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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Lições (des)aprendidas

Em 29 de novembro de 2012, este blog cantou a pedra. Parecia que eu estava adivinhando o desfecho da campanha da seleção brasileira na Copa de 2014, sob o comando de Scolari e Parreira. O acachapante 7 x 1 que a Alemanha impôs em Belo Horizonte, no maior vexame da história de mais de 100 anos do Brasil no futebol, nos dá mais uma lição que insistimos em não aprender.

Klose, 16 gols em Copas. Ronaldo mereceu ter o recorde quebrado, por tudo o que fez e fala fora dos gramados
Os sintomas de que alguma coisa está muito errada - e faz tempo - estão aí para todo mundo ver. O Santos, não satisfeito em levar um 4 x 0 do Barcelona na final do Mundial de Clubes, levou oito num amistoso, ano passado. O Internacional perdeu para o canhestro Mazembe, da República Democrática do Congo. E o Atlético-MG foi impiedosamente derrotado pelo Raja Casablanca na semifinal do Mundial de Clubes. Sem contar que na atual edição da Copa Bridgestone Libertadores, não há nenhum clube do país entre os quatro finalistas. Enchiam a boca os entendidos para exaltar a presença de Cruzeiro, Flamengo e do próprio Atlético e todos ficaram pelo caminho, em meio a derrotas e campanhas pífias.

Vamos combinar também que o Campeonato Brasileiro não é dos mais atrativos também. Ingressos caros num país de salário mínimo de R$ 670 desmotivam o torcedor, que prefere ficar em casa - já que as partidas são transmitidas (quase todas) pela televisão, atendendo sempre aos critérios da Globo, que prefere dar ibope a Corinthians e Flamengo do que transmitir partidas de acordo com a importância das mesmas na classificação do campeonato. Como efeito, as médias de público decaem e dos principais centros do futebol mundial - é claro - o Brasil não figura com um clube sequer entre os principais campeões de renda no planeta.

E aí entra em cena a Alemanha, de novo.

O 7 x 1, o "Mineirazo", é uma vergonha pra ninguém botar defeito. Deveria servir de lição, mas...
Alemanha que nos massacrou terça-feira, que nos impingiu um banho de bola como poucas vezes eu vi uma seleção fazer em cima do Brasil. Esqueçam o Maracanazo de 1950 no quesito vergonha. Esqueçam o 3 x 0 de Saint-Denis em 1998, dos gols do Zidane e da convulsão do Ronaldo. Vergonha? Vergonha foi isso que todo mundo viu em HD e rede mundial, para deixar qualquer um sem saber onde enfiar a cara. E podia ser de muito mais do que sete: ao fim do primeiro tempo, 5 x 0 a favor no placar, os próprios jogadores alemães - em RESPEITO aos torcedores e à história da seleção brasileira - tiraram o pé. Afinal, para que o esforço se o resultado já os punha na decisão? Schurrle fez mais dois, mas entende-se: entrou para mostrar serviço ao técnico Joachim Löw. Mas os alemães já tinham feito o estrago e nem o gol de Oscar atenuou o vexame.

Os nossos adversários da semifinal, velhos conhecidos de Copas do Mundo, com 13 semifinais e agora oito decisões no currículo, também tiveram suas lições para aprender. E aprenderam. Foram espiaçados pela Croácia, uma nação estreante, com um sonoro 3 x 0 na Copa de 1998. Caíram fora da Euro 2000 logo na primeira fase. A Deutsche Füssball Bund acordou para a vida e percebeu que, se não houvesse uma reformulação, os alemães perderiam o prumo no futebol mundial.

Em 2002, um time mesclando jogadores de técnica duvidosa - alguns até inexpressivos - a veteranos como Bierhoff, um solitário craque (Michael Ballack) e um desconhecido e predestinado atacante, chamado Miroslav Klose, conseguiu ir além do que se esperava e perdeu para o próprio Brasil na final em Yokohama. E o que se viu depois disso? Mais três semifinais consecutivas, com dois 3ºs lugares e um vice da Eurocopa de 2008. Afora a constância, uma geração formidável de jogadores surgiu na base e o resultado está aí.

Os próprios clubes do país se fortaleceram, a Bundesliga hoje é uma das ligas mais valorizadas da Europa e do futebol mundial e temos visto, com frequência irritante, Bayern de Munique e Borussia Dortmund entre as melhores equipes do continente, com jogadores excelentes e futebol bem jogado, dinâmico, pra frente. 

Parece o Brasil, não é mesmo? Só que não.

