixamento de três agremiações. Jorge Caribé idealizou mais um enredo afro entre enésimos já apresentados na Marquês de Sapucaí e o samba foi o primeiro inédito da safra para este ano. Não chega a ser dos melhores do gênero, mas está longe de comprometer. Tiganá defendeu muito bem a composição de Alexandre Valle e parceiros na gravação. Nota 9,5

Acadêmicos da Rocinha
Enredo: "Do paraíso sonhado, um sonho realizado..."
Compositores: Alexandre Naval, Anderson Benson, Flavinho Segal, F. Maria, J. do Táxi, Leandro RC, Marcelinho e Maurício Amorim
Intérprete: Leléu

Não satisfeita com o samba trash de 2013 e que, surpreendentemente, rendeu a ponto da escola realizar um excelente desfile ano passado, a Acadêmicos da Rocinha aposta na mesma parceria para a obra de 2014. O enredo é apelativo: uma ode à Barra da Tijuca, bairro detestado por sete entre dez cariocas. E a letra do samba, com todo respeito aos compositores, está longe de colocar qualquer agremiação no rol das favoritas. Rimar lelé da cuca com Barra da Tijuca, convenhamos, não é algo agradável aos ouvidos exigentes de quem foi amamentado com sambas-enredo dos anos 70 e 80. A escola vai ter que cortar um dobrado para agradar a plateia. Na gravação da faixa no CD, Leléu defendeu o samba com garra. E só. Nota 8,9

Renascer de Jacarepaguá
Enredo: "Olhar caricato. Simplesmente, Lan!"
Compositores: Moacyr Luz e Cláudio Russo
Intérpretes: Diego Nicolau e Evandro Malandro

Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortellini Rossi Rossini. Simplesmente, Lan. O caricaturista fã do Flamengo, da Portela e de belas mulheres, preferencialmente mulatas, que terá completado 89 anos de intensa vida antes do desfile oficial, é o homenageado da Renascer de Jacarepaguá para este carnaval da Série A. E temos um belo samba inédito aqui, cortesia da parceria entre Moacyr Luz e Cláudio Russo, duas griffes do gênero. Variações melódicas interessantes e sacadas inteligentes como usar a frase "O Rio de Janeiro é todo Lan!" por duas vezes num dos três refrões da letra compõem uma obra simpática, muito bem defendida por Diego Nicolau e Evandro Malandro, substitutos do antigo intérprete Rogerinho. Nota 9,7

Unidos do Porto da Pedra
Enredo: "Majestades do Samba: os defensores do meu pavilhão!"
Compositores: Bira, Márcio Rangel, Wilson Bizzar, Eric Costa, Alexandre Villela e Duda SG
Intérprete: Anderson Paz

A Porto da Pedra tem como grande mérito livrar-nos do tenebroso samba de Paulinho Direito, uma das piores coisas já concebidas para qualquer disputa de quadra em qualquer tempo. Tudo bem que a "obra" entrou para o terreno do trash e para o folclore do carnaval carioca, mas querer que fosse para a avenida é inconcebível. O samba escolhido para o desfile de 2014 tem bela melodia e apenas isso. Nenhuma menção explícita aos homenageados do enredo idealizado pelo carnavalesco Leandro Valente, para exaltar a figura de mestre-sala e porta-bandeira. Anderson Paz, de volta às gravações, defendeu bem a obra de Bira, Márcio Rangel e parceiros. Nota 9,3

Paraíso do Tuiuti
Enredo: "Kizomba, a Festa da Raça"
Compositores: Rodolpho, Jonas e Luiz Carlos da Vila
Intérprete: Daniel Silva

Essa é uma das duas reedições sob o grande signo da incógnita nesta Série A. Principalmente porque esta é uma obra da Vila Isabel reeditada pelo Paraíso do Tuiuti, simpática mas pequena agremiação de São Cristóvão que escapou por pouco de ser rebaixada para o Grupo B ano passado. O enredo idealizado por Martinho da Vila e que foi apresentado no ano do centenário da Abolição da Escravatura (e que ganhou brilhantemente o carnaval de 1988) será responsabilidade do carnavalesco Severo Luzardo, que ano passado fez um carnaval bastante pretensioso no Acadêmicos do Cubango, que não deu em nada. A atuação de Daniel Silva na gravação da faixa é correta. 