Em vez de melhorar, dar passos à frente, queremos retroceder. Fala-se de Tite para 2018. Pode ser um vencedor, no que não discordo, mas a mentalidade dele não difere muito dos que lá estiveram na seleção - Dunga, Mano, Felipão - todos, por sinal, gaúchos. Nada contra o povo do Rio Grande do Sul, mas chega! Está na hora de RENOVAÇÃO. De REFORMULAÇÃO. De RECRIAÇÃO.

Querem o quê? Que a seleção fique fora da Copa de 2018? 

O problema está na mentalidade retrógrada dos abjetos donos do poder que se mantém na CBF. O filhote da ditadura e Muttley nas horas vagas José Maria Marin e seu futuro sucessor, Marco Polo del Nero, numa ciranda na qual quem roda, de verdade, é o futebol brasileiro. Roda, roda e não sai do lugar.

Marin é refratário à ideia de um técnico estrangeiro, o que seria tremendamente saudável para a seleção brasileira. Que se dane a barreira do idioma. Por que não arejar as ideias com gente nova, capaz de trazer propostas ousadas e devolver ao futebol brasileiro o talento que tem faltado? As divisões de base, mais do que uma mina de ouro onde empresários inescrupulosos garimpam falsos craques a preço de banana, são de uma aridez desértica em termos de talento. 

Quem tivemos, de natureza excepcional, nos últimos 10 anos no futebol brasileiro? O Neymar. E paramos por aqui! Não existe renovação, não existe a busca do craque. Bom mesmo é formar jogadores altos, de defesa ou volantes, de preferência de muita correria e obediência tática. Craques? Esqueçam. Ninguém se preocupa com eles.

O único culpado? Menos... MUITO menos
E aí, nós vamos discutir a seleção brasileira do Scolari, em que a culpa do fracasso desta Copa, ao invés de recair em quem convoca e quem escala, fica nas costas de um único jogador, que foi sacaneado sucessivamente por todo mundo. Claro que falo do Fred.

Acusa-se o Fred de ser poste, cone, bosta, inútil, imóvel e o cacete a quatro. Mas esse mundo é engraçado: em 2013, TODO MUNDO gritava "O Fred vai te pegar" após cada gol marcado contra - vejam bem os adversários - Itália, Uruguai e Espanha. Alguma coisa aconteceu de errado em 365 dias, porque o meio-campo da seleção inexistiu em TODA a Copa (Oscar é um morto e Hulk é ridículo) e Neymar jogou mais recuado, para conduzir a bola vindo de trás e o camisa #10 apelava mais para o individualismo do que qualquer outra coisa. Aí, meus caros, centroavante morre de fome se a bola não chega a ponto de que se marque um gol. E Fred fez só um. E Fred foi considerado o culpado por tudo. Até pela fratura da 3ª vértebra da coluna do Neymar.

Explicar o inexplicável? Tenta a sorte, Scolari...
Acho uma sacanagem imputar a culpa ao jogador, como se fosse o único. Perderam TODOS. Todos os 23 convocados, toda a comissão técnica - que depois nos ofertou um espetáculo de empáfia, soberba e arrogância numa entrevista coletiva das mais patéticas que já existiram - e a Confederação Brasileira de Futebol. O esporte é coletivo e não individual. Parem com essa perseguição idiota, que beira o clubismo. Fica claro que, para quase todo mundo, Fred é um pária porque veste a camisa do Fluminense, hoje odiado pela grande maioria dos torcedores dos clubes rivais.

Essa é mais uma lição que infelizmente deixamos de aprender. A Copa não foi perdida só porque o Fred não fez os gols que deveria fazer. Foi perdida a partir do momento em que se entregou de volta o comando da seleção a Felipão e Parreira. Perdeu-se a grande chance de uma renovação e de uma reinvenção que poderia ter rendido frutos ou, talvez, uma derrota muito menos vexaminosa que o Mineirazo de 8 de julho.

O 7 x 1 deveria sacudir as estruturas do futebol brasileiro. Da base da pirâmide até o topo. Mas o que eles querem?, pergunto novamente, como fiz em 2012: atingir o fundo do poço?

A soberba e a presunção nos fizeram cair fora em 1974 quando Zagallo fez troça da Holanda; perdemos em 1982 porque não soubemos segurar um resultado de empate; caímos fora em 1986 porque quem deveria cobrar o pênalti no tempo normal amarelou; perdemos em 1990 porque começamos a dar as costas para a essência do nosso futebol; fomos eliminados em 2006 porque o oba-oba deu a tônica desde a preparação em Weggis e o ego dominava aquela seleção e, finalmente, nos mandaram pra casa mais cedo em 2010 porque não tivemos equilíbrio e força para reagir após a virada dos holandeses.

Não vou me estender mais no assunto. Afinal, quem sou eu para desagradar a Dona Lúcia, não é mesmo?