Inocentes de Belford Roxo
Enredo: "O triunfo da América - O canto lírico de Joaquina Lapinha"
Compositores: Altamiro, Tico do Gato, Vinícius Ferreira, Claudinho, Chiquinho do Bar, Manelão, Abílio Mestre Sala, Paulo e Juruna Zona
Intérprete: Ciganerey

Laíla mal chegou à agremiação da Baixada Fluminense e já fez das suas: juntou dois sambas para fazer um, em homenagem à mineira Maria Joaquina Lapinha, soprano de grande carreira no século XIX. Até que a obra de Altamiro e parceiros começa bem e sua melodia é bem dolente até o refrão do meio. Mas é um samba sem explosão e com tendência a se arrastar até o refrão final, que também não é lá grande coisa. Boa participação de Ciganerey na gravação. Nota 9,3

Império Serrano
Enredo: "Angra com os Reis"
Compositores: Paulinho Valença, Henrique Hoffmann, Popeye, Victor Alves, Filipe Araújo, Tião Pinheiro, J. Centeno e Beto do Império
Intérprete: Clóvis Pê

Mais um enredo CEP trazido pelo Menino de Quarenta e Sete para a avenida. O Império Serrano, em mais um ano no Acesso, aposta em Angra dos Reis para voltar ao Grupo Especial. Não será uma tarefa fácil e o maior império de bambas do carnaval carioca terá que se desdobrar para atingir um objetivo que é cada vez mais complicado. Apesar disto, o samba de Paulinho Valença e parceiros é dos mais agradáveis, de letra menos rebuscada que o habitual e com bela melodia, com boas sacadas para falar do "negro guerreiro de Bracuí". Ótima interpretação de Clóvis Pê e destacada participação do combo percussivo com os agogôs que são marca registrada da agremiação de Magno. Nota 9,6

Tradição
Enredo: "Sonhar com Rei da Leão"
Compositor: Neguinho da Beija-Flor (Neguinho da Vala)
Intérprete: Marquinhos Silva (participação especial de Neguinho da Beija-Flor)

Lá vem a Tradição, com mais uma reedição. Com o perdão da rima, ninguém aguenta mais a escola de Campinho apelando para não cair para a Intendente Magalhães, rua onde fica sua quadra-sede. É a sexta reedição de enredos por parte da agremiação - quatro de coirmãs. A vítima da vez é a Beija-Flor com seu enredo de 1976 que deu para a escola de Nilópolis seu primeiro título entre as grandes escolas. Afora o fato de ser uma alusão ao jogo do bicho, atividade eminentemente ilegal, o samba está longe de ser dos melhores já produzidos por qualquer compositor da Beija-Flor. Creio que um dos motivos da reedição seja a alusão a Natal da Portela, pai do presidente da Tradição, Nésio Nascimento, na segunda estrofe após o refrão do meio, porque pelos motivos já descritos, nada justificaria a volta deste samba ao carnaval após 38 anos. O fraco Marquinhos Silva, que assassinou o sambaço da Portela reeditado ano passado no desfile da Tradição, foi ajudado pelo próprio Neguinho da Beija-Flor, compositor e intérprete do samba na avenida, que até 1976 era conhecido pela alcunha de Neguinho da Vala.

Alegria da Zona Sul
Enredo: "Sacopenapã"
Compositores: Márcio André Filho, Gabriel Braga, Virgínia, Adelson, Edvander e Telmo Augusto
Intérprete: Edmilton di Bem

A origem de Copacabana é cantada pela Alegria da Zona Sul, agremiação dos morros do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho. É uma bela proposta de enredo, com um bom samba, de melodia valente, letra bastante interessante e dois refrões bem gostosos de se cantar. O ótimo Edmílton di Bem, que já teve passagens por Tradição, Estácio de Sá e Unidos de Lucas, que já se saíra muito bem no ano passado durante o desfile que homenageou o Cordão do Bola Preta, tem excelente desempenho na gravação. Pena que o samba tem apenas uma passada e meia no CD. Nota 9,5

União do Parque Curicica
Enredo: "Na garrafa, no barril, salve a cachaça, patrimônio cultural do Brasil"
Compositores: Washington, Júnior Bebezão, Thiago Silveira, Fael Cachinho, Vagner Silva, Bola, Pitimbu, Dudu, Zé Luís e Cláudio Russo
Intérprete: Ronaldo Yllê

Não será uma missão fácil para a União do Parque Curicica a permanência na Série A depois da reedição do sambaço da Portela de 1994, com um enredo 'inédito' sobre a cachaça - que, convenhamos, não é novidade nenhuma em se tratando de carnaval. Apesar do tema já recorrente, a escola optou pela junção de dois sambas para apresentar sua obra definitiva na avenida. No disco, Ronaldo Yllê tem bom desempenho. Se enredo e samba vão funcionar no desfile oficial, já é outra história. Nota 9,2

Caprichosos de Pilares
Enredo: "Dos malandros e das madames: Lapa, a estrela da noite carioca"
Compositores: Jorginho Moreira, Frank, Rafael Gigante, Victor Rangel, Max Colonna e Edinho de Pilares
Intérprete: Thiago Brito

Lapa, outro enredo recorrente em carnavais do Rio de Janeiro, é o tema da Caprichosos de Pilares, que traz um samba apenas correto e sem explosão. O refrão principal foi modificado - para pior, o que deixou a obra ainda mais pasteurizada do que já estava. Destaque para o retorno de Thiago Brito ao carro de som da agremiação suburbana, após dois anos na Inocentes de Belford Roxo. Nota 9,3

Unidos do Viradouro
Enredo: "Sou a terra de Ismael. Guanabaran vou cruzar, pra você tiro o chapéu, Rio vou te abraçar"
Compositores: Dudu Nobre, Diego Tavares, Zé Glória, Paulo Oliveira, Dílson Marimba e Júnior Fraga
Intérprete: Zé Paulo Sierra

Vice-campeã da Série A em 2013, a Unidos do Viradouro continua sua saga para voltar ao Grupo Especial, do qual foi campeã em 1997. E desta vez, o samba que ganhou a disputa não tem o mesmo brilho da obra do ano passado, embora seja funcional, adequado ao enredo, com melodia valente e um refrão delicioso de cantar. Vamos ver como a obra de Dudu Nobre e parceiros se sairá na avenida, no primeiro carnaval concebido por João Victor Araújo para a agremiação do Barreto. Zé Paulo Sierra, após um bom tempo na Estação Primeira de Mangueira, faz sua estreia na Viradouro no CD da Série A, com boa atuação. Nota 9,5

Estácio de Sá
Enredo: "Um Rio à beira-mar: ventos do passado em direção ao futuro!"
Compositores: China do Estácio, Thiago Daniel, Jorge Lopa, Guto Smuk, Filipe Medrado, Renato Pinto, Eduardo Moreira e Ricardo Basile
Intérpretes: Leandro Santos e Dominguinhos do Estácio

O berço do samba vem com um enredo que, certamente, vai fazer a alegria do prefeito Eduardo Paes (Calma, isto não é um elogio ao político, pelo contrário). Assim como a obra alusiva ao Teleporto - e que rendeu um bom samba - este enredo fala do "bota-abaixo" de Pereira Passos e também remete às obras do Porto Maravilha e a revitalização consequente daquela área, oferecimento do atual alcaide - a Estácio de Sá vem com um dos melhores sambas da Série A em 2014. A gravação é uma das melhores do disco, com a volta de Dominguinhos do Estácio à escola que o revelou para o carnaval. Ele e Leandro Santos conduzem muito bem a obra de China do Estácio e parceiros. Nota 9,8