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Um passo atrás

Todo mundo feliz e sorridente na foto, agora. Quero ver se caso a seleção fracassar em 2014, quem vai dar risada...

A Confederação Brasileira de Futebol pisou feio na bola e resolveu dar um passo atrás para, quem sabe, conseguir dar dois à frente. A saída de Mano Menezes do comando da seleção não era esperada para agora, mas a julgar pelo desempenho pífio na Copa América do ano passado e por mais um vice-campeonato olímpico, ficou claro que ele não duraria muito no cargo. E Mano, é bom lembrar, fora uma escolha do antigo presidente Ricardo Teixeira, não do atual, José Maria Marín, que assumiu o cargo em meio a denúncias de corrupção sobre o mandatário anterior - mas que, cabe a ressalva, não é dos mais queridos no meio. Muitos o têm como uma figura abjeta, governador biônico do estado de São Paulo, malufista, filhote da ditadura, enfim... coisas da política nacional.

Saiu da seleção um técnico de currículo mediano, carisma beirando a zero e que por muitas vezes convocou jogadores insípidos e outros, visivelmente, visando negociações com o mercado internacional da bola. Não é de se espantar que Hulk, atleta do Porto antes dos jogos olímpicos de Londres, tenha sido negociado por uma fortuna absurda para o Zenit St. Petersburg, da Rússia. Como explicar tal fenômeno? Com a palavra, as ligações estranhas entre o técnico e seu empresário, Carlos Leite, que também era responsável por dezenas de jogadores convocados por... Mano Menezes.

De certa forma, a demissão de Mano põe fim a um fenômeno que incomodava boa parte da imprensa: o corinthianismo que começava a imperar dentro da seleção, pois além do técnico, que trabalhou no alvinegro de Parque São Jorge, havia ainda Andrés Sanches por lá. Deram-lhe um cargo de diretor de seleções, quando Teixeira ainda mandava alguma coisa. Chegou Marín e as coisas mudaram. O vice de Marin é o presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), Marco Polo del Nero, com passado ligado à Sociedade Esportiva Palmeiras. Como dois bicudos não se beijam e, após a saída de Mano, Andrés insistiu que Tite, treinador do seu Corinthians, seria a escolha perfeita para substituir Mano. Erro fatal: ontem, o dirigente e Marín chegaram a um acordo e Andrés pediu demissão.

 A CBF não conseguiu enganar ninguém quando disse primeiro que anunciaria o novo treinador "em janeiro de 2013", mudando depois para "quinta-feira", vulgo "hoje". O acordo com Luiz Felipe Scolari já estava sacramentado, pronto, engavetado e esperando o momento exato para que, livre de Mano, Marín pudesse acertar com o treinador que ele e Marco Polo queriam para a seleção. 

Consumatum est, a reboque do acerto, veio Carlos Alberto Parreira, para exercer a função de coordenador. Com oito Copas do Mundo na bagagem - o que, convenhamos, não é pouco, Parreira é um homem viajado, educado, teórico e político. E principalmente, muito mais conhecedor de futebol do que o bronco Andrés Sanches, que exercia, na opinião de muitos, um cargo além do poder que um homem como ele poderia ter dentro dos bastidores do futebol brasileiro. O binômio Felipão-Parreira, mais do que uma combinação "vitoriosa", porque foram os treinadores das duas últimas conquistas do Brasil em Copas, em 94 e 2002, é uma forma de Marín e a CBF lavarem as mãos em público. Disse o presidente da entidade, que aliás cometeu a gafe de chamar Parreira de Antônio Carlos Parreira (à la Roberto Horcades, que chamou Fred de Fábio na apresentação do centroavante no Fluminense em 2009), que "está feita a vontade popular". 

Não, presidente, não está feita a vontade popular. Pior: a CBF joga nas costas de Felipão e Parreira a completa responsabilidade da conquista do hexa. Sabem aquela fala do Capitão Fábio em Tropa de Elite?  "Essa pica não é mais minha. Agora tá na mão do aspira." Pois é... a "pica" agora está nas mãos dos dois que chegam para apagar o incêndio que tomou conta da seleção brasileira.

No fundo, a escolha até pode ter algum fundamento. Felipão é um treinador que se dá bem em competições de tiro curto. Com um Palmeiras de elenco tenebroso, levou no primeiro semestre a Copa do Brasil e levou o alviverde, recém-rebaixado à Série B, de volta para a Libertadores da América. Mas não são poucos os que creditam esse rebaixamento ao trabalho que Scolari (não) fez no segundo semestre. Claro que há uma corrente favorável a pôr toda a culpa na diretoria encabeçada pelo presidente Arnaldo Tirone, que - vamos e venhamos - é um péssimo dirigente. Mas Felipão também deixou o barco correr frouxo, o clima ficou ruim, insustentável e aí é fácil largar o mesmo barco à deriva quando se sabia que a corrente já tinha levado a embarcação palmeirense rumo à Segundona.