Acadêmicos de Santa Cruz
Enredo: "Do toque do criador à cidade saudável do Brasil - Jundiaí, uma referência nacional"
Compositores: Preguinho, Léo do Tamborim, Douglas Ramos, Robinho do Cavaco e Rodolfo Frez
Intérprete: Paulinho Mocidade

Com todo o respeito aos jundiaienses e habitantes daquela região do interior de São Paulo, mas Jundiaí não dá samba. Por mais que a Acadêmicos de Santa Cruz nos queira mostrar que isso é possível, o único mérito da obra da escola da Zona Oeste é trazer sangue novo para as composições da agremiação, já que venceu a parceria de Preguinho, Léo do Tamborim e parceiros. No mais, não é um grande samba, posto que é um enredo CEP (como já fora o alusivo ao Ceará em 2013, mas com um samba bem melhor). Aliás, a Santa Cruz já apresentou coisas bem melhores no Acesso. Paulinho Mocidade, que será a voz da escola mais uma vez na avenida, conduziu o samba muito bem no disco. Nota 9,1

Unidos de Padre Miguel
Enredo: "Decifra-me ou te devoro: enigmas da vida!"
Compositores: Arlindo Neto, Pedrinho da Flor, Jefinho Rodrigues, Jorginho Medeiros, Lauro Silva e Fernando Piá
Intérprete: Marquinhos Art Samba

Após trazer um samba de temática afro de viés bastante duvidoso em 2013 e fazer um desfile bem razoável, a Unidos de Padre Miguel quer surpreender neste ano, com uma obra assinada pelo bamba Pedrinho da Flor, de grandes composições para o Império da Tijuca nos anos 80 e que também tem entre os parceiros Arlindo Neto, filho do onipresente Arlindo Cruz. É um bom samba, de melodia dolente e dois bons refrões. O enredo da vermelho e branco remete à ideia de carnaval de Paulo Barros para a Unidos da Tijuca em 2010. Vamos ver como será o trabalho plástico do bom carnavalesco Edson Pereira. O samba foi muito bem defendido por Marquinhos Art Samba em sua gravação. Nota 9,5

Acadêmicos do Cubango
Enredo: "Continente Negro - uma epopeia africana"
Compositores: Sardinha, Gustavo Soares, Diego Moura, Deigre Silva, Júnior Fionda, Lequinho e Igor Leal
Intérprete: Marcelo Rodrigues

Um dos melhores sambas do carnaval do Rio de Janeiro. Não há outra obra tão boa na Série A quanto a que a Cubango apresentará na avenida e a agremiação niteroiense é especialista em temas afro, tendo reeditado "Afoxé", lendário enredo de 1979, em 2008, afora outras ótimas obras que foram para a Sapucaí em 2004 e 2005. Candidato a todos os prêmios de melhor samba-enredo do ano no Acesso e deve conquistá-los sem nenhuma contestação. A rapaziada da melhor qualidade capitaneada por Sardinha e Diego Moura, com o auxílio luxuoso de Júnior Fionda, Lequinho e Igor Leal, campeões na Mangueira, está de parabéns. A letra diz que "a demanda da Cubango é vencer". Será que chegou a hora? Nota 10


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Carnaval 2012 - pitacos sobre o CD do Grupo Especial

Gosto de carnaval. Muito. A culpa, claro, é paterna. Nos anos 70, todo início de ano, todo fim de semana, lá vinham os discos com as feéricas capas da Top Tape ocupar a vitrola. Claro que eu, pequeno, não sabia patavina das letras, mas não resistia a chamar minha mãe, portelense roxa, de "nega fulô", quando ouvia 'Memórias poéticas de Jorge de Lima', samba da Estação Primeira de Mangueira do ano de 1975. E olha que de "nega fulô", minha mãe não tem nada.

O tempo passou, os discos de samba-enredo foram embora quando meu pai saiu de casa, mas a empolgação pelo carnaval, os sambas e os desfiles não feneceu. Pelo contrário, só cresceu. Com o passar dos anos, me interessei mais e mais pelo carnaval e a história dos desfiles, a ponto de passar tardes inteiras na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro lendo apaixonadamente a cobertura dos carnavais mais antigos, folheando edições de O Globo caindo aos pedaços.

A partir de 1981, com o coração conquistado pela Imperatriz Leopoldinense de forma definitiva, tornei-me um torcedor alucinado da agremiação de Ramos, bairro onde passei quase três décadas da minha vida. Essa paixão nunca me impediu, contudo, de elogiar a performance de outras escolas na avenida nem como deixar de admirar grandes sambas que tomaram conta da Marquês de Sapucaí.

Vejo que 2012 está marcado por um ano com sambas muito acima da média do que vínhamos ouvindo neste começo de século XXI. Se por vezes uma obra se salvava em meio à mediocridade e, por vezes, nenhuma era digna de registro, para o carnaval do ano que vem temos uma autêntica obra-prima, um samba que tinha tudo para sê-lo (mas não foi) e outros dois ou três muito bons. Infelizmente, não nos livramos dos chamados "bois com abóbora" nesta safra.

Proponho aqui minha humilde avaliação, ressaltando, mais uma vez: não sou especialista, não sou um crítico. Apenas um admirador desta festa que, por uma semana, iguala pobres e ricos numa só paixão.

Beija-Flor de Nilópolis - Vou entrar de sola numa questão polêmica acerca do samba da Beija-Flor. A junção proposta entre as duas obras finalistas "matou" uma possível obra-prima do carnaval de 2012. No meu entender, o samba da parceria de Samir Trindade, com seu excepcional refrão "Meu São Luís do Maranhão... poema encantado de amor... onde canta o sabiá... hoje canta a Beija-Flor" era de letra e melodia superior à composição de J. Velloso e parceiros, da qual aproveitou-se a segunda parte e o refrão do meio. Não é um samba ruim, muito longe disso. Mas a decisão da junção fez a Beija-Flor dar em si mesma um "tiro no pé". Perderam a chance de figurar como uma das melhores obras do carnaval por conta disso. Nota 9,6

Unidos da Tijuca - A agremiação do Borel também não foi feliz na escolha do seu samba-enredo para 2012. Tem alusões muito bem sacadas a Luiz Gonzaga, o "Rei do Baião" homenageado pela escola vice-campeã do ano passado, mas o samba não chega a empolgar. A melodia é apenas correta. Bruno Ribas gravou o samba muito bem, só que na gravação, o tom da voz do intérprete ficou mais alto do que deveria - o que pode dificultar o canto dos componentes na hora do desfile. Passando ao largo da comparação com o espetacular samba "Lua Viajante", enredo da Unidos de Lucas de 1982, esta homenagem a Gonzagão ficou devendo um pouquinho. Nota 9,5

Estação Primeira de Mangueira - A homenagem ao Cacique de Ramos é mais uma sacada inteligente de Ivo Meirelles após o desfile deste ano, com um enredo alusivo ao baluarte da verde-e-rosa Nelson Cavaquinho. Mas alguma coisa ficou estranha na gravação do samba de 2012: justamente a primeira 'passada', aquela em que o ouvinte tem que ser cativado pela voz do intérprete, é uma reunião de 'bambas' que, se soou inovadora pela proposta, por outro lado tornou-a estranha pelo desnível de vozes como as de Beth Carvalho e Jorge Aragão, por exemplo. No mais, o samba é bom, com uma segunda parte irresistível, porém com dois pequenos problemas: citações desnecessárias à própria Mangueira (uma vez que o homenageado é o Cacique de Ramos) e o refrão, destoando do resto da obra pela pobreza. Nota 9,5