E tem mais: o Felipão de 2013/14 não é mais o mesmo de 2002 - com relação a conquistas, porque a metralhadora giratória continua a mesma, repleta de frases de efeito e outras infelizes, como a que ele soltou sobre os funcionários públicos. Quantos títulos após o penta ele conquistou mesmo? E Parreira? Que conquistas relevantes teve como treinador nos últimos tempos? Sem querer tirar os méritos dos dois quando a seleção ganhou Copas do Mundo sob o comando de ambos, insisto: a escolha é um passo atrás da CBF.

O futebol brasileiro, 14º colocado no ranking de seleções da FIFA, nunca atingiu um nível de descrédito tão grande, nem mesmo quando a antiga CBD trocou Aimoré Moreira por João Saldanha - e olha que João Saldanha era jornalista e só tinha sido treinador, de forma 'experimental' no Botafogo, de 1955 a 1959. Uma seleção que prefere enfrentar Gabão, China e outros menos votados a fazer confrontos, como nos velhos e bons tempos, contra potências feito a Argentina de Lionel Messi, a Alemanha de Özil e Götze, a Holanda de Robben e Sneijder e, principalmente, a Espanha cuja filosofia de jogo lembra o Barcelona do mesmo Messi citado linhas acima, só pode estar onde está no futebol internacional.

Há não muito tempo atrás, quem jogava pra frente, de forma envolvente, alegre, objetiva e que encantava a torcida, éramos nós, os brasileiros. E hoje, o que jogamos? O que os nossos treinadores mostram de envolvente, objetivo e alegre em seus times? O Fluminense, embora campeão brasileiro com méritos e uma campanha de números incontestáveis, fez várias partidas onde irritou sua torcida. Venceu várias delas jogando mal, mas é do esporte. E olha que eu sou torcedor do Fluminense, nunca é demais lembrar.

Futebol, hoje, é resultado, bola na rede e três pontos. Que se exploda o placar. Mas poderia haver, como houve noutros tempos, o diferencial, a jogada que vale a pena ser vista e revista, o toque refinado do craque. E o treinador que, na minha concepção, seria perfeito para reimplantar a vocação de futebol bem jogado que sempre tivemos, não era um brasileiro.

Para o meu gosto, Pep Guardiola é que deveria ser chamado para dar uma injeção de moral e ânimo para a seleção brasileira. Hoje, na coletiva de apresentação de Felipão e Parreira, José Maria Marín desdenhou e disse que Guardiola "nunca foi treinador de seleção". Não deixa de estar certo o presidente da CBF. Mas, puxemos pela memória: Dunga fora treinador de seleção, quiçá de clube, antes de assumir após a saída de Parreira e o fracasso na Copa de 2006? E Mano? Tinha credenciais e peso para treinar uma seleção brasileira? Nem Felipão tinha treinado seleção alguma antes de pegar o rabo de foguete em 2001 e conseguir o penta. Só depois disso é que foi treinar Portugal numa Eurocopa e numa Copa do Mundo.

A CBF esqueceu que o futebol brasileiro só experimentou renovações e reinvenções na parte tática com a presença de estrangeiros. Com o WM de Herbert Chapman, introduzido aqui - se não me falhe a memória -  pelo húngaro Dori Kruschner, saímos da idade da pedra para um 3º lugar na Copa da França em 1938. Depois disso, tivemos que pagar tributo ao uruguaio Ondino Vieira, a outro húngaro, Bela Guttman e também ao paraguaio Fleitas "Feiticeiro" Solich.

Não é a toa que a mentalidade de "seleção brasileira dirigida por brasileiros" só foi quebrada uma única vez, com Filpo Nuñez no comando de um Palmeiras travestido de seleção brasileira, que derrotou por 3 x 0 o Uruguai num amistoso em 1965, em Belo Horizonte. Enquanto continuarmos assim, a nossa decadência técnica, tática e competitiva vai ficando cada vez mais latente e o Brasil cada vez mais atrasado e defasado em relação aos seus adversários.

Será que a surra que o Santos levou do Barcelona há quase um ano já não tinha servido de lição? 

Pelo visto, o pessoal quer levar mais porrada para ver onde é que fica o fundo do poço. Se bobear, o futebol brasileiro está bem pertinho dele. É só fracassar mais uma vez - e em casa - para ver o que vão falar da CBF de José Maria Marín e asseclas pós-2014.

É isso.