Unidos de Vila Isabel - Vira e mexe a azul e branco da terra de Noel Rosa nos brinda com grandes sambas. Este de 2012 não é exceção. A escolha de mais um enredo "africano" nos remete a Kizomba e outros tantos desfiles carregados de emoção que a Vila Isabel já nos proporcionou no carnaval carioca. E mais uma vez, a escola leva para a avenida um samba de André Diniz, o maior vencedor das disputas de samba-enredo do Rio de Janeiro. Uma obra belíssima, com dois refrões sensacionais - "Reina Ginga ê matamba vem ver a lua de Luanda nos guiar... Reina Ginga ê matamba negra de Zambi, sua terra é seu altar" e "Semba de lá, que eu sambo de cá... Já clareou o dia de paz... Vai ressoar o canto livre... Nos meus tambores, o sonho vive" - e uma linha melódica perfeita. Tinga cantou o samba à perfeição na gravação do disco. O problema é que, na avenida, o intérprete costuma apelar para os gritos, o que pode comprometer a escola no seu desfile. Nota 9,9

Acadêmicos do Salgueiro - Outro samba que foi praticamente unânime na final da agremiação vermelho e branco do Andaraí, o "Cordel Branco e Encarnado" se encaixa na proposta de enredo de Renato Lage, com um refrão muito bom, para cima, um dos melhores do carnaval: "Salgueiro é amor que mora no peito... Com todo respeito, o rei da folia... Eu sou o cordel branco e encarnado... "Danado" pra versar na Academia". Mas a impressão que fica no ar é que este mesmo samba não levou a fundo o lema da escola. "Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente". Num ano de grandes sambas, o do Salgueiro não pode ser comparado aos melhores, justamente porque faltou o 'diferente' que poderia virar as coisas a seu favor. No meu gosto, o samba que Wantuir defendia nas eliminatórias era melhor. Mas a obra de Marcelo Motta e parceiros caiu no gosto dos componentes. E para o Salgueiro é isso que importa. Nota 9,6

Imperatriz Leopoldinense - A "Rainha de Ramos" teve neste ano a disputa mais acirrada para a escolha do seu samba - muito mais do que em qualquer outra das 12 coirmãs, mostrando a excelência de sua Ala de Compositores, hoje provavelmente a melhor do carnaval do Rio de Janeiro. De princípio, simpatizei mais com os sambas das parcerias de Me Leva e cia. (vencedores das disputas para 2010 e 2011) e de Josimar e cia. (autores dos sambas dos carnavais de 2008 e 2009), por serem mais descritivos e mais condizentes com a homenagem a Jorge Amado em seu centenário. Mas, correndo por fora, ganhou corpo a obra de Jefferson Lima e parceiros, que de maneira até certo ponto surpreendente, venceu a disputa. É um samba criativo, de melodia eminentemente afro e de versos inspirados como os da segunda parte: "O vento soprou... As letras em liberdade... Joga a rede, pescador!... O povo tem sede de felicidade... A brisa a embalar... Histórias que falam de amor... Memórias sob o lume do luar... O doce perfume da flor", mas que peca pelos refrões, especialmente o chamado 'refrão de cabeça'. Não compromete, mas está abaixo por exemplo, de "Brasil de Todos os Deuses", esta sim uma obra-prima da Imperatriz neste século. Nota 9,8

Mocidade Independente de Padre Miguel - Não é implicância com a escola da Vila Vintém, mas honestamente não consegui ser atraído pelo samba que alude a Cândido Portinari, outro artista já homenageado em outras ocasiões nos desfiles das escolas de samba. Se ano passado a Imperatriz abusou do direito de pôr frases com a terminação "ar" - foram 25! - a parceria de Diego Nicolau, Gabriel Teixeira e Gustavo Soares apelou para um quarteto de "al" - real, mural, ideal e carnaval - no fim da segunda parte do samba, que tem uma linha melódica que também não é das melhores do ano. É uma obra acima da média do que a agremiação mostrou nos últimos anos, mas longe de ser excepcional. Nota 9,4

Unidos do Porto da Pedra - Não há como dizer que o samba da escola de São Gonçalo é o grande "boi com abóbora" de 2012. Também pudera: o enredo não ajuda na composição de um bom samba e a obra de Vadinho e parceiros cai na vala comum dos sambas que rapidamente serão esquecidos pelos bambas. Salvou-se a ótima performance de Wander Pires, que economizou nas firulas e mostrou que, quando quer, pode ser um excepcional cantor de samba-enredo. A bateria comandada por mestre Thiago Diogo também foi um ponto positivo na gravação do pior samba do ano. Nota 9,1

Unidos de São Clemente - Impossível não gostar do samba da agremiação de Botafogo, a única da Zona Sul do Rio no Grupo Especial - embora sua quadra seja na Cidade Nova. O refrão, com seu "Tem bububu no bobobó" gruda no ouvido que nem chiclete e é o mais "alegre", "pra cima" de todo carnaval, marcando, quem sabe, a volta da irreverência da São Clemente perdida ao longo dos anos e que, grosso modo, remete também aos bons tempos da Caprichosos de Pilares. Embora o samba não tenha outros momentos de grande inspiração e trechos como "Puxa, aqui Paris é avenida" beirem a grosseria, a obra passa sem grandes problemas. A destacar a interpretação do jovem Igor Sorriso, uma das melhores de todo o disco. Nota 9,5

Acadêmicos do Grande Rio - Tanto falatório para uma grande decepção. É assim que considero o samba da agremiação tricolor da Baixada Fluminense, dado o que se aguardava do enredo de 2012, cujo mote é a superação. Nem de longe o samba é capaz de lembrar do que aconteceu à Grande Rio ano passado e aludir a outras histórias parecidas ou específicas do tema. Muito estranha, fora de contexto, é a citação ao Festival de Parintins, mesmo que de forma indireta, o que torna o samba ainda mais incompreensível para quem, como eu, esperava uma obra emocionante sem ser piegas. E isto, Edispuma e seus parceiros não conseguiram fazer. Talvez seja o pior samba da Grande Rio desde sua última volta ao Grupo Especial em 1994. Nota 9,3

Portela - Um samba com a cara da Portela. Comovente. Lindo. Extraordinariamente belo. Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Naldo estão de parabéns. Atingiram a altura da obra-prima num samba que merece ser o grande hit do carnaval de 2012. Sem deixar de olhar para o futuro, os compositores flertam com o passado, numa junção absolutamente feliz de tempo e espaço, trazendo para o nosso deleite um samba de três partes, com refrões emocionantes e que já fazem parte do panteão de trechos inesquecíveis do carnaval carioca. Madureira vai subir o Pelô! Nota 10

União da Ilha do Governador - A safra de sambas da União da Ilha para 2012 foi considerada pelos 'bambas' muito abaixo da média do que a escola poderia proporcionar. De fato, com um tema bastante interessante, aludindo aos Jogos Olímpicos de Londres puxando para a competição que será disputada no Rio em 2016 e ao fato de que a Grã-Bretanha é uma ilha feito a Ilha do Governador, os compositores desta vez não foram tão inspirados. A junção das obras das parcerias de Marquinho do Banjo e Aloísio Vilar, melodicamente, não foi ruim, mas o conjunto ficou confuso. Uma lástima para uma escola que angaria a simpatia de muitos dos que gostam de carnaval. Destaco o refrão de cabeça, que assim como o da São Clemente, gruda nos ouvidos feito chiclete. E Ito Melodia, mais uma vez foi muito bem na interpretação de um samba insulano. Nota 9,3

Renascer de Jacarepaguá - A caçula do Grupo Especial estreia em 2012 com um enredo homenageando o artista plástico Romero Britto e com um samba, no meu entender, apenas correto. A composição de Cláudio Russo e parceiros não consegue atingir o píncaro do que se espera de um samba. Não tem um refrão explosivo, não tem emoção, não tem 'pegada'. Apenas algunas sacadas inteligentes relativas ao homenageado se salvam numa obra meramente descritiva. Rogerinho Renascer não comprometeu na gravação, mas a escola buscou se socorrer de um nome de peso. Veio Nêgo, que durou pouco mais de uma semana na Renascer e já está no olho da rua. Só um milagre deverá manter a agremiação de Jacarepaguá no Grupo Especial em 2013. Nota 9,2